Emílio Baldeante: “Não desistimos de nenhum projecto”

Em Vale de Figueira há uma instituição que faz a diferença. O Centro de Bem Estar Social de Vale de Figueira (CBEVF) é muito mais do que uma IPSS. É, sobretudo, um polo de desenvolvimento local, a partir do qual se difundem um sem número de serviços de apoio à comunidade e que agora quer crescer de forma sustentada. Emílio Baldeante é, desde 11 de Maio último, o presidente da instituição que, cada vez mais, aposta em respostas inovadoras e assume a ambição de alargar a sua área de intervenção. Nas vésperas de mais uma Feira do Arroz Doce, o Correio do Ribatejo esteve à conversa com o responsável que partilha, nesta entrevista, a sua visão para o futuro do Centro de Bem Estar Social de Vale de Figueira e deixa a “receita” para o sucesso, que passa pela persistência e por não perder nenhuma oportunidade de candidatar projectos a financiamento.

Que prioridades estão definidas para o CBEVF com esta nova direcção?
Com esta direcção, as orientações que existem é para que a instituição se consiga manter, se possível, com o mesmo nível de exigência e, ao mesmo tempo, funcionar em termos de moldes mais garantidos. A instituição, que começou por dedicar-se às vertentes de Centro de Dia e Apoio Domiciliário, depara-se, nestas áreas em concreto, com algumas dificuldades, motivadas, em particular, com alguma concorrência desleal que se verifica no território.
A instituição está a tentar ultrapassar essas questões de diversas formas tentando, por um lado, aproximar-se o mais possível da comunidade, indo ao terreno, e, por outro, tentando captar novos utentes. Na vertente que consideramos essencial, ou seja, a Estrutura Residencial Para Idosos (ERPI), acontece o contrário: temos, actualmente, uma lista de espera de cerca de 70 a 80 utentes. Uma lista de espera à qual não conseguimos responder porque não temos infra-estruturas para poder albergar todos esses utentes. Isto para além de algumas dificuldades financeiras que alguns têm para suportar os custos, que, embora reduzidos, mas atendendo à conjuntura, e às reformas baixas, acabam por ter algumas dificuldades.
Convém referir que o Centro de Bem Estar Social de Vale de Figueira, é uma estrutura de referência no distrito e no país. Praticamos preços acessíveis, mas, por mais acessível que seja, é sempre difícil responder a todas as camadas sociais. Nessa vertente, temos andado a estudar a hipótese que temos de, de alguma forma, se pensar em alargar essa oferta, mas aí estamos limitados à área onde estamos inseridos, desde logo por questões de Plano Director Municipal (PDM).
Contudo, um dos grandes objectivos desta direcção é que, durante este ano, ainda possamos apresentar um projecto de ampliação da área da ERPI, que poderá não ser exactamente nos mesmos moldes que temos exactamente, baseada em quartos, duplos ou individuais. Estamos seriamente a pensar em apostas mais arrojadas e inovadoras, do tipo de residências assistidas, ou apartamentos assistidos. Isto porque, se fosse possível, poderíamos alargar o nosso leque de utentes, podendo disponibilizar a parte da ERPI que existe hoje para uma camada social com menos recursos económicos. Uma grande aposta desta direcção é, portanto, aproveitar ao máximo todas as infra-estruturas que o Centro já tem, com a transformação de algumas delas, nomeadamente uma garagem, transformando-a numa residência assistida.
Claro que para avançarmos com este tipo de projectos, precisamos de apoio porque as condições financeiras para avançar para um projecto desses suportado apenas pela instituição é impossível. Vamos estar condicionados a eventuais apoios comunitários, ou de empresas e mecenas. Temos o “PARES” que vai sair, já está divulgado, e vamos ver se, por essa via, há alguma hipótese. Sendo que uma grande prioridade é conseguir, com base no PDM e na área que ainda temos, implantar as infra-estruturas que temos idealizadas. Com base nisso, e se aparecer um apoio financeiro comunitário, ou algo similar, estamos perfeitamente focados em conseguir ampliar as instalações. Não faz sentido termos à porta 70 ou 80 utentes sem forma de lhes dar resposta. Uns, por questões financeiras, outros por questões de falta de infra-estruturas adequadas.

