«Num fogareiro aceso é que ela arde/ Ao canto do outono, à esquina do inverno/ O homem das castanhas é eterno.» No tempo deste célebre fado-canção, ainda pairava, diluída na memória de quem o conheceu – num lugar em torno de Santarém – um outro homem das castanhas, quase o mesmo «Quem quer quentes e boas, quentinhas!» que havia nessa altura um pouco por todo o país «Não tem eira nem beira, nem guarida/ E apregoa como desafio/ É um cartucho pardo a sua vida/ E se não mata a fome, mata o frio.» O genial poeta destes versos; o grande fadista que os interpretou e à perfeita música deles; vivendo em Lisboa numa camaradagem solidária com alguns dos tipos mais populares e desvalidos que percorriam a Capital, juntaram-se em casa de um deles donde resultou o mais belo, poético e conseguido sem choraminguices, conjunto de fados alguma vez feito neste país, ocupando todos o magnífico disco LP «UM HOMEM NA CIDADE.» Não abundam, na quase milenar poesia portuguesa, versos ao vendedor de castanhas (ou Castanheiro) e a razão é simples. Este personagem típico é sobremodo citadino e surge cerca de 1850 com a industrialização do país e consequente surto operário. Citadino, pois que nas aldeias e vilas não faltavam castanhas, mesmo piladas, e gastar cinco tostões a comprá-las era na maior parte luxo ou desmazelo. Quem comprava as «quentes e boas» em Lisboa, sítio onde não há a árvore das castanhas, era sobremodo as classes laborais para compensar a obrigatória magra dieta; por arrasto a burguesia comercial e os diletantes, boémios, artistas do Parque, poetas e pintores que aqui e ali as pintavam (Malhoa), ou inventavam quadros cénicos nos teatros de Revista com cançonetas às castanhas (em especial às metafóricas que se apanhavam no costado) por remate e protesto. A grande poesia nunca se interessou muito por este tipo popular, ao contrário do que sucedeu com os pastores clássicos e arcádicos dos Autos e éclogas; pescadores de odes e romances, pré e neo-realistas; almocreves, lavradores etc. vicentinos, recuperados pelos primeiros realistas e alguns modernos; moleiros, aguadeiros e ferradores dos românticos etc. O «Homem das Castanhas» do grande poeta das «Portas que Abril Abriu» teve que esperar pela abertura das mesmas e valeu a pena, pois raro a poesia dos tipos populares, tirando Junqueiro e Mestre Gil atingiu esta perfeição, enquadramento literário e histórico-social.

 

«Ao pé dum candeeiro acaba o dia/ Voz rouca com o travo da pobreza/ Apregoa pedaços d´alegria/ E à noite vai dormir com a tristeza.» O pregão do meu vendedor de castanhas perto de Santarém «Olhó Castanheiro do Azar, sempre a assar!» era em si-mesmo um mito, símbolo grego e trágico, verso intertextual de rima interna, ambivalente, assonântico, aliterante e exclamativo. Quase analfabeto, menos da dura experiência da pobreza, nunca tendo lido Horácio e os outros teóricos da arte poética, este irónico verso, escrito por um qualquer versejador de água doce, ou poeta em flagrante delito, seria digno de aturada análise textual; tratado filosófico cheio de termos especiosos para embasbacar incautos; ou crítica semiológica de costa acima. Vejam os/as ilustres leitores/as se não é verdade. Primeiro aquele verbal vocativo sintético «Olhó» digno de Homero «Conta-me, ó musa» e de todos os outros épicos posteriores «Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito…». O «Castanheiro», referido ao vendedor de castanhas em sinédoque não é um qualquer. É este do «Azar», determinativo substantivado que remete para a má-sorte ou destino injusto do mesmo. Como se não bastasse – e aqui é que a metáfora se ajusta à profissão; a imagem literária ao real; e o génio insciente, desengano da fortuna, ironia conformada, remoque a uma sociedade injusta, ou o que fosse – atinge o auge intertextual do pregão, e o assar das castanhas se liga à vida custosa de quem as assa e é «assado» pelo destino, como «Édipo», a «Castro», Carlos e Eduarda de «Os Maias». Mais ainda. Este «Castanheiro do Azar, sempre a assar» não é assado de uma vez para sempre. Como Tântalo e Sísifo está «sempre a assar» ou a ser assado de modo contínuo pelo triste fado, condenado à pobreza, injustiça social, ou condição humana dos desvalidos como no inferno de Dante. Só pelo engenho de poeta sem mestre, gesto desafrontado da miséria que o perseguia, coragem, graça nos ditos com que encobria a má-sorte, este vendedor de castanhas não desmerece em nada daquele dos versos do famoso fado acima. Santarém, nesta altura, tinha outros, envoltos no fumo das lendas, a sacudir, com mãos crestadas, firmes, calejadas, o assador de lata, perto do mercado, no largo do Seminário, nas traseiras do Liceu, um muito surdo com quem os alunos mais travessos se metiam, à falta do ilustrativo e pedagógico smartphone no recreio, apontando as castanhas «Ó mestre, quanto quer p´lo bólide? Dez tostões a dúzia». Não assim este Castanheiro do Azar, arteiro e capaz de resposta pronta, quase sempre educada e com substância. Aproximemo-nos, que a extinção já os levou, aos mais raros, com o verdelhão de peito dourado e a almotolia.

