Há objetos que ao atravessar o tempo vão acumulando novas camadas de história, de significado e de memória sobre a matéria de que são feitos. Este par de elefantes é disso um exemplo paradigmático: a pedra permaneceu, mas os lugares, as funções e os olhares que sobre ele se projetaram foram mudando, fazendo destes dois animais de pedra testemunhas de uma história que é, simultaneamente, artística, social e humana.

É, por isso, particularmente significativo que a sua recolocação aconteça no âmbito das Jornadas Europeias do Património, neste ano de 2026 dedicadas ao tema «Património em risco: reviver, resistir, reimaginar». 

Curiosamente, o mote das JEP ajusta-se, de forma quase natural, à biografia destes elefantes. 

A sua história começa num contexto funerário: foram concebidos como suportes de um túmulo relacionado com uma personalidade ligada ao Estado Português da Índia (provavelmente D. Aires de Saldanha), integrando uma linguagem escultórica em que a representação de animais exóticos contribuía para evocar um universo geográfico e cultural distante e para perpetuar a memória do defunto. O túmulo desapareceu, mas os elefantes sobreviveram-lhe, iniciando uma longa viagem que os conduziu por diferentes contextos: adquiridos, em circunstâncias ainda não apuradas, pelo médico e antigo presidente de câmara, António Mendes Maldonado Pedroso, e colocados na sua casa de habitação, junto à igreja de S. Nicolau, foram integrados nas coleções municipais em 1906, por doação da sua viúva, D. Maria Luísa da Silva Pedroso. É provável que tenham sido colocados no Jardim da Porta do Sol na sequência da remodelação deste espaço público em 1933, pois aí os encontramos registados em fotografias datadas de 1935. Pela mão de Zeferino Sarmento, então diretor do Museu Municipal, foram transferidos para a entrada do Museu Arqueológico, onde permaneceram durante décadas. 

Foi nesse lugar, popularmente conhecido como «Museu dos Cacos», que uma escultura de função funerária ganhou uma inesperada segunda vida: gerações de crianças subiram ao seu dorso, esfregando-o ou batendo-lhe com pedras para experienciar o cheiro fétido que comprovava a sua morte secular. É uma dimensão da sua história que dificilmente encontramos registada numa ficha de inventário. E, contudo, é uma dimensão que pertence também à história destes objetos.

É precisamente essa dimensão humana que torna tão interessante a sua trajetória. O seu valor patrimonial não resulta apenas da antiguidade ou da qualidade artística, nem se esgota na função funerária que originalmente desempenharam. Foi sendo construído também através das relações que estabeleceram com diferentes gerações de scalabitanos. 

Em maio de 1993, por razões de conservação e salvaguarda, este conjunto escultórico, já visivelmente degradado, foi recolhido para a Reserva Museológica Municipal. A decisão permitiu proteger a sua integridade física, mas significou também a perda de uma relação quotidiana com o espaço público. O par de elefantes deixou de estar diante dos olhos de quem passava e, sobretudo, deixou de estar disponível para aquele ritual espontâneo que durante tantos anos os tinha ligado à população.

Longe do olhar, mas não longe do coração. Ao longo dos anos, os elefantes continuaram a ser recordados por quem neles brincara. Os outrora miúdos – agora graúdos –, continuaram a perguntar sobre o seu destino e a reivindicar o seu regresso.

É aqui que o tema das Jornadas Europeias do Património ganha particular pertinência, porque o risco que ameaça o património não é apenas o da degradação física. Pode ser também a perda do contexto, a interrupção da relação com a comunidade ou, simplesmente, o esquecimento.

Neste caso, a conservação protegeu a pedra, enquanto a memória manteve vivo o seu significado.