O que está projectado em concreto?
Estamos a pensar em cerca de 15 apartamentos de primeiro andar que, em média, teriam capacidade para três a quatro pessoas por apartamento. Uma aposta inovadora, que vai ao encontro das necessidades dos utentes. As pessoas procuram alguma privacidade e conforto, de alguma forma controlado por eles. Sendo que todo o apoio será prestado por nós, a aposta que esta direcção tem é diferenciar o tipo de resposta neste âmbito de infra-estrutura destinadas a idosos numa vertente em que os utentes possam ter alguma liberdade na sua forma de estar no dia-a-dia, possam querer ter alguns momentos de lazer sem estar com a presença permanente das nossas colaboradoras. Que possam ter a privacidade que entendem que devem ter. Isto vai passar por zonas que vamos ter também de lazer, zonas ajardinadas, especialmente para pessoas com maior mobilidade, que possam ter o seu pequeno jardim, seu espaço de descontracção, apostando numa terceira idade que se julga – num curto médio prazo – desejar outras respostas que não as tradicionais.
As pessoas vivem mais em conjunto, e temos tido já alguns pedidos nesse sentido até porque já temos quatro residências assistidas e são solicitadas constantemente porque as pessoas têm alguma privacidade tendo como suporte todos os nossos serviços.

Para além dos desafios que elencou inicialmente, que outros estão identificados?
De alguma forma, a instituição é um pouco desconhecida na comunidade e no país. Julgamos ter a capacidade para saír um pouco fora do âmbito actual de intervenção da instituição, nomeadamente se se vier a concretizar este grande objectivo de ampliação, e verificamos que, de alguma forma, a Instituição tem estado um pouco fechada à comunidade. Muito centrada nas suas preocupações, nas suas tarefas diárias. De alguma forma, o Centro tem estado um pouco limitado em termos de área geográfica e aos utentes dessa área. Temos, pois, como objectivo e desafio, abrir a instituição o mais possível às comunidades locais e, porque não, às comunidades nacionais. Neste enquadramento, gostaríamos, com as infra-estruturas previstas, conseguir atrair pessoas de outras zonas do país. Nesse sentido, reformulámos recentemente o nosso ‘site’ na internet – http://www.cbesvf.pt/ – onde damos a conhecer a grande panóplia de serviços que oferecemos actualmente.

Quais os serviços que a Instituição está a prestar à comunidade para além do apoio a idosos?
Neste momento, já temos vários serviços aos exterior que normalmente não são praticados por este tipo de instituições: serviços de enfermagem prestados às pessoas em geral desde que nos solicitem, mesmo que não sejam utentes. Temos fisioterapia, também para pessoas de fora da instituição. Temos a psicologia, através da psicóloga contratada este ano com esse objectivo, que para além do apoio de psicologia que possa fazer no interior da instituição queremos também alargar à comunidade em geral, para além de sessões de Pilates Clínico, já no interior da instituição. Estamos a pensar abrir um ginásio à comunidade em geral que, nesse caso, funcionará em regime nocturno, e temos vários outros serviços de lazer que procuramos abrir à comunidade.
Estamos também a tentar atrair a juventude que é uma lacuna da instituição, que é muito pouco frequentada por jovens. Vamos implementar, e já durante a Feira do Arroz Doce [dias 20 e 21 de Setembro], alguns desportos radicais para tentar que a juventude possa aparecer mais. Portanto: alargar o mais possível a instituição e abrir o mais possível à comunidade, com destaque para a juventude, é o grande propósito.

O que o levou, pessoalmente, a envolver-se numa instituição com este cariz?
Estou ligado à instituição já há 22 anos. Foi o anterior presidente (José Alexandre Silva, falecido a 29 de Março último) que me convidou. Tínhamos uma ligação forte um com o outro… O projecto estava numa fase inicial. Na altura, eu não tinha grande disponibilidade, mas disse que estava disponível para participar naquilo que me fosse possível, desde que o cargo não me desviasse da minha actividade profissional, porque não o podia fazer. Atendendo até a minha formação, (Gestão de Empresas), passei a constituir o Conselho Fiscal da associação da qual fui presidente durante 20 anos.
Com a infelicidade que ocorreu, o falecimento do nosso fundador, a instituição entendeu que eu seria a pessoa mais capaz para assumir o cargo. Isto para além de alguns compromissos que já tinha anteriormente assumido com o Alexandre Silva. Compromissos muito pessoais, muito particulares, privados, onde, no geral, assumi que, se um dia a instituição, de facto, precisasse de mim, numa situação de absoluta necessidade, eu cá estaria.
Por coincidência todos os órgãos directivos e colaboradores em geral entenderam que eu seria a pessoa certa para assumir, e eu decidi abraçar esta missão. Temos uma instituição que, na nossa zona, é o principal empregador. Já temos 34 colaboradores que dependem de nós e não é fácil gerir à distância. Todos os dias há algo a tratar, algo a decidir, a resolver, e, nesse sentido, isto já exige uma permanência absoluta na instituição.
Ao assumir esta missão, tinha a plena consciência que isto iria acontecer. Mas, eu e a minha equipa, queremos continuar a obra que aqui temos e, se possível, melhorar, em particular no alargamento de horizontes da instituição. A instituição é excelente, todos reconhecem isto, mas estava limitada à nossa comunidade.
Um dos objectivos iniciais foi envolver o mais possível os nossos colaboradores: já criamos alguns incentivos significativos para tentar motivar as pessoas, para que se envolvam em todas as actividades da instituição e com o acontecimento da Feira, solicitamos, de forma voluntária quem queria colaborar. Com grande satisfação minha, praticamente 100% aceitaram.

