Numa iniciativa do Grupo Académico de Danças Ribatejanas, de Santarém, a que o nosso Jornal deu apoio, tiveram lugar no Centro Etnográfico Celestino Graça, nos passados dias 28 e 29 de Março, as Jornadas de Etnografia e Folclore do Ribatejo.
Estas Jornadas consistiram em três painéis que permitiram abordar tão aliciantes temáticas em assuntos da maior relevância para os dirigentes de grupos e ranchos de folclore. Vivemos um tempo em que as associações devotadas ao estudo, à salvaguarda e à divulgação do património cultural imaterial devem pugnar pela valorização desta vertente cultural, e especialmente convocar quem disponha de competências para elaborar um processo responsável na dignificação deste tão importante património.
Na noite de sexta-feira, dia 28 de Março, com o Salão Celestino Graça literalmente preenchido de folcloristas, o antropólogo Ludgero Mendes dissertou sobre a “Abordagem aos Conceitos – A Missão de um Grupo de Folclore na salvaguarda e na divulgação da Cultura Tradicional”, tema da maior pertinência num tempo em que muitos responsáveis associativos ainda não tomaram consciência do que se impõe fazer para valorizar a representação do folclore da sua região, num reforço da dimensão identitária que deve constituir a motivação fulcral deste tipo de associações.
Na manhã de sábado, dia 29 de Março, decorreu o segundo painel destas Jornadas, o qual esteve a cargo do Presidente da Federação do Folclore Português, Prof. Doutor Daniel Café, que dissertou sobre “A Música, a Dança e o Cancioneiro Tradicional e Popular no Reportório de um Grupo de Folclore”. De uma forma muito interessante, o Doutor Daniel Café aprofundou especialmente o tema relacionado com a poesia popular, disponibilizando conhecimentos para ajudar os responsáveis técnicos dos grupos e ranchos de folclore a analisarem criticamente a literatura oral recolhida. Esta comunicação revestiu-se de especial relevância posto que este é um tema em que se constata maior dificuldade dos responsáveis dos grupos de folclore em actuar em conformidade com os preceitos técnicos adequados.
Finalmente, na sessão da tarde de sábado decorreu o terceiro painel destas Jornadas que contou com a brilhante apresentação da Dra. Rita Cachulo Pote, Coordenadora do Conselho Técnico Regional do Ribatejo, da Federação do Folclore Português, e que apresentou a comunicação subordinada ao tema “O uso do Traje Tradicional Popular Ribatejano – Coerência Temporal e Funcional”. A importância da indumentária popular integrada na representação etnográfica e folclórica de uma região nem sempre é compaginável com alguns aspectos estéticos, pois nesta área sobreleva a dimensão funcional dos trajos e o respeito pelas realidades socioeconómicas da população, o que teve um reflexo determinante na forma de trajar dos nossos antepassados.
Como se costuma dizer o quadro etnográfico apresentado por um grupo de representação tradicional popular assume só por si uma importância extrema na medida em que nos permite aferir o padrão de vida dessa região e compreender também as actividades laborais a que o povo outrora se dedicava. Hoje, por acréscimo, sobressaem outras questões nomeadamente ao nível dos tecidos utilizados na confecção de réplicas dos trajos originais, posto que abundam os tecidos à base de produtos acrílicos, quando o que se deseja é o recurso aos tecidos de fibras naturais.
Nestas Jornadas participaram representantes de grupos folclóricos e etnográficos de Arcena (Alverca), Alpiarça, Cartaxo, Vale de Figueira, Gentes de Almeirim, Riachos, Romeira, Ribeira de Santarém, Vila Nova do Coito, Viegas (Alcanede), Vale do Paraíso (Azambuja), Fajarda (Coruche), Erra (Coruche), Azinhaga do Ribatejo, Vale da Pinta, Grupo Académico de Danças Ribatejanas, de Santarém, Rancho Folclórico da Glória do Ribatejo, Rancho Folclórico da Gouxaria, S. João da Ribeira e Geraldes (Peniche).