Fundado em 1917 por homens ligados à actividade comercial, o Grupo de Futebol dos Empregados no Comércio de Santarém tornou-se uma das expressões mais duradouras do associativismo escalabitano. Antes de ser apenas clube, foi espaço de convívio, cultura, formação e prática desportiva, acompanhando as transformações sociais da cidade ao longo de mais de um século.

A história dos “Caixeiros” começa antes da fundação formal do clube. No final do século XIX, Santarém tinha uma vida comercial intensa e uma classe de empregados no comércio que procurava organizar-se, instruir-se e defender os seus interesses. Em Setembro de 1897, um grupo de trabalhadores do sector lançou as bases de uma associação destinada à “defesa dos interesses, desenvolvimento e ilustração da classe”. A Associação de Classe dos Empregados no Comércio seria fundada a 1 de Janeiro de 1898 e viria a desempenhar um papel relevante na vida associativa, cultural e cívica da cidade.

Logo nesse primeiro período, a instrução surge como uma prioridade. A associação criou uma biblioteca, intitulada “Infante D. Henrique”, formada com livros oferecidos por sócios e amigos da colectividade. A iniciativa traduzia uma ideia forte para a época: a de que os empregados no comércio, depois das horas de trabalho, precisavam de acesso ao conhecimento e à formação. A actividade não se ficou pela leitura. Houve tuna, conferências, festas, acções de solidariedade e uma intervenção pública marcada pelo republicanismo, sobretudo nos primeiros anos do século XX.

 

Uma casa nascida da classe dos empregados no comércio

Foi neste ambiente de sociabilidade urbana que, a 5 de Junho de 1917, nasceu o Grupo de Futebol dos Empregados no Comércio, conhecido desde cedo como “Os Caixeiros”. Entre os fundadores apontados pela investigação histórica surgem nomes como Manuel Filipe, Carlos Arsénio da Piedade, José Prado e Silvino Ferreira Cravador, todos ligados à actividade comercial. Os estatutos definiam o grupo como uma associação desportiva, recreativa e cultural, orientada para o desenvolvimento dos associados nos planos cultural, físico e desportivo.

A designação do clube é, por si só, reveladora de uma época. O caixeiro era figura central no comércio tradicional, sobretudo numa cidade onde as lojas, armazéns, escritórios e casas comerciais marcavam o quotidiano económico e social. O clube deu corpo a essa identidade profissional, mas rapidamente ultrapassou a dimensão corporativa. Tornou-se lugar de encontro, convívio, prática desportiva e participação cultural, aberto a uma cidade onde as colectividades eram espaços decisivos de relação social.

A primeira sede situava-se no Largo dos Pasteleiros, mas muitas das actividades culturais e recreativas realizaram-se também nas instalações do Grémio Literário. No início da década de 1930, os “Caixeiros” passaram a partilhar instalações com a Associação dos Empregados no Comércio, que lhes arrendou espaços para a direcção e para apoio aos jogadores. Essa proximidade culminaria, em 1938, com a transferência do espólio da antiga Associação de Classe para o Grupo de Futebol dos Empregados no Comércio.

Essa herança não era apenas material. Incluía mobiliário, livros, objectos de uso quotidiano, equipamento de jogos, biblioteca e a memória de uma associação que tinha feito da instrução, da solidariedade e da cultura popular uma parte essencial da sua missão. A biblioteca, em particular, ficou na posse transitória dos “Caixeiros”, mediante regras de conservação, inventário e funcionamento, até ser devidamente organizada e regulamentada em 1942.

Da bola ao ringue da Mecheira

Apesar da matriz cultural e recreativa, o futebol esteve no centro da afirmação inicial do clube. Nos anos 20, os “Caixeiros” disputavam popularidade com outras colectividades de Santarém e, em 1924, integraram o grupo de clubes fundadores da Associação de Futebol de Santarém. A condição profissional dos seus atletas influenciava a própria organização desportiva: uma das preocupações era conseguir que os jogos se realizassem à quinta-feira, dia de folga dos empregados no comércio.

