Pode não ser uma questão civilizacional, mas é, com toda a certeza, uma questão de incompetência! Um membro do Governo de uma República deveria ter o bom senso de se resguardar, evitando falar do que não sabe. É certo que deveria saber, pois, a suposta competência é que justificaria a sua nomeação, mas até compreendemos que um cidadão pelo simples facto de ser nomeado ministro não passe a saber de tudo num ápice, como se fosse tocado por uma varinha mágica.

O que se espera de um ministro de um Governo democrata é que, pelo menos, se iniba de comentar aquilo que não conhece. Enaltecemos o actual Ministro da Cultura quando no início do seu mandato foi discreto nas declarações que proferiu sobre a Tauromaquia, assumindo que não era aficionado ao espectáculo tauromáquico, mas que era aficionado ao respeito pela diversidade cultural.

Não restem dúvidas que Pedro Adão e Silva trazia o discurso bem ensaiado, mas uma qualquer deficiência originou um “reset” e as suas opiniões ficaram descomandadas. Estalou o verniz… e saiu grosseria! Pobre país que não acha entre os seus filhos um Ministro da Cultura com competência e com coluna vertebral para resistir à nefasta tentação de gingar em todas as direcções, conforme o lado de onde soprem os ventos.

Certamente, o poderosíssimo lóbi governamental anti-taurino, que tem como principal mentor o próprio Primeiro Ministro, começou a fazer-lhe a folha após as primeiras declarações, que tiveram o condão de apaziguar a sanha dos aficionados contra o Governo e, especialmente, contra a anterior titular da pasta da Cultura. É que os anti-taurinos são mais persistentes e militantes do que nós, que nos contentamos com dez réis de mel coado! Pedro Adão e Silva considerou a participação de anões toureiros no espectáculo cómico-taurino que se realizou no passado domingo na Benedita (Alcobaça) – sem quaisquer incidentes e perante uma boa moldura de público – “atentatório da dignidade humana e contraditório com tudo o que importa defender no plano das políticas de inclusão”, acrescentando que este espectáculo “de cómico não tem rigorosamente nada.” Por sua vez, a Plataforma Basta! Condenou este tipo de espectáculos “que, além da brutalidade e violência contra animais, contribuem para ridicularizar, denegrir e humilhar as pessoas com incapacidades.”

Valha-nos a Santa Ignorância!

Todos sabemos que o toureio cómico é uma das vertentes tauromáquicas que mais agrada aos jovens aficionados, algo que os políticos anti-taurinos querem impedir, nomeadamente através da absurda limitação da idade mínima de acesso aos espectáculos tauromáquicos. Acossado, certamente, pelas associações anti-taurinas, o Ministro da Cultura proferiu declarações estapafúrdias e, até fora do seu registo cinzentão e anódino. Melhor fora ter parado para pensar e só então dizer alguma coisa sobre o assunto.

Também o Observatório da Deficiência e Direitos Humanos e a Associação Nacional de Displasias Ósseas, parecendo mais interessados em combater a Tauromaquia do que em valorizar os cidadãos sobre quem deve recair a sua nobre missão, vieram a terreiro contestar esta iniciativa da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Benedita.

Os cidadãos que padecem da doença de nanismo têm o direito constitucional de não serem discriminados pela sociedade, podendo exercer todas as funções e actividades legais a que o comum dos cidadãos pode aceder. É caso para perguntar quem é que está a humilhar as pessoas com incapacidades físicas?

Jimmy Muñoz, um dos anões toureiros que integra a troupe que se apresentou na Benedita, declarou que “As pessoas não se riem de nós como se fosse uma humilhação, mas sim pela paródia e pelo número que fazemos para as divertir”. Por sua vez, João Guerra, da organização do evento, disse ao “Correio da Manhã” que “estas pessoas, algumas com deficiência, têm direito a ter a profissão que querem, aliás, têm carteira profissional de toureiros, e este espectáculo existe já há muitos anos”.

A PróToiro – Federação Portuguesa de Tauromaquia critica, em comunicado, o que considerou “declarações indignas” do Ministro da Cultura, deixando a seguinte questão: “Já perguntaram aos anões o que sentem no redondel e fora dele como profissionais taurinos, reconhecidos como tal? O que significa para eles o seu êxito com o público aficionado a aplaudi-los?”

Jaime Amante, que foi o mais internacional dos toureiros cómicos portugueses, tendo integrado durante muito anos o “El Bombero Torero”, o mais célebre grupo espanhol, lembrou que “os anões toureiros são uma tradição de sempre nos espectáculos cómico-taurinos e nunca, em tempo algum, sentiram que a sua participação neste tipo de espectáculo constituísse algum ‘atentado à dignidade humana’, antes pelo contrário, trata-se de uma valorização da sua arte enquanto artistas das arenas”.

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