O campino José Mimoso, uma das figuras mais emblemáticas da campinagem na actualidade, foi muito justamente homenageado no passado dia 1 de Maio, no Cartaxo, no âmbito da corrida de toiros que ali se realizou, e outrossim, na apresentação do interessante projecto “Os Últimos dos Maiorais”, promovido e dinamizado por sua filha, Teresa Silva, conceituada animadora de rádio e formadora nesta área profissional.
José Mimoso é um autêntico homem do Ribatejo, não apenas pela profissão de campino a que se dedicou durante largas décadas, mas pelo sentimento que lhe corre na alma, em todas as dimensões da essência de ribatejano.
Acidentalmente, José Joaquim da Silva, mais conhecido por José Mimoso, nasceu em Lisboa, mas com poucos dias de vida foi trazido para o Ribatejo, onde viveu sob os cuidados dos avós maternos. Seu avô, João Rodrigues, era cocheiro na Casa Vigário, em Santarém, e foi por sua influência que José Mimoso se dedicou ao maneio do gado, roubado aos bancos da escola de S. Bento, prisão a que nunca se adaptou, preferindo a liberdade dos trabalhos do campo. Trabalhos duros, mal pagos, mas o ambiente dos campos, e especialmente, o contacto com o gado, eram a sua paixão.
A alcunha de Mimoso, que hoje se confunde com o apelido de família, foi herança do avô, e era o nome da sua montada, para o distinguir de outro moiral que tinha o mesmo nome. Aprendeu cedo a montar, passando a deslocar-se de um para outro lado no cavalo Mimoso, do avô, e aos oito anos José Mimoso já era pastor de carneiros, aprendendo o trabalho de campinagem por andar sempre com o avô, que considerava como um pai.
Foi assim neste ambiente que José Mimoso se fez campino e ribatejano dos sete costados. Aos 21 anos já era campino na Casa D. Duarte da Atalaia, actividade que interrompeu para cumprir o serviço militar, na Guiné, então já casado, e de cuja relação com D. Antónia Silva, viria a ser pai de três filhos.
Regressado da Guiné, experiência dolorosa pela riscos da guerra e pela perda de alguns companheiros de armas, José Mimoso, não receou o perigo da vida de campino, e foi trabalhar para a Casa Agrícola Lima Monteiro, do Vale de Santarém, passando mais tarde para a Casa Agrícola Francisco Ribeiro, em Vila Chã de Ourique, e para a Quinta do Mocho, em Santarém, propriedade do saudoso D. José Zarco da Câmara, Conde da Ribeira Grande, e, finalmente, trabalhou na Casa Agrícola de Herdeiros de Paulino da Cunha e Silva, na Quinta da Comenda, em Alcanhões.
Pelo meio José Mimoso ainda esteve empregado na Câmara de Vila Franca de Xira, porque então o trabalho do campino era muito exigente, uma vez que os campinos passavam mais tempo de farnel aviado junto dos toiros, do que da própria família. Andavam na lezíria a guardar os toiros e só de oito em oito dias é que iam a casa ver a família e aviar o farnel. Fosse inverno ou verão, fizesse frio e chuva ou calor intenso.
A vida de campino era dura, mas era vida. Um homem gostava daquele ambiente e afeiçoava-se aos animais, mau grado a sua bravura e, às vezes, os seus maus humores. Mas, trabalhar na Câmara era como estar preso, faltava-lhe a liberdade do horizonte e a companhia dos animais.
Convém salientar que os campinos da geração de José Mimoso foram dos últimos a viver intensamente o trabalho nas casas agrícolas, desde as desmamas, às ferras, às tentas, às mudanças de pastagens, especialmente em tempo de cheias nas invernias mais rigorosas, e na apartação dos toiros para as corridas.
As apartações custavam-lhe muito, porque estavam a mandar os toiros para a morte, tal como acontecia nas praças onde o patrão lidava a suas corridas e o moiral Mimoso se despedia dos animais de que cuidara tão desveladamente durante quatro anos. Quatro longos anos, que ali se desfaziam num ápice…
Sentia alegria quando os toiros saíam bravos e os toureiros os aproveitam como deve ser, mas logo a nostalgia da despedida. Sentimento difícil de entender, mas compreensível quando um homem dormia ao relento, praticamente no meio dos toiros, com quem falava antes de adormecer. Só quem conhece esta vida pode entender este estado de espírito.
Há uns anos, José Mimoso confidenciou numa entrevista ao Jornal “Mirante” que “Naquele tempo o gado era guardado a pé. Ia eu de saco às costas levar-lhes a ração”, e questionado sobre se não tinha medo, respondeu “Respeito. Estavam habituados a mim e respondiam à minha voz, como se de uma manada de cabras se tratasse.”
José Mimoso nunca pensou que pudesse ser homenageado publicamente, mas, de facto, foi o campino distinguido nas Festas do Colete Encarnado em 2019, momento que foi muito saudado por antigos companheiros e muitos amigos, pois é fácil ser amigo deste homem bom, leal e respeitador, que preferia andar vestido com o fato de trabalho, que ainda hoje enverga no seu dia a dia, à farda de gala da própria casa agrícola, pois era com a roupa de trabalho que se sentia mais realizado.
José Mimoso toca gaita de beiços, dança esmeradamente o fandando e vibra com as danças e cantigas típicas do nosso Ribatejo, pelo que é fácil encontrá-lo onde esta manifestação tão expressiva da nossa província estiver presente.
A falta de saúde não lhe permitiu prolongar a sua faina de campino, porém, José Mimoso nunca se esquece desta vida e do que era preciso um moiral dos toiros saber fazer, o que já não acontece nos dias de hoje, em que os poucos campinos que o são ainda, já andam mais de tractor e de jipe do que a cavalo, trabalho muito diferente de quando ia a pé, atravessando a manada para dar de comer ou água aos toiros, chamando-os pelo nome.
Outros tempos… Agora, claro, vive de saudades e da satisfação que lhes permitem as memórias de um tempo difícil mas que lhe agradava viver. Para que estas memórias não se percam por completo, e para que os velhos campinos, hoje já muito idosos e alguns com pouca família, possam ser lembrados pelo tanto que se deram ao nosso Ribatejo, está em curso o projecto “Os Últimos dos Maiorais”, que tem em vista a realização de um documentário, tão exaustivo quanto os recursos financeiros o permitam, sobre as histórias vividas dos campinos ribatejanos, gente boa e leal de quem guardamos para todo o sempre as melhores lembranças.
Tenho o privilégio de conhecer o campino José Mimoso nos tempos da antiga Feira do Ribatejo, onde fui responsável durante alguns anos pela participação dos campinos nas provas dos fardos, ou de perícia, de velocidade e da condução dos jogos de cabrestos, e para minha sorte tive a possibilidade de conversar longas horas com o José Mimoso, com o Manuel Sabino, com o José Manuel, com o João Martinho, com os irmãos José e António Colorau, com o António Verdasca, com o Duarte Maltês, com os irmãos António e Manuel Germano, e tantos outros que na singeleza das suas conversas, entremeadas com uns copitos de tinto, me ensinaram o que era a vida do campino no nosso Ribatejo.
Nesta circunstância, não poderei deixar de felicitar o bom Amigo José Mimoso e de felicitar sua filha, Teresa Silva, por este tão interessante projecto que está a concretizar. Parabéns!
