A Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo apresentou em Santarém os primeiros 16 autocarros eléctricos da nova rede intermunicipal de transporte público, que deverá entrar em operação plena em 2027. A renovação prevê 146 viaturas, 75% novas, num investimento global de 22,4 milhões de euros, e coloca Santarém entre as poucas cidades do país com frota urbana 100% eléctrica.
A apresentação de 16 autocarros eléctricos, sexta-feira, no Jardim da Liberdade, em Santarém, marcou o primeiro sinal visível da nova rede de transporte público rodoviário que a Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo quer pôr no terreno nos próximos anos. Os veículos vão ser integrados, numa fase transitória, na operação actualmente assegurada pelas empresas privadas que servem a região, antes de passarem para a futura empresa intermunicipal Transportes da Lezíria do Tejo, cuja entrada em funcionamento em pleno está prevista para 2027.
A operação envolve os 11 municípios da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo e aponta para uma renovação profunda da frota regional. No total, estão previstas 146 viaturas, 75% das quais novas, num processo que pretende baixar a idade média da frota dos actuais 18,5 anos para menos de três no arranque da nova operação. “Não se trata de uma simples renovação de equipamento, mas sim de uma verdadeira renovação de toda uma região”, afirmou João Teixeira Leite, presidente da CIMLT e da Câmara de Santarém, perante a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, a secretária de Estado da Mobilidade, Cristina Pinto Dias, e autarcas dos concelhos da Lezíria.
O investimento global na frota ascende a 22,4 milhões de euros. No caso dos 16 autocarros eléctricos agora apresentados e dos respectivos carregadores, o investimento é de cerca de 8,9 milhões de euros, dos quais 4,9 milhões financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência, através da Agência para o Clima. Para João Teixeira Leite, as novas viaturas representam “a primeira página de um capítulo novo na forma como esta região se vai mover, respirar e crescer nas próximas décadas”.
Santarém entre as poucas cidades com frota urbana eléctrica
Dos 16 autocarros apresentados no Jardim da Liberdade, oito vão circular de forma permanente no serviço urbano de Santarém, colocando a cidade entre as poucas do país com uma operação urbana de transporte público totalmente eléctrica. Para João Teixeira Leite, presidente da Câmara de Santarém e da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, esse dado dá ao investimento uma dimensão que ultrapassa a renovação de viaturas.
“Somos das poucas cidades no país que vai ter a sua frota 100% eléctrica a circular na cidade”, afirmou o autarca no final da cerimónia, sublinhando que a aposta se enquadra no objectivo de promover qualidade de vida e políticas públicas sustentáveis. “Do ponto de vista daquilo que é o nosso foco, de permitirmos e promovermos a qualidade de vida, de criarmos política pública sustentável e amiga do ambiente, não poderíamos estar mais satisfeitos”, acrescentou.
No seu discurso, João Teixeira Leite procurou afastar a leitura da cerimónia como uma simples apresentação de autocarros. O presidente da CIMLT disse que há territórios que “se limitam a gerir o presente”, a “reparar o que está velho” e a “adiar o que é difícil”, mas que a Lezíria do Tejo escolheu outro caminho: “desenhar o futuro antes de ele chegar”.
A distribuição das viaturas mostra a dupla dimensão da operação, entre resposta urbana e ligação regional. Além dos oito autocarros destinados a Santarém, quatro mini-autocarros vão servir Rio Maior, Coruche e o serviço Mobi.Sénior, vocacionado para respostas de proximidade. As restantes quatro viaturas interurbanas destinam-se a ligações entre concelhos da Lezíria do Tejo e municípios vizinhos, reforçando a mobilidade num território onde o transporte individual continua a ter um peso dominante nas deslocações diárias.
Para João Teixeira Leite, essas ligações “não são um detalhe técnico”, mas uma condição de coesão territorial. “Um território que não tem boas ligações internas é um território que se fragmenta em concelhos isolados. O nosso objectivo é o contrário: uma Lezíria do Tejo bem ligada por dentro, entre todos os seus municípios, e bem ligada para fora, a Lisboa, ao resto do país e ao mundo”, afirmou.
