Foto Mauricio Junior

Os dois Elefantes de Santarém, duas esculturas de estilo indo-português datadas do início do século XVII, regressaram hoje à Igreja de São João do Alporão, após mais de 30 anos guardados na Reserva Museológica Municipal.

A recolocação das esculturas no Núcleo Museológico de Arte e Arqueologia foi assinalada numa cerimónia aberta ao público, integrada nas comemorações dos 150 anos do Museu Municipal de Santarém e nas Jornadas Europeias do Património.

Foto: Mauricio Junior

“Hoje estamos a colocar esta memória que agora volta a ser uma memória presente das nossas vidas à disposição de todos,” afirmou o presidente da Câmara Municipal de Santarém, no decorrer da cerimónia.

A cerimónia, integrada nas comemorações dos 150 anos do Museu Municipal de Santarém e na programação das Jornadas Europeias do Património, marcou o reencontro da população com duas das peças mais reconhecidas do património histórico e artístico da cidade.

“É muito relevante que todos nós possamos passar a mensagem do impacto que está aqui neste monumento, da sua beleza e daquilo que foi também a exigência da Câmara Municipal de qualificar este riquíssimo património”, sublinhou João Teixeira Leite.

O autarca enquadrou o regresso dos Elefantes numa estratégia municipal mais ampla de valorização do património histórico da cidade, que inclui a recuperação e reabertura de monumentos e a criação de condições para uma maior fruição pública das colecções e espaços culturais.

Uma memória que regressa 33 anos depois

As duas esculturas indo-portuguesas, datadas do início do século XVII, estiveram durante décadas ligadas ao quotidiano dos habitantes de Santarém, sobretudo através da sua presença junto do antigo Museu Municipal.

Em 1993, por razões de conservação e salvaguarda, foram retiradas do espaço público e integradas na Reserva Museológica Municipal. Desde então, apesar de afastadas da exposição permanente, continuaram presentes na memória de várias gerações de scalabitanos.

O regresso a São João do Alporão permite agora recuperar essa relação com a comunidade, colocando novamente as esculturas num espaço de acesso público.

O historiador do Município, Luís Mata, destacou precisamente esta dimensão da história dos Elefantes, lembrando que o valor patrimonial das peças não resulta apenas da sua antiguidade ou qualidade artística, mas também das relações que estabeleceram com diferentes gerações da cidade.

“A pedra permaneceu, mas os lugares, as funções e os olhares que sobre ele se projectaram foram mudando”, afirmou.

A história dos Elefantes remonta ao século XVII. Terão sido concebidos como suportes de uma arca tumular ou de um monumento funerário relacionado com uma personalidade ligada ao Estado Português da Índia.

As esculturas chegaram às colecções municipais no início do século XX, por doação de Maria Luísa da Silva Pedroso, viúva de António Mendes Pedroso. Ao longo do tempo, passaram por diferentes espaços da cidade, acabando por adquirir uma forte dimensão afectiva junto da população.

Durante décadas, gerações de crianças brincaram junto dos Elefantes, tornando-os parte da memória quotidiana de Santarém.

É também desta ligação que nasceu o mote do Museu Municipal — “Temos Memória” —, numa relação simbólica entre as esculturas originalmente destinadas a perpetuar uma memória funerária e as memórias de infância que acabaram por gerar.

“Reviver, resistir, re-imaginar”

A cerimónia decorreu no âmbito das Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema “Património em risco: reviver, resistir, re-imaginar”, conceitos que, segundo Luís Mata, se ajustam à própria história dos Elefantes.

Foto: Mauricio Junior

“Reviver”, porque regressam a um espaço acessível ao público; “resistir”, porque sobreviveram à passagem do tempo e às mudanças de contexto; e “re-imaginar”, porque podem hoje ser compreendidos simultaneamente como testemunhos da escultura tumular, peças da história luso-oriental e elementos da memória social de Santarém.

Para o historiador, o regresso representa, por isso, mais do que a simples recolocação de duas esculturas.

“Não regressam simplesmente ao lugar de onde partiram; chegam a um novo lugar trazendo consigo todos aqueles por onde passaram”, afirmou.

Património como estratégia para o futuro de Santarém

João Teixeira Leite aproveitou ainda a cerimónia para destacar a estratégia municipal de valorização do património, defendendo uma visão integrada para o centro histórico de Santarém.

O presidente da Câmara referiu projectos em curso e previstos para a recuperação de diferentes espaços patrimoniais e culturais, incluindo a Igreja de Marvila, a Igreja da Graça, o Convento de São Francisco e o Teatro Rosa Damasceno.

O objectivo, afirmou, passa por reforçar a capacidade de Santarém de apresentar ao público o seu património, a sua história e as suas colecções, criando uma rede cultural e patrimonial capaz de valorizar o centro histórico.

“Nós falamos muitas vezes em obras materiais, mas hoje aquilo que estamos a fazer é uma grande obra imaterial”, afirmou João Teixeira Leite, associando o regresso dos Elefantes à construção de uma memória colectiva e de um maior sentimento de pertença à cidade.

 

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