Para além do envolvimento das colaboradoras e da comunidade, que novas dinâmicas pretende introduzir?
O que temos constatado é que tivemos um número de pessoas da comunidade que, em tempos, participavam com a instituição e, por este ou aquele motivo, deixaram de aparecer e colaborar nas actividades desenvolvidas. A grande prioridade, neste domínio, é que a instituição se abra o mais possível a todas as pessoas que queiram colaborar connosco. Por muito pouco que seja, mais um sócio que se consegue são 12€ por ano. Todas essas ajudas são mais do que necessárias.
Se pensarmos que a instituição tem 34 funcionários, são 34 famílias, sendo que algumas dependem exclusivamente das pessoas que trabalham aqui. Estamos a falar de 60 ou 70 pessoas que dependem da instituição e, para uma freguesia que praticamente não tem oferta de trabalho, a não ser nas áreas da agricultura, havendo uma instituição que possa, de forma directa ou indirecta, responder às necessidades de 60 ou 70 pessoas consideramos este facto de extrema importância e uma grande responsabilidade.

Como perspectiva o futuro da instituição?
Se olharmos para o que nos rodeia, não estarei longe da realidade se disser que cerca de 90% das instituições da nossa área de intervenção estão com serias dificuldades financeiras. Basta ver o que se passa em Santarém ou Alcanhões, e outras, na área do distrito, estão com sérias dificuldades financeiras.
Felizmente, nessa área, não estamos muito afectados porque achamos que temos tido uma gestão rigorosa e cautelosa. Temos tido sim, um factor diferenciador: uma preocupação permanente que é a de não perder nenhum concurso de apoios financeiros, de não perder nenhum projecto venha de onde for, seja estatal ou comunitário, ou privada. Estamos todos os dias no terreno a concorrer a projectos de apoio financeiro. Esse tem sido o nosso “segredo”.
A grande maioria das instituições, presumo eu, que perdem um pouco a esperança, porque se candidatam a um projecto, a um segundo e a um terceiro, e acabam por nunca ser seleccionados e nunca ter o apoio esperado e, se calhar, desistem. Nesta casa isso não existe. A nossa política é que todos os projectos são para nos candidatarmos. Se não for à primeira, é à terceira ou à décima. Não deixaremos de nos candidatar a um projecto que nos possa trazer um benefício financeiro só porque nas sete ou oito ou dez vezes anteriores não tivemos sucesso. Sabemos que, com persistência, um deles irá surgir.
Fomos visitamos por um banco, o BPI, há poucos dias, que ficou estupefacto com as nossas condições e organização e não percebem porque é que nos temos candidato a todos os projectos e até agora nunca tínhamos tido sucesso. Mesmo assim, não deixamos de ir de novo atrás desse objectivo. É um projecto nas áreas de apoio à comunidade em geral. Essencialmente, vai procurar aproximar a comunidade da terceira idade da instituição que, embora não fazendo parte dos nossos utentes, mas que possam precisar do nosso apoio nas áreas de enfermagem, nas áreas de psicologia, termos uma ligação o mais expedita possível, para que essas pessoas, a partir da sua residência, a qualquer momento, nos possam contactar.
Se isto servir de incentivo ás outras instituições, devo dizer que, de facto, o nosso segredo tem sido este. O nosso segredo, que não é segredo nenhum, é este: vamos a todos os projectos, não falhamos nenhum, não desistimos de nenhum. Estamos candidatados a mais projectos, já estamos a trabalhar com o apoio de alguns colaboradores nossos, por exemplo em produção de energia eléctrica, com instalação de painéis solares, para produção e aquecimento de águas. Mas temos que ser realistas: isto dá muito trabalho.
O futuro passa, assim, por continuar a insistir nestes projectos, a inovar, e procurar incessantemente apoios de projectos privados.

Entrevista publicada na edição de 20 de Setembro do Correio do Ribatejo.

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