O autarca associou ainda a mobilidade à capacidade de atrair investimento, fixar população e reter jovens. “Nenhuma empresa se instala onde os seus trabalhadores não conseguem chegar com facilidade”, disse no discurso, defendendo que a qualidade dos transportes públicos pesa hoje ao lado de factores como solo disponível, energia ou mão-de-obra. No mesmo sentido, afirmou que as famílias também escolhem cada vez mais onde viver em função da facilidade de acesso ao trabalho, à escola e aos serviços.
“Estamos a fazer história enquanto território e enquanto comunidade”, afirmou João Teixeira Leite, no final da cerimónia. Para o presidente da CIMLT, a nova frota eléctrica e a reorganização da rede regional são “fundamentais para a qualidade de vida, para o ambiente e para a população”, mas também para diferenciar a Lezíria do Tejo face a outros territórios. “As pessoas escolhem os territórios para viver quando percebem que, do ponto de vista da conexão e da mobilidade, estão bem servidos. É esse passo qualitativo que estamos aqui a dar hoje”, concluiu.
Frota mais nova e investimento de 22,4 milhões
A renovação agora iniciada não se limita aos 16 autocarros eléctricos apresentados em Santarém. A nova operação de transporte público rodoviário da Lezíria do Tejo deverá assentar numa frota global de 146 viaturas, das quais 75% serão novas e as restantes terão menos de dez anos.
A frota que servia a região tinha, segundo o presidente da CIMLT, uma idade média de 18,5 anos. Com a nova operação, esse valor deverá baixar para menos de três anos no arranque do serviço. “Viaturas mais velhas do que muitos dos jovens que hoje nelas viajam”, observou João Teixeira Leite, para sublinhar a diferença entre o ponto de partida e a ambição da nova rede.
Os novos autocarros deverão percorrer mais de 710 mil quilómetros por ano com zero emissões, permitindo, segundo os dados apresentados, reduzir o consumo equivalente a cerca de 200 toneladas de petróleo e evitar a emissão de 700 toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera.
A nova frota será ainda acompanhada por investimento em infra-estruturas de apoio aos passageiros. João Teixeira Leite anunciou que a CIMLT investiu 700 mil euros em 2025 e voltará a investir o mesmo montante em 2026 na instalação de abrigos, num total de cerca de 400 novas estruturas espalhadas pela região. A renovação dos autocarros surge, assim, associada a uma tentativa de melhorar a experiência de utilização do transporte público, desde a espera até à viagem.
A lógica, defendeu o presidente da CIMLT, é tornar o transporte público uma alternativa real ao automóvel particular. Para isso, não basta substituir viaturas antigas por veículos eléctricos. É necessário garantir regularidade, conforto, ligações entre concelhos, articulação com outros modos de transporte e tarifas perceptíveis para quem se desloca diariamente dentro e fora da Lezíria do Tejo.
Nova empresa intermunicipal prepara entrada em operação
Os 16 autocarros eléctricos apresentados em Santarém vão começar por ser integrados na operação actualmente assegurada pelas empresas privadas de transporte que servem a região. A solução será transitória. A nova empresa intermunicipal Transportes da Lezíria do Tejo, já constituída pela Comunidade Intermunicipal, deverá assumir progressivamente a nova operação rodoviária regional, com arranque em pleno previsto para 2027.
João Teixeira Leite referiu que o processo ainda exige uma fase de transição, com conclusão de procedimentos administrativos e adaptação operacional, mas enquadrou a empresa intermunicipal como o instrumento que permitirá dar coerência à nova rede. A ideia é retirar a mobilidade regional de uma lógica dispersa e aproximá-la de uma gestão comum, envolvendo os 11 municípios da Lezíria do Tejo.
A futura operação não ficará limitada à substituição de autocarros antigos por viaturas novas. O objectivo anunciado é criar uma rede mais integrada, com melhor articulação entre os concelhos, reforço das ligações internas e ligação mais eficaz a Lisboa, ao resto do país e, no futuro, ao aeroporto que servirá a região.
“Queremos uma Lezíria do Tejo bem ligada por dentro, entre todos os seus municípios, e bem ligada para fora, a Lisboa, ao resto do país e ao mundo”, afirmou o presidente da CIMLT.
