No próximo sábado, no âmbito da Feira do Ribatejo – Feira Nacional de Agricultura, será prestada justa homenagem póstuma a um dos nossos Campinos. A campinagem ribatejana é a pedra de toque deste certame a que Celestino Graça deu corpo e alma no já longínquo ano de 1954, com o apoio e a ajuda de muitos outros ribatejanos, que se devotaram à valorização da nossa região e à sua promoção por todo o país e além-fronteiras.
Celestino Graça conhecedor profundo da cultura ribatejana rasgou horizontes para os aspectos mais característicos da região, especialmente no que concerne à figura emblemática do campino e à expressão da cultura tradicional, sobretudo, com a participação de grupos e ranchos de folclore.
Sobre a paixão de Celestino Graça pelos campinos, que homenageou em permanência através da sua presença durante os quinze dias da Feira e da sua repetida participação nas corridas de velocidade e de perícia e na condução dos jogos de cabrestos, o Correio do Ribatejo referia-se-lhe assim na sua edição de 29 de Maio de 1954: “os campinos, na sua correria louca, desenfreada, daquela centena de homens da Lezíria, em suas facas fogosas, vestes berrando ao sol, barretes ao vento, os arreios reluzentes chispando, numa cavalgada bravia, à estridência do colete encarnado e ao azul do calção ajustado à pele de ovelha da sela, pampilho ao alto, enevoados pela poeira rubra do saibro, tudo aquilo doirado, apoteótico, aparatoso a mais não. Com verdade, o locutor Celestino Graça proclamou que coisas destas só se vêem em Portugal, e, em todo o Portugal, só no nosso Ribatejo.”
Nada mais verdadeiro! Hoje são escassos os campinos que ainda se dedicam plenamente a esta actividade, pois a modernização da agricultura e a evolução da economia ditou outras regras, porém, cumpre-nos exaltar estes autênticos heróis da lezíria ribatejana e saudar os que ainda persistem nesta representação em louvor de quem tão abnegadamente os precedeu nesta caminhada.
Estes valorosos campinos serviram com trabalho, esforço e talento algumas das mais relevantes ganadarias nacionais, brilhando em cima do cavalo no pastoreio do gado bravo e na condução de toiros de lide a caminho das praças.
A vivência do Campino de antigamente era muito difícil, penosa e arriscada, algo que nem sempre transparece na sua presença galharda e varonil nas festas e feiras onde participa em representação da Casa Agrícola que serve com o maior empenho e dedicação. Ali, em tempo de festa, o Campino, envergando a sua tão bela indumentária, irradia alegria por todos os poros, mas, na solidão da lezíria para onde ia de farnel aviado por uma semana ou mais, nas noites gélidas e chuvosas do inverno o Campino era uma figura recatada, calma e tranquila.
Ao longo do ano o “moiral” dos toiros tinha sempre trabalho para fazer, desde a desmama dos bezerros, apartando-os das mães, à ferra, à tenta, às mudanças de pastagens, à condução para as praças “à unha de cavalo”, sobretudo quando ainda não havia facilidade de os transportar em camiões, e depois o regresso à Casa, onde alguns dos mais possantes eram aproveitados para a canga, após um arriscado trabalho de amansia. Outros tempos, quando a campinagem envolvia tanta labuta…
Falemos um pouco da sua maneira de vestir tão própria e singular. Não há dúvidas de que o trajo de gala do campino ribatejano faz jus à adjectivação do “mais elegante trajo masculino da indumentária popular portuguesa”. Se os trajos das mordomas vianesas se impõem ao nível do trajo feminino, o do campino pontifica ao nível do trajar do homem português.
Porém, este trajo encerra em si mesmo um conjunto de singularidades e de equívocos, que bem justificam uma próxima abordagem sobre a sua história e o seu uso.
Das úberes planícies ribatejanas, confiadas à gestão de algum feitor ou arrendadas a diversos foreiros, os lavradores asseguravam a subsistência da Casa para uma vivência rica e faustosa, a que se impunha engrandecer algum prestígio decorrente dos pergaminhos da ascendência familiar ou da fama da sua produção.
A existência de uma ganadaria brava era uma das formas de alcançar maior notoriedade, pois, sempre se referia à origem do gado lidado na toirada, e, claro, quando os toiros investiam a contento dos toureiros e para gáudio da populaça, o lavrador não cabia em si mesmo de tão feliz.
Quando a ilustre família vinha passar alguma temporada ao campo, a criadagem que servia em casa acompanhava-a. No caso dos lavradores detentores de ganadaria brava, era importante fardar os campinos, como se se tratasse de criados do campo, por analogia com os serviçais domésticos.
E terá sido a partir desta altura que os campinos passaram a usar um fato de gala constituído por um calção de fazenda afivelado, colete encarnado trespassado com duas ordens de botões de metal, meia branca de algodão e jaqueta da mesma cor dos calções. Para manter a relação com o trajo rural, lá estavam o barrete verde com carapinha encarnada, a cinta vermelha e os sapatos de prateleira, onde aplicavam as esporas quando as tarefas o impunham.
Ora, este trajo era muito diferente da indumentária usada no dia-a-dia, e que constava apenas de umas calças de cotim, direitas e de cós alto, um colete do mesmo tecido com uma única ordem de botões, uma jaleca, mais grossa, para fazer frente ao frio, no tempo dele, e umas botas de atanado.
Ao contrário do que muito boa gente pensa, o fato de gala do campino só era usado em circunstâncias muito especiais para a vida da família do lavrador, e, naturalmente, sob as suas ordens, transmitidas ao feitor ou ao abegão.
Quando se marcava o dia da tenta ou da ferra, no dia da toirada em que eram lidados toiros da sua divisa, em festas ou feiras onde a Casa Agrícola se fazia representar, ou em festas de casamento ou baptizado de algum membro da família, lá ordenava o Patrão “que queria os criados fardados”. Assim mesmo, sem tirar nem pôr, uma vez que aquela indumentária era mesmo uma farda, propriedade do Lavrador, que a confiava ao campino em dia de S. Miguel, quando se ajustava pelo prazo de um ano àquela Casa Agrícola.
O nosso saudoso Amigo António Colorau só viveu a lezíria desta maneira, movido por uma paixão infinita, pois tinha outras ocupações na Casa que tão empenhadamente serviu, porém sempre que podia lá se juntava aos campinos da Família Infante da Câmara para os ajudar em tudo o que era preciso fazer. E era aqui, apesar de tudo, que o António Colorau mais gostava de estar.
É assim que o lembramos, é assim que lhe prestamos a nossa singela homenagem, agradecendo-lhe o tanto que nos ensinou a conhecer o nosso Ribatejo!
