Numa sociedade em que se privilegia a juventude e a produtividade é relativamente fácil difundirem-se estereótipos menos positivos relativamente ao envelhecimento.
A eles está associado, muitas vezes, o preconceito de que ser velho é ser menos útil para a sociedade, pois a velhice é, frequentemente, identificada com a imagem de “muita idade” e de inactividade.

No entanto, esta visão da velhice tem vindo a alterar-se, muito pela influência das Universidades da Terceira Idade (UTIS), escolas de aprendizagem informal, que na sua maioria, integram as Santas Casas.

A capacidade de atrair cada vez mais alunos, o estabelecimento de parcerias e uma maior variedade nos currículos oferecidos, são dados que mostram o sucesso e a vitalidade que estas estruturas têm vindo a adquirir: de acordo com a Associação Rede de Universidades de Terceira Idade (RUTIS), havia, em 2020, 368 Universidades Seniores associadas à rede, que contavam com 65 mil alunos e 7.500 professores voluntários.

É o exemplo da Academia Sénior da Golegã, constituída formalmente em 2003, a partir do Centro de Convívio, e que desde então tem fomentado inúmeras actividades que se alargam, por vezes, a instituições congéneres, fomentando o intercâmbio de alunos.
Neste estabelecimento de ensino, os alunos há muito que terminaram a escola. Mas aos 60, 70 ou mesmo 90 anos (a aluna mais experiente tem 94) todos querem continuar a aprender e, sobretudo, a “viver”.

Recentemente, esta Academia ganhou mais uma ‘unidade curricular’: a Oficina de Restauro, que tem a particularidade de ser ministrada no atelier do conceituado artista Rui Fernandes.

O ‘escultor da Golegã’, nascido em Lisboa, considerado um mestre na escultura e na pintura, filho de Manuel Fernandes, de quem herdou a veia artística, e com quem aprendeu os valores mais importantes da vida e da arte, decidiu abrir as portas do seu atelier aos alunos da Academia Sénior e partilhar a sua paixão pelas artes e pela história.

“As pessoas aqui sentem-se em casa. Já são parte da família. É esta a minha forma de estar na vida. Tudo o que eu puder fazer para ajudar os outros, faço”, diz o artista, cuja obra que se estende da aguarela à escultura, encontrando-se representada em colecções particulares em Portugal, Espanha, Alemanha, França, Bélgica, México e Estados Unidos da América.

No seu atelier, um grupo de cerca de 15 alunos aprende os ‘segredos’ da arte do restauro e da criação artística: “surpreendem-me todos os dias. Tenho uma aluna com 94 anos que faz coisas fabulosas”, confidencia.

Nestas aulas, segundo afirma, estuda-se muito a história das obras que são alvo de intervenção, os artistas e os materiais usados para produzi-las. Com essas informações, é que tenta manter ou devolver a “forma” original da obra.

“Para restaurarmos uma peça, temos que saber a fundo a sua história, o seu contexto e é isso que eu passo aos meus alunos”, refere, com um sorriso, Rui Fernandes que diz ficar “com o coração cheio” por participar neste projecto que, além do restauro dá vida às mascotes do ‘Artesanato Maria Avó’.

Tratam-se de pequenas bonecas de barro que dão corpo a esta “marca” criada em 2015, e que tem como objectivos fulcrais a valorização dos utentes e a promoção da inclusão social e das relações interpessoais.

Neste projecto, utentes das várias valências da instituição dedicam-se à realização de diversos trabalhos, nomeadamente em Ponto de Cruz, Pé de Flor, Ponto Margarida ou Rechelieu: trabalhos manuais, muito minuciosos e com um cuidado especial nos detalhes, permitindo que os utentes das diferentes valências usem e abusem da criatividade e coloquem o seu talento nas bonecas, panos, aventais e todos os produtos especiais deste projecto.

Nos Ateliers de Bordados ornam-se aventais, toalhas, sacos, panos, bordando-se motivos alusivos à Capital do Cavalo, recriações das obras do Mestres Martins Correia (de modo a imortalizá-lo), e outros motivos recolhidos de gerações passadas.

Mas, mais que uma terapia ocupacional, mais que uma forma de não deixar morrer esta arte, neste espaço, “(re)aprende-se, a estar juntos com optimismo, partilha de saberes, conversas, segredos e afectos”, como frisa Fernanda Oliveira, directora técnica da Santa Casa da Misericórdia da Golegã.

A dedicação a cada obra não se esgota nas instalações da instituição e viaja até casa de quem quer estar envolvido, como é o caso dos utentes do Centro de Convívio.
E a palavra “convívio” é o denominador comum que junta estas mulheres, como nos diz Maria José Caixinha, uma das utentes envolvidas neste projecto: “estou cá há três anos. Sentia-me muito sozinha em casa e aqui sinto-me bem”.

O mesmo sentimento é partilhado por Deolinda Rocha: “decidi vir para cá [Academia Sénior] por causa do convívio… para me distrair, para fazer qualquer coisa de útil com o meu tempo livre”, confidencia, enquanto borda uma peça.

Maria Zibreira trabalhou toda a vida numa fábrica de malhas e, quando se aposentou, decidiu colocar esse capital de saber ao serviço do Atelier de Bordados. Está no projecto há cerca de 11 anos e já trouxe duas amigas: “somos uma família”, resume.

A abertura curricular, uma aposta cada vez mais clara Academia, “é de extrema importância para a inclusão”, diz a responsável da Santa Casa, Fernanda Oliveira, acrescentando que, desta forma, se permite a convivência de idosos com formações, interesses culturais ou artísticos de diferentes enquadramentos e com experiências de vida muito diversificadas.

Assim, para além de a instituição combater o problema da solidão, que afecta de forma inegável esta faixa etária, possibilita-se ao idoso uma reintegração na vida social, permitindo-lhe paralelamente desenvolver competências efectivas de acordo com o seu perfil e potenciando assim uma verdadeira aprendizagem ao longo da vida.

Não menos importante, é o reconhecimento social por parte dos alunos que frequentam estes espaços, mas também dos voluntários que aí leccionam ou dos parceiros que assumem este projecto como uma responsabilidade sua.

Com a possibilidade de acesso a este tipo de instituições, a população sénior vê-se e afirma-se como capaz, reclama o seu espaço, a sua identidade: não uma reivindicação como indivíduos isolados, mas como um corpo, um colectivo, onde são construídos vínculos de solidariedade que surgem num contexto dignificante para todos.

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