No caso de Santarém, João Teixeira Leite voltou a referir o futuro interface intermodal como peça essencial desta reorganização. O autarca disse que estão a ser dados “passos largos” para responder a uma necessidade da região, ligando melhor o território ao sistema ferroviário, à rede rodoviária e ao futuro aeroporto. A mobilidade urbana, intermunicipal e inter-regional surge, assim, como parte da mesma estratégia.
João Teixeira Leite apresentou a nova fase como uma mudança de patamar para a região. “A Lezíria do Tejo não está apenas a comprar autocarros. Está a escrever, quilómetro a quilómetro, viagem a viagem, o primeiro rascunho do seu próprio futuro”, afirmou.
Governo enquadra investimento nas metas da descarbonização
A presença da ministra do Ambiente e Energia e da secretária de Estado da Mobilidade deu à apresentação dos autocarros uma leitura nacional. As duas governantes enquadraram a renovação da frota da Lezíria do Tejo nas metas de descarbonização dos transportes e na tentativa de reforçar o transporte público como alternativa ao automóvel individual.
Maria da Graça Carvalho sublinhou que os 16 autocarros eléctricos e os oito carregadores agora apresentados fazem parte do Programa de Descarbonização dos Transportes Públicos, financiado pelo PRR e gerido pela Agência para o Clima. A ministra destacou os efeitos directos da substituição de viaturas a combustão por veículos eléctricos: menos emissões, melhor qualidade do ar, menos ruído e maior conforto para os passageiros.
“Temos muito gosto em estarmos associados a estes autocarros, através da Agência para o Clima, que geriu o PRR e co-financiou estes autocarros, que vão reduzir o CO2 emitido, vão aumentar a qualidade do ar”, afirmou Maria da Graça Carvalho. A governante referiu ainda que a nova frota é também uma forma de reduzir partículas e outros poluentes emitidos pelos motores de combustão interna, sobretudo nos centros urbanos.
A ministra lembrou que o programa nacional permitiu apoiar 1006 autocarros eléctricos, num investimento de 275 milhões de euros. Segundo Maria da Graça Carvalho, foi possível, numa fase final, negociar com a Comissão Europeia o alargamento do financiamento a cidades de menor dimensão, que inicialmente ficavam fora dos critérios definidos, por causa do número de habitantes servidos e das emissões evitadas.
“Conseguimos aumentar o financiamento, o que nos permitiu alargar a uma série de cidades de menor dimensão e por todo o país”, afirmou. Para a ministra, esse alargamento permitiu que territórios fora dos grandes centros urbanos também pudessem entrar na renovação eléctrica do transporte público.
Maria da Graça Carvalho reconheceu que Portugal tem bons indicadores na electricidade renovável, mas continua a ter maiores dificuldades nos transportes. A governante afirmou que, nos primeiros três meses do ano, Portugal atingiu 80% de electricidade proveniente de fontes renováveis, chegando ao primeiro lugar da União Europeia nesse período. Mas contrapôs que “os nossos piores indicadores são exactamente nos transportes”.
“Precisamos de investir muito nos transportes”, afirmou a ministra, defendendo que a electrificação da mobilidade pública não é apenas uma questão ambiental. Maria da Graça Carvalho associou a redução da dependência dos combustíveis fósseis à competitividade do país e à capacidade de resistir melhor a crises internacionais nos preços do petróleo e do gás.
“Além de uma questão ambiental, é uma questão de soberania, é uma questão de competitividade”, disse a ministra, sustentando que a energia limpa e acessível é uma das vantagens que Portugal deve consolidar nos próximos anos.
Cristina Pinto Dias centrou a intervenção na ligação entre mobilidade e liberdade de acesso. “Liberdade e mobilidade são dois conceitos que não se podem separar, pois só temos verdadeira liberdade se tivermos mobilidade”, afirmou a secretária de Estado da Mobilidade, lembrando que os transportes influenciam o acesso ao trabalho, à escola, aos centros de saúde, à cultura, ao lazer e às oportunidades.
