07Em cada provérbio podemos aferir a pertinência das observações populares sobre os mais diversos aspectos que constituíam a mundividência das comunidades rurais, sendo que, compreensivelmente, os temas mais abundantemente referidos se prendem com a agricultura e com a meteorologia. Sem os conhecimentos teóricos que hoje estão acessíveis a qualquer agricultor medianamente informado, os camponeses de antigamente tinham de se apoiar na sabedoria que lhes era transmitida empiricamente pelos seus antepassados.

Porém, o que constatamos é que muitas vezes os ensinamentos extraídos dos adágios populares coincidem com aquilo que a ciência agrária veio consagrar, mau grado que, na actualidade, as novas tecnologias tenham um impacto muito significativo sobre a prática agrícola. Outrora, sem o recurso às alfaias mecanizadas, o trabalho das cavas, das mondas, das ceifas, da vindima ou da apanha da azeitona ocupava um período muito longo, comparado com o rendimento que se consegue obter actualmente.

Enfim, a vida rural de há três ou quatro gerações atrás comparada com a de agora é como a noite e o dia. A bem dizer nem tem comparação possível…

Mas, o que não deixa de ser verdade é que todos os campos estavam amanhados e havia milhares de trabalhadores ao serviço da agricultura, embora, lamentavelmente, fossem muito explorados, quer na duração de cada dia de trabalho, de sol a sol, quer no valor miserável das jornas que lhes eram pagas. Sem lugar a quaisquer direitos sociais!

Para que as coisas corressem bem, sem atrasos, era bom que no mês de Março tivessem lugar as sachas e as mondas, o que era sinal de que os meses anteriores tinham permitido fazer as podas, as cavas e as sementeiras. Por isso o mês de Março era muito exigente em termos de trabalho, não havendo tempo para descanso. Lá o alerta o rifão segundo o qual “Em Março, tanto durmo como faço”, o que quer dizer que neste mês o tempo dedicado ao trabalho deveria ser tanto como o tempo que se descansava.

A poda deve ocorrer durante o inverno, sendo que em muitos casos, quando havia muito para podar e poucos homens para fazer este trabalho, que exige um certo conhecimento técnico, se iniciava a poda ainda em finais de Novembro, mas “Podar em Março é ser madraço”, o que não abona nada a favor dos camponeses que chegados a este mês ainda não tivessem acabado a poda. Para mais, “Quem não poda até Março, vindima no regaço”, o que adverte para a reduzida produção de quem não tiver feito a poda no tempo certo. Ora, podar nesta época não vai beneficiar a planta ou a árvore e, para além disso, ainda corre o risco de desbastar ramos que poderiam frutificar. 

Eis outro ditado popular que confirma este judicioso aviso: “Poda-me em Janeiro, empa-me em Março e verás o que te faço”. Assim, o calendário agrícola estará certo, pois, se as podas tiverem sido feitas em Janeiro, em Março já as videiras estão boas para a empa, pelo que, se não houver outros contratempos, a produção poderá ser farta.

Em Março os camponeses agradeciam algumas chuvas, mas que não ocorressem com tanta abundância que em vez de ajudar só prejudicassem. Assim o confirma este provérbio: “Inverno de Março e seca de Abril deixam o lavrador a pedir”. Se a natureza satisfizesse os desejos dos camponeses, o ideal seria “Sol na eira e chuva no nabal”, mas como tal não é possível – felizmente! – o que se pede, ao menos, é que as chuvas de Março e de Abril ocorram em pequenas quantidades, mas vários dias em cada mês. Em jeito de rega! Ou, então, como o preceitua este tão conhecido ditado popular: Março, marçagão, manhã de inverno, tarde de verão”. Assim, já não seria mal de todo…

Mas muita desta sabedoria era transmitida de pais para filhos. Nos longos serões de inverno, após a ceia – como então se designava a refeição a que hoje chamamos jantar – a família reunia-se à volta do borralho, na chaminé da cozinha ou à braseira. As casas eram pequenas, tinham apenas duas ou três divisões – a casa de fora, onde funcionava geralmente a cozinha e onde todos passavam a maior parte do tempo que estavam em casa, e um ou dois quartos. 

Nestas construções tão rudimentares também não havia iluminação eléctrica, pelo que se recorria à lanterna ou ao candeeiro a petróleo, o que motivava que a família tivesse de estar reunida onde estava a luz, uma vez que não havia um candeeiro para cada divisão.

Esta modéstia de recursos impunha um hábito social que hoje quase se perdeu, ou não é devidamente valorizado – a convivência entre todos os membros da família. As dificuldades eram a companhia constante no seio de qualquer família camponesa, onde nem sempre a subsistência estava garantida, porém, todos os membros da família partilhavam todos os momentos da vida. Para o bem e para o mal…

Esta convivência familiar, entre avós, pais e filhos, era um factor fundamental para permitir a aprendizagem dos membros mais jovens, que, assim, adquiriam um conhecimento empírico que lhes iria servir para prover no futuro a sua subsistência.

Aprendiam o calendário das sementeiras, a técnica dos enxertos, das curas ou das podas, a forma de conservar os cereais, que haveriam de chegar até à colheita seguinte e de servir de semente para as próximas sementeiras, aprendiam a criar o gado, sendo que muitas vezes até tinham de ser veterinários, para curar os animais de algumas inconvenientes maleitas, e as mezinhas que eram usadas para curar as pessoas eram igualmente usadas para salvar a bicharada.

Na mesma escola da vida aprendiam a ler os astros, a entender os ciclos lunares, a consultarem as estrelas. Assim, previam se ia chover, se ia gear, ou se o calor seria excessivo. Lá o atestam de forma eloquente os ditados populares: “Manhã de nevoeiro, tarde de soalheiro”, ou este outro, “Lua Nova trovejada, trinta dias é molhada”. Enfim, aprendiam-se as coisas mais simples da vida, mas que eram elementares para garantir a integração dos mais novos ao nível do trabalho e da subsistência da própria família.

Falava-se das coisas mais triviais de uma existência simples e com escassos horizontes de futuro, contavam-se histórias que iam, assim, passando de geração em geração, e que se revestiam quase invariavelmente de um certo fundamento pedagógico. 

“É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe”, como sabiamente escreveu José Saramago na sua consagrada obra “A Caverna”

A frequência escolar não era acessível à maioria da população rural, quer pelo facto de não haver escolas nas pequenas aldeias do interior do país, quer, também, pela circunstância de as famílias mais modestas não poderem desperdiçar o contributo de qualquer braço de trabalho, mesmo o das crianças. Lá o confirmava a sabedoria popular – “o trabalho do menino é pouco, mas quem o desperdiça é louco”.

Sinais dos tempos!

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