O histórico emblema, fundado em 1917, ultrapassou a perda do edifício da sede com a reabilitação do seu “mítico ringue”, liderando a modalidade de Teqball através de dezenas de atletas integrados na elite mundial.
Mais de um século de história viva
Santarém é uma cidade repleta de tradições em várias áreas da sociedade civil, como é o caso do desporto. São vários os clubes da região que têm levado o nome da cidade e da região além-fronteiras, mostrando o talento e o nível competitivo dos ribatejanos. Entre os vários emblemas scalabitanos, existe um que enverga o título de mais antigo.
Fundado a 5 de junho de 1917, o Grupo de Futebol Empregados no Comércio de Santarém (GFEC “Caixeiros”) detém uma história rica, construída por gerações de dirigentes, atletas, treinadores, sócios e colaboradores que, ao longo de mais de um século, transformaram o clube num símbolo da cidade.
“Tivemos sempre grandes êxitos, com a vantagem de que fomos sempre agregadores em relação à população de Santarém, que sempre jogou neste clube. Nunca foram necessários atletas do exterior, foram sempre jogadores criados nesta casa”, recordou Luís Peralta, presidente dos “Caixeiros” que mantém ligações ao clube desde os sete anos, altura em que representava o emblema scalabitano na modalidade de hóquei em patins.
Ao longo de 109 anos de existência, os “Caixeiros” afirmaram-se também como uma instituição de cariz social, promovendo o desporto, a cultura e a formação, assentes em princípios de ética, solidariedade e comunidade.
“A sede social foi sempre o sítio onde as pessoas se reuniam para jogar chinquilho, para ir aos bailes e às matinés dos “Caixeiros” que eram conhecidíssimas e onde as pessoas jogavam cartas e dominó. Inicialmente foi mais cultural do que desportiva e depois passou a ser mais desportiva do que cultural”, relembrou Luís Peralta.
A perda da sede e o “mítico ringue”
O edifício da antiga sede do GFEC “Caixeiros”, localizada na Rua Capelo e Ivens, no centro histórico da cidade, foi colocado à venda em hasta pública em junho deste ano. O imóvel, cuja propriedade legal pertence ao Lar de Santo António da cidade de Santarém, aguarda a conclusão do processo administrativo de alienação.
“O telhado da sede caiu, perdemos alguma história do clube. Temos estado a tentar requalificar todos os documentos que tínhamos”, contou o presidente do emblema scalabitano.
Em paralelo, a atividade social e desportiva do clube histórico de Santarém foi transferida para o mítico ringue dos “Caixeiros”, situado na Cerca da Mecheira. A reabertura oficial do recinto desportivo aconteceu no passado dia 20 de junho e contou com um convívio de futebol de salão de veteranos que proporcionou reencontros e momentos de partilha.
O evento contou também com a animação da banda “Boa Noite”, juntando sócios, dirigentes, atletas e a população que recordaram o passado, celebraram o presente e olharam para o futuro de um espaço que marcou gerações.
Apesar da reabertura oficial, os trabalhos de recuperação e melhoramento do mítico ringue continuam a ser efetuados exclusivamente com verbas do clube e com o trabalho dos elementos da direção.
“A comissão administrativa teve o cuidado e de forma pro bono conseguiu ir buscar este património que vai passar a ser a nossa casa”, declarou Luís Peralta.
O fenómeno do Teqball
Num período marcado pela reestruturação do seu património imobiliário, o GFEC “Caixeiros” encontrou na modalidade de Teqball, que combina elementos de futebol e ténis de mesa, o motor para a sua revitalização desportiva e social. O projeto, iniciado em 2021, afirmou os “Caixeiros” como o clube com maior representação ativa no ranking da Federação Internacional de Teqball (FITEQ) e evoluiu de forma sustentada até colocar 17 atletas no Top 100 mundial da modalidade.
“A antiga comissão administrativa tinha me pedido ajuda para desenvolver o Teqball, que na altura era uma aposta do clube que estava sem qualquer atividade. Aos poucos, fui envolvendo-me cada vez mais com o clube, adquirindo os seus valores e aos poucos a modalidade foi crescendo”, referiu Rui Leitão, vice-presidente dos “Caixeiros”.
O dirigente e responsável pela modalidade do clube explicou que o facto de pertencer ao conselho executivo da FITEQ, bem como ser o representante dos jogadores a nível mundial, permitiu consolidar os “Caixeiros” como uma referência no Teqball.
“Isso abriu-me algumas portas, deu-me alguns contactos, experiência e conhecimentos de como funcionam os meandros do Teqball, em termos de organização, logística e competição”, afirmou.
De forma gradual, o clube foi agregando atletas da cidade para a modalidade que começou no mítico ringue. Atualmente, o emblema scalabitano possui 27 atletas no ranking mundial e participa em cerca de 30 competições por ano, com destaque para a 3.ª edição da Challenger Teqball League, uma etapa do circuito mundial de categoria 4, com 3 mil dólares de prize money e que decorre em Santarém.
“Em três ou quatro dias em Santarém juntamos entre 70 e 80 atletas e cerca de 100 pessoas, entre staff e treinadores. Tem bastante impacto na cidade porque os atletas promovem-na turisticamente”, sublinhou Rui Leitão.
Perante os resultados e números alcançados, o GFEC “Caixeiros” tornou-se um dos embaixadores do desporto na cidade, tendo transformado Santarém na Capital do Teqball.
“Lançámos esse repto ao Município de criar e patentear a marca Santarém Capital Nacional do Teqball. Seria mais uma bandeira para o município e seria também o reconhecimento do trabalho que nós fazemos, que é só feito com o apoio da sociedade civil e comercial”, revelou Rui Leitão.
Os apoios institucionais e o plano de expansão
No mês de junho, no decorrer da Feira Nacional de Agricultura, o GFEC “Caixeiros” e o Município de Santarém assinaram os contratos-programa do PAFAD 2026 e dos apoios municipais à organização da Challenger Teqball League – Santarém Cup 2026 e do Caneiras Last Runner Standing. Apesar da parceria estratégica assumida pela edilidade, o clube exige mais.
“Temos o apoio da Viver Santarém na cedência dos espaços e algumas verbas pontuais do município na organização dos eventos, mas para um clube que todos os meses tem uma ou duas competições internacionais e que leva vários atletas é pouco”, considera Rui Leitão.
Com o intuito de continuar a crescer e a representar a cidade de Santarém, o clube pretende conquistar mais associados e alargar a sua oferta de modalidades desportivas.
“Queremos ir mais longe e ir buscar novamente o andebol, o hóquei, o ténis de mesa e outras modalidades porque o clube não acaba aqui. O clube quer continuar com todo o elã que tinha”, assegurou Luís Peralta.
Da tradição do chinquilho e dos bailes de outrora à modernidade das competições mundiais de Teqball, a história dos “Caixeiros” confunde-se com a própria história de Santarém. O clube inicia agora um novo capítulo focado no crescimento da massa associativa e na diversificação desportiva, provando que a tradição e a missão social são o pontapé de saída para o futuro.
