Depois de alguns anos em que a tendência era arrancar os olivais, por se considerar que a produção não compensava os gastos, sobretudo, com a apanha da azeitona, o cenário alterou-se um pouco, porém, não sabemos o que o futuro nos reserva.
Esta situação coincidiu com mais um êxodo do mundo rural para os espaços urbanos, com primazia para as grandes cidades ou, em alternativa, para os bairros que nasciam como cogumelos nas periferias das grandes cidades.
As casas agrícolas de maior dimensão renderam-se à mecanização da agricultura e dispensaram os imensos ranchos de trabalhadores que anteriormente contratavam nas terras mais a norte do Ribatejo, sobretudo na Alta Estremadura ou na Beira Litoral, onde não havia tantos olivais e, por isso, havia mão de obra disponível nesta época do ano, uma vez que também na Beira Baixa havia muitos olivais onde era necessário apanhar a azeitona.
Alguns pequenos proprietários do Bairro ribatejano, que tinham vinte ou trinta oliveiras, ainda iam fazendo um esforço, apesar da idade que avançava, e com a ajuda de vizinhos ou familiares, iam conseguindo colher a sua azeitona, que, mesmo que não desse grande rendimento haveria de dar para o consumo da família, mas até para estes surgiu outra dificuldade.
É que por força das normas do Ministério da Agricultura, umas por sua iniciativa, outras decorrentes de imposições comunitárias, começaram a encerrar a maioria dos lagares de azeite que laboravam na nossa região. Umas vezes devido a questões sanitárias, dado que os lagares eram muito antigos e não tinham os requisitos então exigidos, outras vezes devido à legislação ambiental, devido ao facto de não haver estações de tratamento para evitar a permeabilização das águas russas nos solos, contaminando os níveis freáticos.
Enfim, eram mais as dores de cabeça e inquietações do que o rendimento do olival, daí que muitos proprietários abandonaram os seus olivais e a produção definhou.
Com as inovações tecnológicas na área da agricultura, as antigas oliveiras galegas foram arrancadas e em algumas regiões portuguesas, especialmente no Alentejo, começaram a plantar-se oliveiras de menor porte e que produziam muito mais, embora tivessem alguns constrangimentos, posto que a excessiva densidade de árvores acarretou problemas severos para a qualidade dos solos. Diziam, ao tempo, que os olivais modernos eram como os eucaliptos, secavam tudo à volta.
Enfim, não sou técnico agrícola nem agricultor e, por isso, corro o risco de não me explicar tão bem como gostaria, mas o que sei é que os antigos olivais ribatejanos têm desaparecido e a produção familiar é cada vez menos significativa.
Mas, não resisto a evocar os tempos mais antigos quando, por esta época, os campos eram inundados por ranchos de trabalhadores que se dedicavam a colher a azeitona. O nosso Ribatejo era uma das regiões mais importantes na produção do azeite, e, como nos ensina o povo em algumas das suas quadras, Santarém era, de facto, uma região muito rica nesta produção:
Corri Santarém à volta
Oliveiras, Olivais
P’ra ver se me esquecia
cada vez m’alembras mais.
Como as gentes ribatejanas não davam conta de tanta labuta, era necessária a contratação de ranchos de trabalhadores que durante semanas a fio, por vezes dois ou três meses, ficavam por cá para fazerem a apanha da azeitona.
O tempo muito frio e, por vezes, chuvoso, tornava mais difícil e penosa esta faina, que não sendo violenta pelo esforço físico exigido, se tornava ingrata pela contrariedade do tempo. Manhã cedo, o capataz tocava estridentemente o búzio para reunir o rancho, pois, não se admitiam atrasos, porque os dias (solares) eram mais curtos e tinham ainda de fazer a caminhada até ao olival. Os homens com as escadas, os serrotes e os paus de varejar, as mulheres com as cestas e os panais lá seguiam galhofando uns com os outros, pois, para difícil e triste já bastava a má sorte de uma vida árdua de trabalho e de magra féria.
Chegados ao olival, escolhiam um sítio abrigado das chuvas onde acendiam o lume para de vez em quando secarem alguma roupa, que por estar tão encharcada não se suportava no corpo, apesar dos agasalhos de estopa que se punham pelas costas, em jeito de capuz…
Homens e mulheres começavam a apanhar a azeitona do chão, que umas semanas antes tinha sido raspado, de modo que a erva não encobrisse os bagos que sempre iam caindo, após o que estendiam os panais para aparar a azeitona que ia sendo varejada.
Os homens varejavam as oliveiras, serrando alguma pernada que estivesse mais carregada, e que devesse ser cortada durante a poda, mas que, assim, para facilitar o trabalho, era desde logo cortada, enquanto as mulheres iam colhendo a azeitona desses ramos. À medida que as cestas se iam enchendo eram despejadas em sacas de estopa, que, depois, eram colocadas em carroças ou em carros de bois, onde eram transportadas para as imediações do lagar.
Antigamente quase todas as quintas do Bairro tinham lagar próprio, pelo que nestes casos a azeitona era depositada em tulhas e de imediato levada para o lagar, onde de dia e de noite prosseguia o trabalho de esmagar a azeitona, dando razão àquela expressiva quadra popular:
Verde foi meu nascimento
E de luto me vesti;
Para dar luz ao mundo
Mil tormentos padeci.
Pois, este padecimento da azeitona para se tornar nesse precioso néctar que é o azeite, transporta-nos para outra dimensão – a do azeite, com os usos que lhe estão associados na alimentação, no misticismo das mezinhas e das benzeduras, no adagiário… Enfim, o azeite, que é verdadeiramente uma bênção de Deus!
A azeitona já está preta
Já se pode armar aos tordos.
Diz-me lá, ó cara linda
Como vais de amores novos.
Nos ranchos de fora vinham muitas raparigas novas, mulheres jovens na idade, mas já maduras nas andanças do trabalho, que começara muito cedo. A sua permanência na região constituía um desafio para os rapazes locais, seus parceiros no trabalho, que não desperdiçavam o ensejo para namoriscar, o que, tantas vezes, deu mesmo em casamento. Assim, também a inventiva popular se debruçou sobre estas circunstâncias:
Azeitona miudinha
Apanhada uma a uma
Estes rapazes d’agora
Não têm vergonha nenhuma.
Concluída a safra da azeitona e enquanto nos lagares se ia transformando a azeitona no precioso azeite, era o tempo da adiafa, ou seja, da festa de final da colheita. Mas das adiafas, que as havia também nas safras da vindima ou das ceifas, falarei noutra oportunidade.
