Entre a resistência e a queda, a restauração em modo de emergência

A pandemia abalou o sector da restauração e nem o desconfinamento foi capaz de convencer os clientes a voltarem às mesas. Nesta altura, a palavra de ordem é “resistir” e os empresários da região não prescindem dela. Mas a reabertura dos restaurantes, após o confinamento obrigatório, cumprida há cerca de dois meses, tem feito dos dias um jogo de paciência e luta contra o desânimo. O Correio do Ribatejo foi sentir o pulso à restauração e à forma como este sector se tem adaptado ao pós-pandemia. A maioria dos estabelecimentos reabriu com cerca de 50% da capacidade para assegurar o distanciamento social e os empresários reclamam medidas do Estado para ajudar o sector.


Márcia Madeira, Grupo ‘El Galego’ – Santarém

“Enquanto houver confinamentos, não voltamos a ter um negócio saudável”

Cerca de dois meses após a reabertura dos restaurantes após o confinamento, que balanço se pode fazer?
Num discurso optimista, de quem previa o pior, estamos minimamente satisfeitos. Seria injusto não falarmos da evolução que temos sentido ao longo do tempo. Temos casas com uma quebra na ordem dos 60%, outras nos 30% e outros há que não se ressentiram, até pelo contrário. O Bambu, o nosso restaurante de sushi, nunca trabalhou tanto. Claro que num grupo de restauração como o nosso, em que o Verão servia para ganhar “balanço” para “aguentar” o Inverno e sem o turista internacional, adivinham-se dias difíceis. Mas, por agora, estamos a conseguir resultados. Temos o sol como aliado. Enquanto ele raiar, e não estando a poetizar, podemos acreditar e aliviar um pouco os nervos. Quando vier o Inverno, aí sim, vamos ter problemas sérios.

PUBLICIDADE

Que medidas tiveram de ser adoptadas para garantir a segurança?
As distâncias entre mesas foram aumentadas e as práticas de desinfecção reforçadas, apesar de já existirem antes do COVID. A implementação do HACCP já exigia um grande controle sanitário e o uso de desinfectantes profissionais. O mais difícil é mesmo o uso da máscara. Com o calor a apertar, os colaboradores estão a viver esta grande dificuldade, até com a comunicação com o cliente. Faltam os sorrisos e as empatias que as expressões faciais nos dão.

Os clientes já se adaptaram a esta nova normalidade? Sentem confiança?
Quem tem medo do COVID, simplesmente não sai de casa para ir ao restaurante ou ao café. Quem vai tem total confiança e até acredito que nem se lembra do que se passa quando estão sentados à mesa. As pessoas estão perfeitamente adaptadas às regras. Não temos sentido problemas com a implementação das obrigações junto dos clientes. Os clientes respeitam as regras e estão sensíveis ao que lhes é exigido. No fundo, o período de confinamento geral veio mostrar que estamos perante um problema mundial que precisa de ser tratado com o maior respeito.

A facturação já atingiu os níveis que se verificavam antes da pandemia?
Não consigo prever uma data para voltarmos a ter a mesma facturação de antes da pandemia. Tudo mudou. Enquanto não tivermos o mesmo fluxo de pessoas que tínhamos anteriormente, sejam, as que estão em teletrabalho, os passeios e os encontros de fim-de-semana, os turistas, enfim, enquanto houver confinamentos, não voltamos a ter um negócio saudável.

No Reino Unido, foram anunciadas medidas para ajudar o sector, nomeadamente o corte temporário do IVA na restauração, e um esquema de descontos para incentivar as pessoas a comer fora. Em Portugal, seriam bem-vindas medidas do género?
Há outro caminho senão a implementação de medidas para o apoio ao sector da restauração? Estamos em Santarém. Apesar de sentirmos a falta do mercado turístico, não dependíamos dele. Já as grandes cidades, que têm toda a sua dinâmica voltada para o turismo, que futuro haverá para esses mercados? Corte do IVA, apoios a nível de TSU e outros são emergentes e negarem-se a esta evidência é acelerar o processo de uma crise sem precedentes.


