OPINIÃO: António Paula de Oliveira, “o hábil industrial”

António Paula de Oliveira nasceu na casa de família em S. Lázaro, na freguesia de Marvila, a 11 de Junho de 1874, sendo filho de Manuel António de Oliveira, carpinteiro, natural da extinta freguesia de Santo Estêvão e de Adelaide da Conceição, doméstica, exposta na roda, ambos de Santarém. Os seus avós paternos eram António de Oliveira e Maria de Jesus enquanto os maternos eram incógnitos. Por estar em risco de vida quando nasceu, António foi baptizado inicialmente pela parteira Maria José da Paz e, a 8 de Fevereiro de 1875, na igreja de Marvila, sendo apadrinhado pelo prior da colegiada de Santa Maria da Alcáçova, António Rodrigues e por Maria Gertrudes de Oliveira.

A 14 de Setembro de 1905, casou-se na igreja do Salvador com Guilhermina Adelina Dias, de 22 anos, doméstica, moradora na rua Capelo e Ivens, filha de António Dias e Rosa Fernandes, naturais do concelho de Soure. O consórcio foi apadrinhado por Joaquim Pereira Duarte, comerciante e morador em S. Nicolau e João da Silva Cordeiro, proprietário e morador na freguesia de Salvador. O noivo residia na calçada de Santa Clara e, nessa época, a sua mãe já tinha falecido.

António Paula de Oliveira era “um apaixonado desde muito novo pelo automobilismo, a sua carta de condução era das primeiras, tendo tomado parte em numerosas provas desportivas, figurando entre elas uma viagem-record, Paris-Santarém” (CR, 10/1/1959, p. 8) feita no início da década de 10 do século XX, a qual deu motivo a uma festiva recepção em Santarém.
Em 1902, encontrava-se estabelecido numa oficina de serralharia que, sete anos mais tarde, era uma garagem que alugava automóveis e vendia bicicletas de modelos variados e “os acessórios para todos os sistemas de máquinas”, tudo a “preços limitadíssimos”. Em Junho de 1910, a “Garage Paula”, no largo da Piedade, vendia artigos de ciclismo “pelo preço do custo, podendo o comprador, no caso de provar que o preço do objecto comprado foi superior ao do seu custo, reaver a importância. Há em liquidação nesta garagem 60 bicicletas de todas as marcas, 500 protectores e câmaras de ar e grande quantidade de acessórios, [sendo] todas as vendas a dinheiro” (CE, 17/9/1910, p. 5).

Em 1911, António Paula de Oliveira contestou os boatos que assombravam o seu negócio, “tendo chegado ao meu conhecimento que algumas pessoas menos sérias e certamente com o fim de me prejudicarem, têm espalhado o boato de que as minhas oficinas se não consertam bicicletas, mas só automóveis e motos, venho a semelhante boato, opor o mais categórico desmentido. Não só tenho em minha casa uma secção para trabalhos em bicicletas, superior a qualquer outro no país (isto sem contestação alguma) como também em depósito bicicletas de diferentes marcas sendo todas inglesas, com protectores e câmaras de ar das primeiras casas estrangeiras e todos os acessórios respeitantes a bicicletas, tudo por preços que casa alguma em Portugal poderá exceder em modicidade (…) Faço também consertos em todas as máquinas de costura, tendo em depósito agulhas, óleos, correias e todos os acessórios, por preços 30% mais baratos que noutra casa” (CE, 16/12/1911, p. 4).