A falta de campo próprio marcou os primeiros anos. Os jogos chegaram a realizar-se no campo de “Os Leões”, mas os custos de arrendamento provocaram tensões entre colectividades. Mais tarde, os “Caixeiros” recorreram também ao campo da Chã das Padeiras, da União Operária. A procura de um espaço próprio era, por isso, uma questão central para a consolidação do clube.

A resposta começou a surgir a partir de 1933, quando os “Caixeiros” instalaram campo de jogos, balneário e casa do guarda na Cerca da Mecheira. O espaço, arrendado a José Duarte Marques, tornar-se-ia uma das referências da vida desportiva do clube. Na década de 40, a construção de um balneário mobilizou apoios do Governo Civil, da Direcção-Geral do Desporto e do Ministério das Obras Públicas. A obra ficou concluída em Outubro de 1947 e foi inaugurada com um torneio de basquetebol, ganho pela equipa da casa.

Em 1951, o recinto foi remodelado, ganhou bancadas em cimento e foi transformado em ringue, permitindo a prática do hóquei em patins. A Cerca da Mecheira deixou assim de ser apenas campo de jogos para se afirmar como um espaço polidesportivo, social e recreativo, onde se cruzavam atletas, sócios, famílias e público.

 

Um clube de muitas modalidades

Embora o nome tenha nascido ligado ao futebol, a história dos “Caixeiros” é a de uma colectividade polidesportiva. O clube praticou atletismo desde cedo, organizando provas de corrida, saltos, cross e lançamento do peso. Em 1937, nas comemorações do vigésimo aniversário, realizou provas atléticas de 80, 300, 1000 e 3000 metros, salto em altura, salto em comprimento, cross e lançamento do peso. Nesse mesmo ano, atletas do clube participaram num torneio popular em Lisboa, onde venceram a estafeta de 3×600 metros.

O ciclismo também teve expressão, com a participação de atletas dos “Caixeiros” em provas fora do concelho. Em 1932, José Castelo Romão classificou-se em terceiro lugar na categoria de “fracos” na III Volta a Portugal em Bicicleta. Mais tarde, o clube integrou a comissão de recepção à passagem da XI Volta a Portugal por Santarém.

Mas foi no basquetebol que a colectividade assumiu uma projecção particularmente significativa. Em 1933, os “Caixeiros” estiveram na fundação da Associação de Basquetebol de Santarém, no mesmo ano em que criaram a sua secção da modalidade. Em 1936 disputavam o campeonato com o Sport Lisboa e Santarém, a Académica e “Os Leões”. Em 1937 celebraram, na Pensão Aliança, o título de campeões distritais de Santarém.

A modalidade continuou a ter peso nas décadas seguintes. Em 1945, o clube pediu inscrição na Associação de Basquetebol de Santarém com equipas júnior, reserva e honra. Em 1950, defrontou equipas como Benfica, Club Fluvial do Porto e Académica de Coimbra, preparando a participação no Campeonato Nacional da II Divisão e procurando receitas para sustentar a secção.

Também o ténis de mesa ocupou lugar relevante. A secção surgiu na década de 30 e a equipa participou em torneios interclubes. Em 1944, os “Caixeiros” venceram um torneio frente à Sociedade Columbófila de Torres Novas. Em 1950, as equipas masculina e feminina defrontaram o Caldas Sport Club, com a equipa feminina a fazer a sua primeira apresentação pública e a vencer todos os encontros, facto que mereceu destaque na imprensa da época.

A lista de práticas desportivas não se ficava por aqui. Houve voleibol, ginástica, campismo, xadrez, hóquei em patins, montanhismo, andebol, danças de salão e até pedidos para treino de boxe. A preocupação com os mais novos também aparece cedo: em 1937, jogadores de primeira categoria foram nomeados treinadores dos grupos infantis de futebol e basquetebol.