João Correia, Dois Petiscos – Santarém

“O governo não tomou medidas para ajudar o sector que tanto ajudou Portugal a reerguer-se nos últimos anos”

Cerca de dois meses após a reabertura dos restaurantes após o confinamento, que balanco se pode fazer?
No meu caso, que é distinto da grande maioria, visto estar a inaugurar um espaço com características óptimas para a procura nesta fase de desconfinamento, está a ser bom. Com o espaço que tinha antes de tudo acontecer, não conseguiria, com todas as restrições impostas, ter um negócio rentável.

Que medidas tiveram de ser adoptadas para garantir a segurança?
Muita formação a toda a equipa de trabalho, e recorrer a todos os equipamentos e produtos que garantem a desinfecção dos utilizadores, operadores e espaço.

Os clientes já se adaptaram a esta nova normalidade?
Na grande maioria sim, mas existe sempre uma franja que quer romper com regras e está despreocupado com a situação do país e do mundo!

Sentem confiança?
Sim, no meu estabelecimento e nos que frequento!

Há crise instalada no sector?
Tenho a certeza que sim. Não conheço nenhum de perto, mas acredito que muitos empresários estejam a passar por grandes dificuldades, porque tinham negócios, que não são “transformáveis” para esta nova realidade.

No Reino Unido, foram anunciadas medidas para ajudar o sector, nomeadamente o corte temporário do IVA na restauração, e um esquema de descontos para incentivar as pessoas a comer fora. Em Portugal, seriam bem-vindas medidas do género?
Não tenho dúvidas que sim… seria uma grande ajuda para todo o sector! Existem e existiram perdas irreparáveis e o Estado devia estar a apoiar, para o tecido empresarial não se perder. No dia 10 de Maio deste ano houve uma grande corrente de profissionais do sector que reclamaram isenção de TSU até ao final de 2020 e redução de iva para 6% até final de 2021.
Esta, para mim, seria uma grande ajuda, e bastante benéfica para o sector. Pena é que o nosso governo ainda não tomou mais medidas no sentido de ajudar o grande sector que tanto ajudou Portugal a reerguer-se nos últimos anos.


Raquel Pinheiro e Luís Ferreira, ‘O Pinheiro’ – Almeirim

“Estamos a passar por uma crise muito difícil, mas iremos lutar para manter a nossa estrutura”

Cerca de dois meses após a reabertura dos restaurantes após o confinamento, que balanço se pode fazer?
Pode dizer-se que começou um pouco tímido, mas fomos conquistando a confiança das pessoas e, neste momento, já necessitava de mais lugares para trabalhar.

Que medidas tiveram de ser adoptadas para garantir a segurança?
As medidas tomadas para garantir a segurança foram a intensificação da higienização do espaço, um investimento em produtos de desinfecção e protecção e também garantir um distanciamento maior entre clientes.

Os clientes já se adaptaram a esta nova normalidade? Sentem confiança?
Houve clientes que depressa voltaram ao nosso espaço, mas houve outros que mantinham algum receio em sair, no geral, mas, a pouco e pouco, já vêm e pelo que nos dizem ficam agradados e sentem-se seguros e por isso voltam de novo.

A facturação já atingiu os níveis que se verificavam antes da pandemia?
A facturação ainda continua abaixo do que era normal, mas, no nosso caso, penso que se tivéssemos mais lugares poderia aproximar-se. Mas, o mais importante será, para já, ganhar a confiança dos clientes.

Há crise instalada no sector?
Penso que o sector está em crise porque passamos de uma realidade para outra de um momento para o outro: estávamos preparados para um certo nível de trabalho em que necessitamos (por exemplo) de um número de colaboradores e, neste momento, mantêm-se as despesas sem facturar o necessário para as cobrir.

