O Monte-pio de Nossa Senhora da Conceição da Ribeira conhecido como Monte-pio Ribeirense foi fundado, em 1861, por um grupo de jogadores ribeirenses de chinquilho que amealharam uma avultada quantia paga por todos aqueles que perdiam ao jogo. Os primeiros estatutos foram aprovados por alvará de 3 de Novembro de 1863 e publicados em Lisboa, na tipografia de J. G. de Sousa, no ano seguinte. A missão da sociedade era “prestar socorro aos seus sócios nas enfermidades, na impossibilidade de trabalhar e na prisão; cuidar dos seus funerais e bem de alma” (“Estatutos”, 1864, p. 5). Todos os homens podiam ser sócios usufrutuários deste monte-pio desde que obedecessem aos seguintes requisitos: “bons costumes; idade superior a 14 anos e inferior a 45 anos; ter ofício, arte ou ocupação de que viva; não padecer de moléstia de qualquer espécie, nem lesão de que possa resultar com o tempo, inabilidade de trabalhar” (Idem, p. 6). Os sócios auxiliadores eram “todos os indivíduos do sexo masculino que tenham bens de fortuna com que possam satisfazer os encargos da sociedade” (Idem).

Em 1889, o presidente da assembleia-geral da associação era presidida por José Tomás Duarte Coelho e secretariada por João Arruda e João Maria de Sousa. A comissão revisora de contas era composta por José António Salgado, Joaquim Maria Cardoso e José Alexandre de Carvalho. A direcção era constituída por José António Salgado (presidente), Joaquim Maria Cardoso, José Alexandre de Carvalho (secretários), cónego José da Silva Cordeiro (tesoureiro), Joaquim Augusto Ferreira Benfeito, Adrião da Conceição Tátá, Augusto César da Costa, José Faustino Duarte, Joaquim Tavares do Pinho Júnior (vogais).

Os estatutos do Monte-pio Ribeirense foram revistos, a partir da organização do sócio José Tomás Duarte Coelho e publicados na tipografia do escalabitano Bernardino Santos, em 1896. No ano seguinte, foram eleitos dirigentes José Franco das Neves (presidente), Joaquim Maria da Costa Malfeito (tesoureiro) e Augusto César da Costa (secretário). Em 1900, os corpos gerentes eram constituídos por Joaquim Maria Cardoso (presidente), António César Marques (tesoureiro), Augusto César da Costa (secretário), Joaquim Faustino Duarte, José Dias Picoto, Henrique Nunes da Conceição, José Maria Ferreira Benfeito (vogais). O presidente da assembleia-geral era Joaquim da Costa Malfeito, cargo que acumulava com a presidência do conselho fiscal, sendo secretariado por Alfredo Júlio Cravador e Francisco Cardoso da Silva.

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Em Março de 1902, o cónego José da Silva Cordeiro doou ao Monte-pio a sua casa e o quintal na rua de Santo António, onde se encontrava instalada a associação. Esta “como manifestação de reconhecimento por tão valiosa oferta, vai fazer uma sessão solene colocando por essa ocasião o retrato do doador na sala das suas sessões” (CE, 5/4/1902, p. 2). O Monte-pio só tomou posse do imóvel na assembleia-geral de 15 de Fevereiro de 1911, presidida por João Arruda. Nessa sessão, também foi aprovada a proposta do presidente da direcção, José Tomás Duarte Coelho para “realizar um benefício para conseguir verba destinada a melhorar a casa” (CE, 18/2/1911, p. 2).

O Santareno, 2/2/1889, p. 2

Francisco Barbosa Godinho foi nomeado médico efectivo do monte-pio, em Dezembro de 1913, cargo que exerceu até Dezembro de 1923, quando passou a residir em Lisboa e a trabalhar no hospital de S. José. Este morava na calçada da Atamarma, 10 e tinha consultório na rua Direita, 105-107. João Arruda e José Tomás Duarte Coelho continuavam a presidir à assembleia-geral e à direcção, em 1924.

