De vez em quando somos sacudidos da nossa habitual pasmaceira taurina por alguns “casos” que ultrapassam tudo o que é razoável, correndo o risco de fazer implodir a festa brava pela reincidência de situações que em nada abonam a dignidade dos agentes taurinos.

Tudo tem o seu tempo e nenhum sector está imune aos seus constrangimentos, porém, quando estes ocorrem com tanta frequência tal deveria ser especialmente preocupante, posto que é por estas e por outras que muita gente se afasta do meio, dando livre espaço para uns quantos oportunistas sem escrúpulos se aproveitarem à tripa forra, enquanto a coisa for dando. Até um dia…

Miguel Alvarenga, cotado jornalista a celebrar cinquenta anos de carreira, tem, ao nível da tauromaquia, o elevado mérito de chamar os bois pelos nomes, o que nem sempre lhe tem sido cómodo, mas também não é isso que o desvia da sua forma de ser e de estar, denunciando aquilo que acha que deve ser criticado.

A ninguém foram indiferentes as situações de calamidade resultantes das tempestades que assolaram algumas regiões do nosso país, entre as quais as regiões de Alcácer do Sal, de Leiria, de Ourém, de Ferreira do Zêzere, de Coimbra e de Pombal foram as mais fustigadas. O Governo prometeu mundos e fundos, porém, das promessas à realidade vai uma distância incomensurável.

No caso de Alcácer do Sal, a Presidente da Câmara Municipal, Clarisse Campos, referiu que “Dois meses depois das cheias, só cerca de um terço dos negócios reabriram”, referindo que “quando chegarem as ajudas, já não vamos conseguir salvar pessoas e negócios”.

Com vista a ajudar as pessoas mais lesadas pela intempérie nesta região foi anunciada uma corrida de toiros de beneficência para o próximo domingo, dia 26 de Abril, na praça de toiros “Mestre João Branco Núncio”. Nada mais louvável, posto que os ganadeiros oferecem os toiros para serem lidados e os toureiros e grupos de forcados prescindem dos seus honorários ou compensações para ali actuar, de modo que toda a receita – à excepção das receitas do Estado!!! – revertam a favor de quem precisa de apoio como de pão para a boca.

Até aqui ia tudo bem… O pior é que, segundo Miguel Alvarenga escreve no Farpas Blogue, “deram entrada no Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja duas providências cautelares de suspensão de acto administrativo, o que significa, de suspensão (imediata), neste caso, de duas corridas de toiros que estão anunciadas para as próximas semanas: a de 26 de Abril em Alcácer e a de 9 de Maio em Garvão (Ourique). Custa dizer – e pensar – isto, mas a realidade é que mais depressa se vão entender os americanos e os iranianos, assim como os russos e os ucranianos, do que se entenderão os empresários taurinos nacionais…”

Segundo elucida Miguel Alvarenga tudo terá a ver com o facto de o Município de Alcácer do Sal ter concessionado a exploração do tauródromo ao empresário José Maria Charraz sem realização de “concurso” e o empresário António Pedro Vasco decidiu interpor uma providência cautelar que, no caso de ser deferida, implica automaticamente o cancelamento do espectáculo! Com natural desconforto para quem aceitou actuar generosamente e com a lamentável perda da ajuda a quem dela tanto carece. É uma pena que não haja bom senso para avaliar as consequências das atitudes que precipitadamente se tomam.

Não sei, nem tenho de saber, pois não tenho nada a ver com estes negócios, se António Pedro Vasco tem ou não tem razão, mas, como aficionado e como homem solidário, o que me desencanta é que se ponham questões pessoais à frente de imperativos de solidariedade que a todos deveriam mover para terem o maior sucesso possível.

Miguel Alvarenga, pessoa geralmente bem informada, vai mais longe e avisa que “Nos últimos anos deu à costa a Cambada – que é quem hoje manda, ou pretende mandar, na Festa. O mundo está em guerra. E a lusa Tauromaquia está à beira de outra guerra. Em vez de drones, por aqui explodem providências cautelares, insolvências e desacordos entre parceiros. Andam (quase) todos a tentar sacanear-se uns aos outros. E quem perde com isso? A Festa, só a Festa.” É pena!

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