No Reino Unido, foram anunciadas medidas para ajudar o sector, nomeadamente o corte temporário do IVA na restauração, e um esquema de descontos para incentivar as pessoas a comer fora. Em Portugal, seriam bem-vindas medidas do género?
Não é do interesse do Estado, nem nosso, que hajam mais pessoas no desemprego e que baixe o rendimento das famílias. Para evitar isso, poderia existir um apoio maior às empresas, tais como a redução do IVA e da segurança social lembrando que estas reduções seriam para as empresas sobreviverem e manterem os postos de trabalho. Se não houver melhorias da situação, o mais provável é que muitas empresas encerrem ou serão obrigadas a uma reestruturação em termos de funcionários porque não será possível aguentar esta situação. Estamos todos a passar por uma crise muito difícil e iremos lutar para pelo menos tentar manter a nossa estrutura.


João André Simões, ‘O Toucinho’ – Almeirim

“Muitos restaurantes vão ser forçados a encerrar”

Cerca de dois meses após a reabertura dos restaurantes após o confinamento, que balanço se pode fazer?
O balanço que podemos fazer, até ao momento, é pouco positivo, pois houve uma quebra acentuada no sector.

Que medidas tiveram de ser adoptadas para garantir a segurança?
As medidas que tiveram que ser adoptadas foram as recomendadas pela DGS, nomeadamente o uso obrigatório de máscara e a desinfecção das mãos à entrada nos estabelecimentos. Foi também promovido um maior espaçamento entre mesas: quanto ao resto foi apenas reforçar todas as regras já existentes e praticadas.

Os clientes já se adaptaram a esta nova normalidade? Sentem confiança?
Os clientes estão a começar a adaptar-se ao que será este ‘novo normal’ durante os próximos tempos. Contudo, notamos que ainda existe muito receio em sair de casa. Não só para frequentarem restaurantes, mas como para todas as actividades em geral.

A facturação já atingiu os níveis que se verificavam antes da pandemia?
Não, com a quebra na afluência, notou-se também uma quebra nos níveis de facturação.

Há crise instalada no sector?
Sim, existem muitos estabelecimentos que estarão com dificuldades no período actual e cremos também que muitos outros vão ser forçados a encerrar.

No Reino Unido, foram anunciadas medidas para ajudar o sector, nomeadamente o corte temporário do IVA na restauração, e um esquema de descontos para incentivar as pessoas a comer fora. Em Portugal, seriam bem-vindas medidas do género?
Todas as medidas que, de alguma forma, incentivassem as pessoas a progressivamente começarem a sair, tais como as medidas do IVA, seriam muito bem-vindas para evitar a perca de muitos postos de trabalho a nível nacional.


Bruno ‘China’, Cocheira Velha – Almeirim

“Preferimos estar de portas abertas e a receber clientes no nosso espaço”

Cerca de dois meses após a reabertura dos restaurantes após o confinamento, que balanço se pode fazer? O balanço é sempre positivo. Preferimos estar de portas abertas e a receber clientes no nosso espaço.

Que medidas tiveram de ser adoptadas para garantir a segurança?
Conforme as medidas impostas pela DGS, cumprimos todas as regras como o distanciamento entre mesas, a desinfecção regular do espaço e das mesas e o uso de máscara.

Os clientes já se adaptaram a esta nova normalidade? Sentem confiança?
Aos poucos, tenho notado que esta realidade, um pouco estranha para todos, está a ser bem compreendida pelos clientes. Todos, de modo geral, cumprem o que lhes é pedido de modo a poderem disfrutar das refeições em plena segurança, mas sempre com precaução. Ao entrarem num espaço que reúne as condições adequadas, os clientes sentem sempre confiança no atendimento.

Há crise instalada no sector?
Sim, claramente. Mas não só na restauração. Nota-se em todos os sectores de actividade económica. A retoma está a ser lenta.

No Reino Unido, foram anunciadas medidas para ajudar o sector, nomeadamente o corte temporário do IVA na restauração, e um esquema de descontos para incentivar as pessoas a comer fora. Em Portugal, seriam bem-vindas medidas do género?
Claro que sim. Essas medidas seriam um óptimo incentivo ao sector, de modo a economia voltar a estabelecer a sua normalidade.

PUBLICIDADE

PARTILHE COM OS SEUS AMIGOS