Cumpre-se no próximo sábado, dia 22 de Agosto, o 104.º aniversário do nascimento do nosso saudoso Amigo João Gomes Moreira, que viria a falecer a 7 de Dezembro de 2017, aos 95 anos, na plenitude das suas faculdades intelectuais e dotado de um assinalável espírito jovial.

O relacionamento que mantive com João Moreira foi muito intenso, cúmplice até, pois as circunstâncias da vida proporcionaram-nos uma grande proximidade e um infinito companheirismo. Quando Celestino Graça morreu, em 1975, João Moreira sucedeu-lhe em algumas das suas funções, nomeadamente na direcção do Festival Internacional de Folclore de Santarém e no CIOFF – Conseil International des Organizateurs de Festivals de Folklore. 

Tive o privilégio de acompanhar Celestino Graça nos seus últimos anos de vida, passando depois a seguir as pisadas de João Moreira, integrando pela primeira vez a Comissão do Festival de Santarém no ano de 1977. O facto de ser então um dos responsáveis dos Grupos Infantil e Académico de Santarém – ambos fundados e dirigidos até à hora da sua morte por Celestino Graça – impôs-me um frequente aconselhamento com João Moreira, dada a sua reconhecida experiência no meio.

Em Lisboa, onde João Moreira vivia e trabalhava, ou em Santarém, durante os fins-de-semana que aqui passava, o contacto era assíduo. Havia sempre coisas a conversar e havia sempre muitos ensinamentos que retinha dos seus judiciosos conselhos. Pelo país, em reuniões da Federação do Folclore Português, de que eu já era dirigente, ou em diversos festivais de folclore, deslocávamo-nos juntos partilhando esse tempo para aprofundar a tão aliciante matéria que a ambos apaixonava.

João Moreira não foi um folclorista devotado às práticas da investigação etnográfica no terreno, mas no que deu cartas como ninguém foi na interacção fácil e afectuosa com os grupos folclóricos gerando uma empatia extraordinária, pelo que acompanhar o João Moreira em qualquer festival, no país ou no estrangeiro, era uma experiência singular. 

Ainda hoje, tantos anos volvidos sobre esses tempos áureos do João Moreira, é notória a sua influência em muitos festivais internacionais de folclore com a chancela do CIOFF que se realizam no nosso país, pois este saudoso Amigo estava sempre disponível para ajudar em qualquer pormenor e a aconselhar quem se lhe dirigia, sendo que, igualmente, não deixava de tecer alguns reparos em relação ao que lhe parecia menos bem. Mas, a elegância do seu trato e, sobretudo, a intenção positiva com que o fazia, tornavam-no sempre muito apreciado.

Como continuo a participar em diversos fóruns onde o folclore constitui a componente fundamental da sua realização, a lembrança de João Moreira continua viva, pelo que com toda a propriedade se pode dizer que só morrem os que são esquecidos. E posso garantir que o nosso Amigo João Moreira continua bem presente nas nossas reuniões.  

João Moreira teve uma enorme influência na valorização do Festival Internacional de Folclore de Santarém, posto que Celestino Graça confiava plenamente nas suas capacidades e no seu empenho, enquanto ele próprio se ocupava dos aspectos de maior melindre e na apresentação dos espectáculos, coisa que tanto gostava de fazer.

Porém, foi a partir de 1977 que o Festival de Santarém melhor se estruturou, e isto fica a dever-se por inteiro a João Moreira, que carreou para a organização do Festival aspectos que até então eram muito incipientes, como era o caso dos cenários, dos camarins para os Grupos, do catálogo e do cartaz do Festival, do pagamento do “pocket money” aos Grupos, das viagens a Lisboa, a Nazaré e a Fátima, e das dietas alimentares exigidas pelos Grupos, dada a especificidade das suas culturas.

O CIOFF aprofundou muitas das regras de organização dos Festivais, impondo melhores condições para os Grupos e para o Público, e João Moreira levou muito a sério estas exigências, o que ainda mais prestigiou o Festival de Santarém em comparação com outros festivais que tinham a participação de grupos folclóricos estrangeiros, mas que não reuniam as condições exigidas pelo CIOFF. Convém notar-se que durante muitos anos o Festival de Santarém foi o único em Portugal que tinha a chancela do CIOFF, organização internacional de que, de resto, foi co-fundador.

O vasto conhecimento de João Moreira ao nível da organização de festivais de folclore adveio-lhe da presença anual em diversos festivais no estrangeiro, designadamente em Confolens (França), que é muito justamente considerado um dos melhores festivais do mundo, e junto do qual tentámos adaptar o conceito do Festival Celestino Graça a partir de 2015, quando regressou à Casa do Campino e se alterou expressivamente o certame que passou então a designar-se de Festival Celestino Graça – A Festa das Artes e das Tradições Populares do Mundo.

O Festival Celestino Graça mantém como âncora o Festival Internacional de Folclore, todavia integra na sua cada vez mais vasta e diversificada programação outras actividades dedicadas, designadamente, ao artesanato, ao fado, à fotografia, aos jogos tradicionais, à gastronomia, a exposições temáticas, ao Fandango, aos “Sons Autóctones – Sons da Memória”, uma mostra de instrumentos musicais tradicionais que inclui uma área de sensibilização e de formação teórica, oficinas dedicadas a diversos instrumentos musicais, e um grande espectáculo que terá lugar na Casa do Campino, no domingo, dia 6 de Setembro, a partir das 15 horas, antecedendo a Gala de Encerramento do Festival Celestino Graça.

A implementação deste novo conceito fica muito a dever-se às longas conversas que mantivemos com o João Moreira, que dava nota da importância de criar atractivos para o Festival, quebrando a rotina em que habitualmente estes certames se tornam, pois, o público precisa de ser surpreendido. 

Não podemos estar mais de acordo com este pensamento do nosso Amigo João Moreira, pelo que com inteira justiça cada edição do Festival Celestino Graça tem também um grande contributo seu. 

O Grupo Académico de Danças Ribatejanas, enquanto organizador do Festival Celestino Graça – A Festa das Artes e das Tradições Populares do Mundo assumiu convictamente este desafio e por isso oferece ao público ribatejano uma vasta programação em cada edição adaptando o conceito de Confolens às nossas realidades sócio-económicas, pois a realidade dos orçamentos é abissal. O livre-trânsito para assistir aos espectáculos em Confolens custa mais de 130 euros, e em Santarém com 25 euros pode-se assistir a todos os espectáculos!

Não se pode comparar o que não tem comparação, porém do que não se pode abdicar é da evocação dos grandes obreiros deste certame e de manter a dignidade que os seus prestigiados nomes exigem. Vivam Celestino Graça e João Moreira! Viva o Festival de Santarém!

 

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