 

Cultura, bailes e biblioteca

A vida dos “Caixeiros” não se esgotava no desporto. Durante décadas, a colectividade foi também uma das casas de convívio da cidade. Bailes de Carnaval, Páscoa, Santos Populares, Natal e passagem de ano eram momentos regulares e muito concorridos por sócios e familiares. No Verão, a esplanada da Cerca da Mecheira promovia espectáculos que juntavam uma parte desportiva e outra dançante. Havia matinés dançantes de domingo, festas para angariação de fundos, concursos, fados e noites temáticas.

A dimensão cultural ganhou expressão organizada com a Comissão Pró-Cultura, criada no início da década de 40. A primeira conferência decorreu em Março de 1941, com Fernando Piteira Santos, então aluno da Faculdade de Letras de Lisboa, que falou sobre “Desporto, Saúde e Cultura”. Seguiram-se sessões com Artur Proença Duarte, Alves Redol, Agostinho da Silva, Soeiro Pereira Gomes, José Osório de Oliveira, Manuel Mendes e António de Sousa, entre outros nomes.

Estas iniciativas mostram uma colectividade que funcionava também como espaço de formação popular. O desporto era entendido como parte de uma educação mais ampla, onde cabiam a leitura, a conferência, o teatro, o jornal, a literatura, a cultura técnica e a reflexão sobre a sociedade. Em 1944, o clube fundou uma biblioteca infantil, com o objectivo de criar hábitos de leitura entre os filhos dos associados. Ao longo da década de 40, procurou apoios para renovar e aumentar o espólio da biblioteca herdada da Associação dos Empregados no Comércio.

 

Sócios, sócias e crises

A base associativa dos “Caixeiros” era inicialmente marcada pela ligação ao comércio. Os sócios deviam ter pelo menos 14 anos, ou autorização paterna, e ser empregados no comércio, empregados de escritório ou comerciantes. Em 1926, o clube tinha 150 sócios. Em 1932, depois de reorganizar a lista de associados por causa de quotas em atraso, desistências e expulsões, contava 280 sócios. Nas três décadas seguintes, os registos apontam para cerca de 423 associados, embora com margem de erro devido à perda de documentação e às readmissões.

A presença feminina era inicialmente reduzida, apesar de existirem mulheres a trabalhar como caixeiras no comércio local. A primeira sócia identificada foi Maria José Fonseca Santos, inscrita em 1932. A tese regista ainda que, a partir de Janeiro de 1941, uma comissão composta por Francisca Pereira da Graça, Maria José Menino e Maria Luísa Santos promoveu festejos na sede destinados ao desenvolvimento da cultura e do desporto. A prática desportiva feminina surgiria mais tarde, no início da década de 50, com uma equipa de ténis de mesa.

Como tantas colectividades populares, os “Caixeiros” atravessaram sucessivas dificuldades financeiras. As receitas eram frequentemente inferiores às despesas, e as quotas em atraso obrigavam a medidas disciplinares. Em 1932, o clube devia quantias significativas a dirigentes, enfrentava rendas em atraso e abriu, nesse período, a sua primeira conta bancária, no Banco Espírito Santo. Para angariar fundos, organizavam-se bailes, excursões e torneios.

As crises, contudo, não apagaram a identidade própria. Em 1969, perante nova hipótese de fusão dos clubes desportivos de Santarém, os sócios dos “Caixeiros” uniram-se e rejeitaram essa solução, como sucedeu sempre que a possibilidade foi colocada. A recusa da fusão é um sinal claro da ligação dos associados à história e autonomia da colectividade.

Mais de um século depois, a história dos “Caixeiros” continua a confundir-se com a de Santarém. O clube nasceu da vida comercial, ganhou forma no associativismo, cresceu no desporto, abriu espaço à cultura e resistiu às crises com a força de várias gerações. Antes de ser apenas um emblema, foi uma casa. E é nessa condição — de casa feita por caixeiros, atletas, dirigentes, sócios, famílias e amigos — que se compreende a sua permanência na memória da cidade.

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