A 4 de Abril de 1926, casou em segundas núpcias com Júlia Hermínia Dias, natural de Marvila, Santarém que faleceu a 25 de Fevereiro de 1955.
O carro de João Arruda era habitualmente reparado por António Paula de Oliveira como o comprova as cartas de Custódia Arruda para o seu filho Virgílio Arruda, “quanto ao nosso carro, vai amanhã para a garagem do Paula, para ver por que sítio se escapa a gasolina, pois agora se verificou, que há qualquer sítio por onde ela se evapora, porque tendo-se-lhe deitado 5 litros, para ir e vir ao Jardim [de Cima] uma vez, agora já não tinha e teve que levar mais. E então levará óleo conforme tu dizes e será lubrificado também” (18 de Abril de 1929). Três dias depois, Custódia Arruda referiu-se novamente ao problema pois “como te disse o automóvel foi a lubrificar ver o que era preciso mais, pois teu pai quer tê-lo sempre afinado. Quanto a evaporar-se a gasolina, não era nada furado. Disse o Paula, que só levava 5 litros de cada vez e estava muito tempo sem sair, que a gasolina se evaporava, não tinha pois, isso importância. Agora, todas as semanas vamos passar um dia à Quinta [das Roseiras, Jardim de Cima], para dar uso ao carro e teu pai descansar um pouco, porque está tudo muito florido e ele gosta de lá ir”.

Nesse ano, a garagem passou a ter uma oficina mecânica para automóveis porque “tem sempre o proprietário desta casa, tido por norma não se poupar a todos os sacrifícios para bem servir os seus clientes, como o tem demonstrado durante quase 30 anos. É ainda bem conhecido em todos os centros do automobilismo no país, terem sido os senhores automobilistas do distrito de Santarém, dos mais bem servido na assistência mecânica, embora algumas vezes com pequenas faltas nas entregas dos trabalhos no tempo combinado, isto deve-se a duas razões: o eu não consentir que todos os trabalhos confiados à minha direcção saiam de minha casa sujeitos à mais pequena crítica; ser a minha casa a única no género durante este tempo, e eu não poder, muitas vezes, atender ao mesmo tempo a todos os meus clientes. Hoje, porém, para poder continuar a merecer a preferência dos senhores automobilistas, têm estes toda a garantia em me conceder tal distinção e para bem cumprir a missão que me impus, tenho montadas secções para todas as reparações, como sejam: a parte mecânica, eléctrica, carroceria, estofador e pintura, para o que tenho em depósito todo o material necessário e garantido para tais reparações. Como um dos maiores entraves para reparações em carros antigos, tem sido sempre a dificuldade em se obterem peças novas sobresselentes, tomei a resolução de montar ferramentas para poder construir todas as peças, mesmo as mais difíceis, pela construção das quais tomo toda a responsabilidade. Os preços de todos os trabalhos são feitos ao abrigo de toda e qualquer concorrência” (CE, 18/5/1929, p. 7).

Na madrugada de 28 de Maio de 1931, a garagem foi atingida por um incêndio prontamente combatido mas que danificou uma camioneta e um automóvel. Três anos mais tarde, a garagem passou a dedicar-se apenas à venda de acessórios e reparação de automóveis. Em 1939, António Paula de Oliveira também possuía uma estação de serviço onde vendia gasolina e óleos. A partir de 1945, passou a reparar motores industriais, a montar gasogénios e a construir radiadores.

A 31 de Outubro de 1940, o seu filho do primeiro casamento, o oficial miliciano Adelino Dias Paula de Oliveira faleceu no hospital Militar da Estrela, em Lisboa. Este “era um apaixonado desportista, tendo cursado o Liceu de Sá da Bandeira e, em 1928, partiu para a África, regressando em 1937. Jogou no primeiro “team” do Sporting Club de Portugal e no Grupo Desportivo Ferroviário de Lourenço Marques. Quando regressou à metrópole entrou para o Sport Grupo Scalabitano “Os Leões”, onde era capitão da equipa. Estava em serviço do exército em Lagos, onde adoeceu” (CE, 2/11/1940, p. 2).

António Paula de Oliveira faleceu em Santarém, a 5 de Janeiro de 1959, com 84 anos.

Teresa Lopes Moreira

PARTILHE COM OS SEUS AMIGOS