Convidada pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) para expor no certame, a artista de Santarém transforma garrafas usadas em figuras típicas do Ribatejo.
A Feira Nacional de Agricultura (FNA) 2026 voltou a encher o Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas (CNEMA), em Santarém, com tecnologia, maquinaria e tradição, servindo este ano de palco para a estreia da artesã Graça Padinha. A convite do IEFP de Lisboa, a artista escalabitana participa pela primeira vez no evento como expositora, apresentando esculturas únicas feitas a partir de garrafas de vidro reutilizadas.
“É a primeira vez que aqui me encontro. O IEFP de Lisboa lançou-me um convite para estar aqui a expor no decorrer da feira, visto que tenho a carta de artesã”, explica Graça Padinha.
O certame, conhecido por celebrar a identidade e as tradições do Ribatejo, revelou-se o cenário ideal para a criadora expor o seu portfólio.
“Trabalho muito a parte das tradições e dos trajes portugueses, com grande enfoque para o Ribatejo. Sou escalabitana de gema e retrato muito figuras como o campino, a ribatejana e o forcado”, conta.
Localizada no setor do artesanato, a banca da artista tem despertado a curiosidade do publico ao longo dos vários dias do evento.
“Noto que as pessoas ficam encantadas, especialmente com as lendas históricas. Quando vejo as crianças a aproximarem-se da minha banca eu começo a interrogá-las se conhecem, por exemplo, a lenda do Abidis, uma das mais importantes da nossa cidade, e começo a contar a história. Elas ficam encantadas, absortas. E depois também acaba por ter esse efeito também nos pais”, relata a artesã.
Além das figuras típicas da região, Graça Padinha inspira-se no património imaterial de Santarém. Entre as suas obras destaca-se a representação da mulher que, atormentada pelo diabo, lançou-se ao rio Tejo e foi salva por um milagre de Santo António.
“É um trabalho que me tem enriquecido muito a nível cultural, histórico e que me faz sentir ainda mais pertencente a Santarém, porque são lendas que já têm muitos séculos de existência e que imortalizam uma cultura muito própria da cidade”, refere.
O processo criativo da artista exige foco e imaginação para moldar a matéria-prima.
“Eu leio a lenda e depois começo a imaginar na minha mente como é que essa pessoa era. É como se eu sentisse essa lenda dentro de mim e depois a lançasse cá para fora”, detalha.
A escolha do vidro como base para todas as esculturas reflete um compromisso que une a sustentabilidade à arte. O percurso nesta área começou no início da pandemia de Covid-19, altura em que a artesã decidiu abdicar do mundo empresarial para se dedicar em exclusivo a este ofício.
“Tinha uma garrafa em casa e comecei por lhe dar vida. Peguei num pincel, fiz umas mandalas e começou a surgir a paixão por reaproveitar aquilo que nós encaramos como uma inutilidade. O grande desafio que me move é dar vida àquilo que já não tem vida”, afirma.
Autodidata, a artista recorda o fascínio antigo pelos vitrais e assume que o percurso foi feito de desafios técnicos, como esculpir rostos expressivos.
“A peça mais difícil que fiz na altura foi um pedido personalizado que me fizeram da Annabelle. Foi muito difícil porque ainda estava no início e não tinha muita destreza. Fazer aquele rosto largo, aqueles olhos saídos, a expressão que ela usa. Mas a pessoa adorou a escultura e depois até me encomendou outras como a Amália Rodrigues”, recorda.
Após o encerramento da FNA, o roteiro de Graça Padinha inclui a participação na MosTrArtE, em Espinheiro, e a preparação de um futuro livro.
“Estou a pensar fazer a curto prazo um livro sobre o meu trabalho, reunindo as imagens das lendas que já fiz com um breve descritivo de cada uma delas”, revela.
Até lá, a artesã escalabitana promete continuar a produzir pequenas obras de arte movida pela criatividade.
“Enquanto uma pessoa apreciar a arte, é sinal de que está viva. A arte acaba por nos transcender a todos. Acaba por nos trazer a possibilidade de ainda vermos beleza num mundo que é feio”, conclui.




