Aos 97 anos, João Vitalino Ribeiro Martinho apresentou ‘Arrufadas de Coimbra’ na aldeia onde nasceu. Professor, autor e uma das figuras pioneiras do radioamadorismo português, fez das ondas da rádio uma ponte para outros continentes e mantém ainda hoje os equipamentos guardados, na esperança de que alguém da família continue o caminho que começou quando possuir um simples receptor era um luxo.

 

João Vitalino Ribeiro Martinho regressou no domingo, 12 de Julho, a Espinheiro, no concelho de Alcanena, para apresentar Arrufadas de Coimbra, numa sessão realizada na Casa do Povo da localidade e integrada na MosTrArtE 2026 – Mostra de Tradições e Artesanato.

O encontro devolveu à terra natal um homem cuja vida se fez entre o ensino, a escrita, Coimbra e uma paixão que atravessou mais de sete décadas: o radioamadorismo. A Casa do Povo de Espinheiro agradeceu publicamente ao autor a cedência dos direitos de publicação da obra, sublinhando o vínculo que João Vitalino continua a manter com a aldeia onde nasceu.

A apresentação do livro decorreu no último dia da MosTrArtE, iniciativa que, entre 10 e 12 de Julho, reuniu artesanato, música, folclore, gastronomia e diferentes expressões da cultura popular. O programa incluiu ainda o Encontro Nacional de Jogo do Pau, o Memorial João Davide Lourenço e a participação de grupos e praticantes oriundos de várias regiões do país.

A sessão de apresentação da obra permitiu recuperar o percurso singular do autor, nascido em Espinheiro a 29 de Outubro de 1928. Aos 97 anos, João Vitalino continua a olhar para a comunicação como uma forma de conhecimento e para a tecnologia como uma porta aberta sobre o mundo.

 

De Espinheiro a Coimbra

João Vitalino passou em Espinheiro a infância e grande parte da juventude. Saiu da aldeia para estudar no Liceu de Santarém, mas a passagem pela cidade não se prolongou. Numa entrevista recente, contou que não se adaptou e decidiu mudar-se para Coimbra.

“Não gostei e resolvi mudar. Mudei para Coimbra. E foi a minha sorte”, recordou.

A cidade universitária marcou o seu percurso pessoal e intelectual, a ponto de surgir agora no título do livro apresentado em Espinheiro. O regresso à aldeia, com uma obra ligada no nome à cidade onde prosseguiu os estudos, encerra uma dimensão simbólica: a ligação entre o lugar de origem e o espaço onde ganhou forma uma parte decisiva da sua vida.

Foi também em Coimbra que aprofundou a curiosidade pela rádio. Nessa época, possuir um aparelho receptor estava longe de ser uma realidade comum. “Quem tivesse um rádio era rico”, lembra João Vitalino, ao descrever um tempo em que o acesso à tecnologia dependia da capacidade financeira das famílias e da criatividade dos jovens interessados pela electrónica e pelas comunicações.

Sem meios para adquirir equipamentos, ele e outros estudantes começaram a construir pequenos receptores de galena. Eram aparelhos simples, feitos com cristal de chumbo, antenas improvisadas e componentes rudimentares, mas representavam uma primeira janela para um universo que viria a ocupar grande parte da sua vida.

 

A tentativa de ouvir Londres

Entre as memórias que guarda desse período está a tentativa de captar a BBC de Londres. João Vitalino e os amigos encontraram numa loja de artigos eléctricos o anúncio de uma galena especial que, segundo a publicidade, permitiria receber a emissão britânica.

Compraram o componente e experimentaram todas as possibilidades. Alteraram a antena, deram voltas ao aparelho, insistiram na sintonização. O resultado foi sempre o mesmo: apenas conseguiam ouvir a emissão regional.

A frustração levou-os a procurar explicações e acabou por aproximá-los da estrutura organizada do radioamadorismo. Descobriram então a existência, em Lisboa, da Rede dos Emissores Portugueses e perceberam que a emissão de sinais de rádio não dependia apenas da construção de um aparelho.

Para possuir e operar legalmente um emissor, era necessário estar filiado, obter autorização estatal e demonstrar conhecimentos técnicos. A actividade obedecia a regras precisas, com diferentes classes de licenciamento definidas pela preparação do operador e pela potência dos equipamentos utilizados.

João Vitalino percorreu esse caminho. Passou pelos vários níveis de formação e atingiu a classe mais elevada, que exigia domínio da telegrafia e do código Morse, além de preparação para operar emissores de maior potência.

O que começara como uma experiência artesanal com cristais de galena transformou-se, assim, numa actividade regulada, tecnicamente exigente e ligada a uma comunidade nacional e internacional.

 

Primeiro português com estação móvel licenciada

João Vitalino tornou-se o primeiro português a possuir uma estação móvel de rádio licenciada. O feito colocou-o entre os pioneiros da actividade em Portugal e deu-lhe um lugar reconhecido na história do radioamadorismo nacional. No meio, ficou conhecido pelo indicativo CT1AP, identificação que o acompanhou ao longo de décadas de comunicações.

A estação móvel permitia-lhe operar fora de uma instalação fixa, acompanhando uma evolução técnica que alargava as possibilidades de contacto. Numa altura em que as comunicações à distância eram lentas, caras ou inacessíveis à maioria das pessoas, os radioamadores criavam ligações directas entre países e continentes.