A governante defendeu que o transporte público é um instrumento central para responder às transições energética, ambiental e climática, “com justiça social e territorial”. Cristina Pinto Dias apontou como meta nacional aumentar a quota modal do transporte público dos actuais 14% para mais de 20% até 2031, considerando que a renovação da frota da Lezíria do Tejo é um exemplo dos passos necessários para atingir esse objectivo.
A secretária de Estado saudou em particular a opção de colocar oito autocarros eléctricos no serviço urbano de Santarém. Para Cristina Pinto Dias, essa decisão coloca o município “na vanguarda dos municípios de Portugal” com operação urbana de transporte público totalmente descarbonizada. “É muito revelador da estratégia do senhor presidente e do seu compromisso de fazer de Santarém uma cidade mais sustentável”, afirmou.
Passes de rede e integração para tornar o transporte público mais competitivo
A renovação da frota deverá ser acompanhada por uma alteração tarifária pensada para simplificar o acesso ao transporte público na Lezíria do Tejo. João Teixeira Leite anunciou a intenção de criar três passes de rede, com valores diferenciados consoante a abrangência territorial: 10 euros para o passe urbano de Santarém, com extensão à zona industrial; 20 euros para um passe válido em toda a Lezíria do Tejo e municípios vizinhos; e 40 euros para ligações que permitam chegar, por exemplo, a Lisboa.
A medida surge associada à entrada em funcionamento da nova operação intermunicipal e pretende responder a uma das principais fragilidades do transporte público fora das áreas metropolitanas: a dificuldade em tornar simples, regular e previsível uma deslocação que atravessa vários concelhos ou combina diferentes modos de transporte. No discurso, João Teixeira Leite insistiu que a mobilidade não pode ser vista apenas como um serviço público mínimo, mas como uma peça de organização do território.
A secretária de Estado da Mobilidade, Cristina Pinto Dias, alinhou a intervenção com essa preocupação. A governante afirmou que a “palavra passe” da mobilidade em 2026 é a integração, defendendo que uma viagem deve funcionar como um contínuo entre o autocarro, o comboio e outros modos de transporte, sem obrigar o passageiro a multiplicar bilhetes, aplicações ou sistemas de informação.
“Falar de integração é também falar de integração tarifária, integração de bilhética, integração da informação ao cliente em tempo real”, afirmou Cristina Pinto Dias, defendendo que o utilizador não deve precisar de “cinco apps” para organizar uma viagem. Para a secretária de Estado, a decisão de usar transporte público tem de ser tão simples como pegar no automóvel.
A governante referiu ainda o impacto do passe ferroviário verde em Santarém, apontando a estação da cidade como a quinta do país com maior venda e utilização deste título. Apesar do ruído existente na transcrição dos números, a referência foi usada para sublinhar a crescente procura de soluções de mobilidade ligadas ao comboio e a importância de articular a rede rodoviária regional com a ferrovia.
Cristina Pinto Dias defendeu que os novos contratos de serviço público de transporte devem deixar de estar centrados apenas na oferta e passar a responder melhor às necessidades reais das pessoas. “As pessoas só mudam de hábitos se as alternativas que lhes oferecemos forem claramente vantajosas”, afirmou, sublinhando que o transporte público tem de ser confortável, fiável, previsível e apoiado por informação em tempo real.
Na Lezíria do Tejo, essa lógica ganha peso particular pela dispersão territorial e pela dependência histórica do automóvel. A nova empresa intermunicipal, a frota renovada, os passes de rede e a ligação ao comboio são apresentados pela CIMLT como partes de uma mesma resposta: criar condições para que o transporte público seja usado não apenas por quem não tem alternativa, mas também por quem hoje escolhe o carro por falta de confiança no serviço disponível.
João Teixeira Leite colocou essa mudança no centro da ambição regional. Para o presidente da CIMLT, uma rede acessível e bem articulada pode ajudar a fixar população, atrair investimento e reduzir desigualdades entre concelhos. A mobilidade, afirmou, pesa cada vez mais na decisão das famílias sobre onde viver e das empresas sobre onde se instalar. “Se tem transporte público regular, se permite chegar ao trabalho, à escola e aos serviços sem complicações, esse território é hoje diferenciado face aos demais”, disse.
Filipe Mendes

