A identidade de um povo não se encerra apenas nos livros de história ou nas pedras dos seus monumentos; ela vive, respira e renova-se nas tradições que passam de geração em geração. Em Santarém, o coração pulsante dessa memória colectiva tem um nome: Grupo Académico de Danças Ribatejanas. Ao celebrar o seu 70.º aniversário em 2026, esta instituição não é apenas um agrupamento folclórico, mas um verdadeiro embaixador cultural, um guardião da autenticidade e um pilar incontornável da identidade ribatejana.
Fundado em 1956 pelo incontornável etnógrafo Celestino Graça, o Grupo Académico nasceu com um propósito claro e ambicioso: recolher, reconstituir e divulgar as tradições etnográficas das três grandes áreas do Ribatejo – a Lezíria, o Bairro e a Charneca. Sete décadas depois, o grupo mantém-se fiel a essa matriz fundadora, provando que a tradição não é um conceito estático, mas uma força viva capaz de unir o passado ao futuro. A sua actuação não se limita a preservar o que foi, mas a garantir que essas expressões culturais continuam a fazer sentido no presente, dialogando com as novas gerações e com o mundo.
A Herança de Celestino Graça e a Fundação de uma Escola
Para compreender a essência do Grupo Académico de Danças Ribatejanas, é imperativo recuar à figura do seu fundador. Celestino Graça (1914-1975) foi muito mais do que um estudioso do folclore; foi um visionário que percebeu a urgência de salvaguardar a alma popular antes que a modernidade a apagasse irremediavelmente. Regente agrícola de formação e etnólogo por paixão, Graça estruturou um modelo de trabalho cultural assente no rigor da pesquisa, na autenticidade da representação e no respeito profundo pelas raízes do povo ribatejano.
O Grupo Académico foi a materialização desse projecto maior. Mais do que criar um rancho para exibições pontuais ou para mero entretenimento, Celestino Graça forjou uma verdadeira escola de transmissão intergeracional. Hoje, o grupo assume-se orgulhosamente como herdeiro directo dessa obra, mantendo viva a exigência técnica e artística que sempre o caracterizou desde a sua génese. A recente publicação do livro “Celestino Graça – O Homem que disse NÃO à mediocridade”, editado pelo próprio grupo no início de 2026, é um testemunho eloquente dessa reverência e do compromisso inabalável em preservar e divulgar a memória e o pensamento do seu patrono.
Muito Mais do que um Palco: O Trabalho de Fundo
A actuação do Grupo Académico de Danças Ribatejanas transcende largamente as exibições em palco. A sua actividade diária é um exercício contínuo de mediação cultural e de salvaguarda do património imaterial da região. O grupo apresenta trajes, danças e cantares com um rigor etnográfico ímpar, fruto de décadas de recolha aturada, mas também promove activamente jornadas de estudo, sessões evocativas e iniciativas de formação que aprofundam o conhecimento sobre as tradições locais.
A existência e a vitalidade de um grupo infantil de dança regional é, talvez, o sinal mais claro da força e da visão de futuro desta instituição. Ao integrar as novas gerações desde tenra idade, o Grupo Académico garante que o fandango, o verde-gaio, as modas de roda e os cantares de trabalho não são apenas peças de museu cristalizadas no tempo, mas expressões culturais vibrantes que continuam a fazer sentido para os jovens de Santarém.
O reconhecimento deste trabalho profundo, metódico e continuado chegou de forma expressiva no final de 2025, quando a Federação de Folclore Português distinguiu o grupo com o estatuto de Sócio Efectivo. Esta distinção, entregue durante uma emotiva sessão evocativa dos 50 anos da morte de Celestino Graça, não foi uma mera formalidade administrativa; foi a validação institucional, ao mais alto nível, do seu papel como referência maior do folclore português e como guardião incontestável de uma escola de autenticidade que recusa cedências à facilidade.
O Festival Celestino Graça: O Mundo em Santarém
Falar do Grupo Académico de Danças Ribatejanas é falar, inevitavelmente, do Festival Internacional de Folclore “Celestino Graça”. Esta iniciativa de grande envergadura, organizada e impulsionada pelo grupo, é uma das marcas culturais mais fortes de Santarém e um dos festivais etnográficos mais prestigiados e antigos do país, reconhecido internacionalmente pelo CIOFF (Conselho Internacional das Organizações de Festivais de Folclore e Artes Tradicionais).
O festival é a prova provada da extraordinária capacidade organizativa do grupo e da sua visão profundamente cosmopolita. Ao trazer anualmente a Santarém grupos folclóricos de excelência de vários cantos do mundo, o Grupo Académico transforma a cidade numa verdadeira festa das artes e das tradições populares globais. Espaços emblemáticos da cidade, como a Casa do Campino, o Campo Infante da Câmara e as ruas do Centro Histórico, ganham uma nova vida durante estes dias, num diálogo vibrante e enriquecedor entre a cultura ribatejana e as mais diversas expressões etnográficas internacionais.
A edição de 2025, que decorreu no início de Setembro, consolidou mais uma vez este evento como um momento alto e incontornável do calendário cultural da região. O festival não só projecta o nome de Santarém para o exterior, como reforça o papel do Grupo Académico como um diplomata cultural de excelência, capaz de construir pontes de entendimento e amizade através da linguagem universal da dança e da música tradicionais.
Uma Presença Viva e Activa na Cidade
A relação do Grupo Académico com Santarém é umbilical e indissociável. O grupo não actua apenas “para” a cidade em momentos de festa; ele actua “com” a cidade no seu dia-a-dia. A sua presença é constante em iniciativas de animação cultural no centro histórico, como o projecto “in.Tradição”, demonstrando de forma prática que o folclore pode e deve habitar o espaço urbano quotidiano, surpreendendo quem passa e mantendo viva a memória colectiva nas ruas onde ela nasceu.
As recentes eleições para os órgãos sociais, realizadas em Novembro de 2025 para o biénio 2026/2027, revelam uma associação estável, madura, mas simultaneamente dinâmica e capaz de se renovar para enfrentar os desafios do futuro. A atribuição do título de Sócio Honorário a figuras históricas de relevo, como João Cotrim, sublinha também a importância vital que o grupo dá ao reconhecimento interno, à gratidão e à valorização dos quadros que dedicaram uma vida inteira à instituição.
O Legado e o Futuro: A Chama que Não se Apaga
Ao assinalar os seus 70 anos de existência ininterrupta e de actividade profícua, o Grupo Académico de Danças Ribatejanas apresenta-se com a vitalidade invejável de quem sabe perfeitamente de onde vem e para onde quer ir.
O grupo é a prova viva de que a tradição não é, como muitas vezes se pensa, o culto nostálgico das cinzas, mas sim a preservação cuidadosa do fogo. Através do rigor etnográfico intransigente, da formação contínua de jovens, da organização de grandes eventos internacionais de referência e da presença constante e empenhada na vida da cidade, o Grupo Académico de Danças Ribatejanas continua a ser o grande e fiel guardião da alma do Ribatejo.
O seu legado é um património inestimável não apenas de Santarém, mas de todo o País. É uma obra notável que Celestino Graça iniciou com visão e coragem, e que sucessivas gerações de ribatejanos souberam, com mestria, abnegação e um profundo amor à sua terra, perpetuar, honrar e engrandecer ao longo de setenta anos de história.