A actividade exigia conhecimento técnico, disciplina e respeito por normas internacionais. Cada contacto dependia da potência do emissor, das condições atmosféricas, da frequência utilizada, da qualidade da antena e da capacidade do operador para interpretar os sinais.

Para João Vitalino, porém, a técnica nunca foi um fim em si mesma.

 

“Um passaporte para a cultura”

“O radioamadorismo é um passaporte para a cultura.” A frase resume a forma como João Vitalino viveu a actividade.

Ao longo da vida, falou com operadores de diferentes continentes, ouviu vozes de lugares remotos e conheceu hábitos, culturas e modos de vida muito distantes da realidade em que crescera.

“Falei com os índios que estão no interior do Amazonas, falei com a aldeia mais a norte, uma aldeia esquimó, falei com japoneses, chineses, russos. Falei com todo o mundo”, contou.

Cada comunicação era mais do que uma confirmação técnica de que o sinal chegara ao destino. Representava a possibilidade de conhecer pessoas, trocar informações e perceber como se vivia noutros lugares.

“Comunicamos com o mundo inteiro, apercebemo-nos de como é que cada um dos povos vive, quais são os seus hábitos”, explicou.

Antes da Internet, das redes sociais, dos telemóveis e das chamadas de vídeo, a rádio permitia encurtar distâncias que pareciam intransponíveis. A voz de João Vitalino, emitida a partir de Portugal, chegava a comunidades separadas por milhares de quilómetros.

Foi nesse cruzamento entre técnica e curiosidade humana que construiu a sua relação com o radioamadorismo. A estação era simultaneamente oficina, sala de estudo e ponto de encontro com o mundo.

 

Uma vida entre mudanças tecnológicas

João Vitalino atravessou sucessivas transformações na forma como as pessoas comunicam. Começou com receptores de galena, passou pela telegrafia, pelo código Morse e por equipamentos construídos ou afinados pelos próprios utilizadores, chegando a uma época dominada por sistemas digitais, satélites e comunicações instantâneas.

O radioamadorismo manteve, contudo, características próprias. Não se limitava a usar uma tecnologia criada por outros. Implicava compreender o funcionamento dos equipamentos, instalar antenas, escolher frequências, estudar a propagação das ondas e adaptar cada emissão às condições existentes.

Essa dimensão experimental ajudou a formar gerações de operadores, muitos dos quais adquiriram conhecimentos de electrónica, electricidade e telecomunicações através da prática.

João Vitalino pertence a uma geração que aprendeu a construir antes de poder utilizar. A escassez de equipamentos obrigava à invenção, à aprendizagem e à partilha de conhecimentos entre os praticantes.

O reconhecimento do seu percurso mantém-se dentro da comunidade radioamadora. Em Junho deste ano, foi homenageado durante um Encontro Nacional de Radioamadores, ocasião em que o seu nome e o indicativo CT1AP voltaram a ser associados à memória da actividade em Portugal.

 

Aos 97 anos, continua à escuta

A idade não o afastou completamente das comunicações. Aos 97 anos, o gesto de pegar no microfone, identificar a estação e responder a outra voz mantém a rotina de quem passou décadas a estabelecer ligações através do ar.

A paixão não desapareceu, embora João Vitalino reconheça que ainda não encontrou na família um continuador directo. Questionado sobre se algum filho ou neto tinha seguido o radioamadorismo, respondeu: “Ainda não. Estou à espera que sim.”

João Vitalino conservou os aparelhos que utilizou, não apenas como peças de memória ou testemunhos de uma tecnologia em transformação. Guardou-os na esperança de que venham a ser usados por alguém da família.

A estação, os emissores e os restantes aparelhos permanecem, por isso, à espera. Mais do que objectos guardados, representam a possibilidade de uma história ainda não ter terminado.

 

O regresso ao lugar de partida

A apresentação de Arrufadas de Coimbra levou João Vitalino novamente a Espinheiro, onde começou uma vida que o conduziria a Santarém, Coimbra e, através das ondas da rádio, a diferentes partes do mundo.

O acontecimento integrou uma mostra dedicada às tradições, ao artesanato e ao património imaterial, num encontro entre memória local e percursos individuais. No caso de João Vitalino, essa memória ultrapassa os limites da aldeia e cruza-se com a história das comunicações em Portugal.

Professor, autor e radioamador, fez da curiosidade uma forma de atravessar fronteiras. Começou por tentar ouvir Londres num receptor de galena e acabou a conversar com pessoas no Amazonas, na Ásia, na Rússia e no extremo norte do planeta.

No domingo, regressou à terra natal com um novo livro. As ondas da rádio, porém, continuam a ligá-lo ao mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Leia também...

Cerca de 20 concelhos do interior Norte e Centro e Algarve em risco máximo de incêndio

Cerca de 20 concelhos dos distritos de Bragança, Santarém, Castelo Branco e Faro estão hoje em risco máximo de incêndio, segundo o Instituto Português…

Segurança Rodoviária, PSP e GNR lançam campanha pelo uso de dispositivos de segurança

A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), GNR e PSP realizam, a partir de quarta-feira, a campanha de segurança rodoviária “Cinto-me vivo” para alertar…

Os jogos mais populares do Leon Casino

O Leon Casino, criado em 2007 e licenciado pela Curaçao eGaming, apresenta um vasto leque de jogos de casino. Das tradicionais slots machines às…

Abriu o novo gatil municipal em Santarém

A Câmara de Santarém abriu um novo gatil municipal, nas instalações do Centro de Recolha Oficial de Animais de Santarém (CROAS), melhorando as condições…