É neste equilíbrio entre conservação e relação com a comunidade que se situa também uma parte importante do trabalho de um museu. O Plano Museológico do Museu Municipal de Santarém para a próxima década, atualmente em elaboração, parte precisamente da necessidade de pensar o Museu não apenas como uma instituição responsável pela salvaguarda das coleções, mas como uma estrutura capaz de estabelecer relações mais fortes entre o património, o conhecimento e as comunidades. A valorização do património cultural material e imaterial, o reforço da relação com os públicos e a construção de uma programação científica e cultural capaz de promover conhecimento, participação e mediação são alguns dos princípios que orientam esse trabalho.

A história dos elefantes permite-nos perceber concretamente o que isto significa. Se nos limitássemos a conservar estas esculturas numa reserva museológica, estaríamos a cumprir uma parte essencial da nossa responsabilidade: proteger a sua materialidade. Mas o trabalho museológico não termina aí. É igualmente importante compreender a história que transportam, recuperar os diferentes significados que foram adquirindo e criar condições para que esses significados possam voltar a ser partilhados.

É nesse sentido que a sua recolocação em São João de Alporão assume particular importância. O Núcleo Museológico de Arte e Arqueologia, um dos polos do Museu Municipal, pejado de exemplos – alguns de qualidade excecional – de escultura tumular, oferece um contexto que permite recuperar uma dimensão fundamental da história dos elefantes: a sua função original como elementos de um monumento funerário. Aqui podem ser novamente compreendidos dentro da tradição escultórica a que pertencem e da história mais ampla das relações entre Portugal e os territórios do Estado da Índia.

Mas os elefantes não regressam simplesmente ao seu primeiro contexto. Regressam trazendo consigo todos os contextos que, entretanto, atravessaram. É aqui que o terceiro verbo das Jornadas — reimaginar — ganha sentido. Reimaginar o património não significa inventar uma nova história nem substituir os significados antigos por outros mais recentes. Significa reconhecer que um objeto pode ter uma biografia longa e complexa e que cada contexto pode acrescentar uma nova camada à sua interpretação.

Existe, neste caso, uma outra razão – porventura menos conhecida – para este regresso ser celebrado. Foi deste par de elefantes que nasceu o logótipo e o mote do Museu Municipal de Santarém: «Temos Memória». A expressão adquiriu, ao longo do tempo, um significado que ultrapassa a simples identificação gráfica do Museu. Há nela uma pequena ironia histórica: aqueles que foram feitos para sustentar uma memória funerária acabaram por sustentar, literalmente, as memórias de muitas infâncias.

Reviver, resistir e reimaginar podem, neste caso, ser entendidos como três momentos de uma mesma história: reviver, porque os elefantes voltam a estar presentes num espaço acessível ao público; resistir, porque sobreviveram à passagem do tempo, à destruição do monumento para que foram feitos e às mudanças de contexto; e reimaginar, porque hoje podemos compreendê-los simultaneamente como testemunhos de escultura tumular, peças de uma história luso-oriental e elementos da memória social de Santarém.

Talvez seja essa a imagem com que devamos ficar. Dois animais de pedra, imóveis e silenciosos, que ao longo de séculos fizeram uma longa viagem entre lugares, funções e significados. Foram feitos para sustentar um túmulo; mais tarde, sustentaram crianças; e, de uma forma que o seu escultor certamente nunca poderia ter imaginado, acabaram por sustentar também uma parte da memória de uma cidade. Não regressam simplesmente ao lugar de onde partiram; chegam a um novo lugar trazendo consigo todos aqueles por onde passaram. 

E é nessa capacidade de transportar o passado para o presente, sem deixar de abrir espaço para novos significados, que reside uma das razões pelas quais continuamos a preservar o património. Porque, no fundo, conservar não é apenas impedir que uma pedra desapareça: é garantir que ainda haverá alguém, no futuro, capaz de olhar para ela e perguntar: que história nos conta? 

A partir de hoje, escreve-se um novo capítulo dessa história, que é a história de todos nós. Porque «temos memória».

Luís Mata
Historiador

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