A 20 de Março de 1920, os monte-pios Artístico, do Carmo, Scalabitano e Ribeirense pretenderam estabelecer uma aliança que lhes permitisse estabilizar as quatro instituições que enfrentavam muitas dificuldades, criando a federação dos quatro monte-pios que seriam autónomos, excepto na distribuição de medicamentos e na garantia da assistência médica. Este projecto acabou por ser rejeitado pelo Monte-pio Ribeirense enquanto as outras três associações acabaram por se fundir no Monte-pio Geral de Santarém, em 1921.

Em 1925, o Monte-pio Ribeirense decidiu aumento a quota mensal para 2$50 e as multas por faltas às reuniões e funerais para o mesmo valor. No entanto, as contas de gerência de 1929, apresentavam um saldo positivo de 1 126$63 e, as de 1931, de 1 300$00. Neste último ano, as quotas foram novamente aumentadas para 5$00 mensais, passando as multas para 3$00, por não assistir à assembleia-geral e de 5$00, por faltar aos funerais. Também ficou deliberado que as despesas com um funeral eram fixadas em 100$00.

Em 1930, o presidente da assembleia-geral mantinha-se João Arruda, enquanto o presidente da direcção passou a ser José Dias Vigário coadjuvado por José Franco das Neves Júnior (secretário) e Leonel Faustino Duarte (tesoureiro). Nos dois anos seguintes, os presidentes mantiveram-se e propuseram a discussão e aprovação da alteração dos estatutos da associação. Em 1933, o presidente da assembleia-geral passou a ser o major Egídio de Sousa.

CE, 18/2/1911, p. 2

O jornal “O Século” dinamizou a “Semana do Mutualismo”, em Santarém com duas sessões que decorreram no Monte-pio Ribeirense e no Monte-pio Geral de Santarém, nos dias 21 e 22 de Janeiro de 1933, contando com a presença do representante do diário, Alfredo da Silva Leitão. A sessão que decorreu no Monte-pio Ribeirense foi presidida pelo major Egídio de Sousa, secretariado por Henrique Dias Vigário e Francisco Cordeiro. Entre os oradores encontravam-se Francisco de Azevedo Cordeiro, o advogado lisboeta Fernandes de Castro e Virgílio Arruda que enalteceram “o princípio moderno de solidariedade que substituiu a esmola pela quota” e relembraram a importância de os ribeirenses se inscreverem neste Monte-pio.

Em Dezembro de 1949, o Monte-pio Ribeirense homenageou a título póstumo o associado major Egídio de Sousa, com o descerrar de um retrato na sala das sessões. Na sessão discursaram o presidente da assembleia-geral, Cândido Cardoso da Silva, Virgílio Arruda e o genro do homenageado, Rui da Silva Leitão.
Na comemoração do centenário do Monte-Pio, em Dezembro de 1961, o sócio Virgílio Arruda proferiu uma conferência sobre a história da associação, onde alertou para a importância de manter esta estrutura de apoio aos mais necessitados. Nesse período, existiam em Portugal 533 monte-pios que apoiavam 575 976 indivíduos.

O “Correio do Ribatejo”, na sua edição de 18 de Outubro de 1969 alertava “para as dificuldades com que luta o Monte-Pio Ribeirense, cuja actividade parece estar suspensa desde o falecimento do saudoso médico Joaquim Pedroso da Costa, sendo de recear que venha a cessar de todo. Adventa-se a hipótese duma fusão com o Monte-Pio Geral de Santarém, esperando-se que alguma coisa se faça para que não se extinga uma colectividade mais que centenária, que tão humanitário serviço prestou à população da parte baixa da cidade” (p. 6).

A morte anunciada não se fez esperar, pois em Março de 1974, o edifício do Monte-Pio Ribeirense encontrava-se abandonado.

Memórias da Cidade – Teresa Lopes Moreira

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