 

Estou a vê-lo. Frente à farmácia, junto à traquitana fumarenta, magro, arcaboiço curvado para a frente, desembaraçado, boné para os olhos, rodeado pelos garotos da escola que gostam de meter-se com ele, respondão e alegre. «Quantas são as pessoas da Santíssima Trindade?», pergunta, sacripanta, a testar a inteligência dos pequenos obrigados à catequese. «Não sabem? Então e esta de matemáteca. Estão a ver, acolá no rossio, aqueles quatro pardais? Se matarem um com a fisga quantos ficam?» Uma risota pegada dos miúdos a discutirem entre eles esta tabuada imprevista. Depois é o Virgílio serralheiro que chega. Encolhido com o frio, a soprar às mãos. «T´ás a aquecê-las c´o bafo da aguardente ou quê? Chega-te pra lá que ainda me arrebentas c´o carro e as castanhas, tudo p´lo ar fora ca explosão!». E o Virgílo, chapéu braguês ensebado para a nuca, a meter as manápulas enormes debaixo dos braços, num sussurro friorento «Dos pés não, mas das mãos sou um ladrão!». E o Joaquim Gordo, poeta d´improviso, grudado há décadas ali à esquina do outro lado da rua «Ainda o dizes mê ladrão? Olha p´ra ele a esconder as forquilhas debaixe das asas!» E o Virgílio, também capaz da sua trova entroviscada, em resposta bordalenga «Fui à caça matei um tordo, e dei um tiro no c… ao Jaquim Gordo!». E o poeta popular na defensiva logo «Não calha, não calha. Quem levou o tal tiro foi o Zé Batalha!», alusão ao risonho e atento lojista, à porta do estabelecimento vazio de clientes, a gozar aquele despique matinal à volta das castanhas. A seguir é o Mantó, o cinéfilo, que chega com os cartazes do próximo filme na Sociedade, que expõe ao lado da farmácia. O Castanheiro pela-se por «cinema aos copos» e não falha um «O que vai esta semana?» pergunta ao Mantó. E o cinéfilo que lhe conhece a balda «A fita do Comboio a Arder», a rir-se. «Já vi esse! – responde o das castanhas – É c´a Silvana Magana (Silvana Mangana) e o Quer-é-Copos (Gary Cooper). E assim p´lo dia fora «Olhó Castanheiro do Azar, sempre a assar!», pregão sublinhado pelo tinir da meia dúzia de patacos, nos bolsos do velho casaco que lhe chega aos artelhos, que ele sacode em reclame.

 

Vive lá em baixo prò Bairro, num tosco casebre com a mulher e um enteado, filho dela, a que chamam o Sonsinha – que ele estima como a verdadeiro filho – alcunha dada pela professora da escola masculina – que estes são tempos de poucas misturas –, uma gorda e salazarista «Quem manda? Salazar, Salazar, Salazar!» E o Sonsinha, baixo, em contraponto, misturado com o côro habitual de louvor obrigado ao Botas «O raio/ c´os parta/, a todos!». Daí a alcunha, que a mestra não gosta de enteados comunistas, ciganos e barraqueiros no tempo da feira, gente fora das leis e bons costumes. No defeso das castanhas, recorrem, o Castanheiro do Azar e a mulher, a outros expedientes para não morrerem de fome: ele, engenhoso de mãos, faz cestos com as verdascas colhidas na margem de rios e riachos; lança o tresmalho às bogas que sobem em cardumes; ou, no tempo das cheias e água barrenta, pesca com o rodilhão de minhocas, as esquivas enguias; ela, muito asseada, faz chá e mezinhas às senhoras a quem limpa a casa, também muito requisitada para endireitar a espinhela e outros achaques.

Lá iam, encanando a perna ao destino, até que o Sonsinha, repetente crónico da 3ª classe e odiado da professora, chumbou de novo. Isto, apesar do eficiente método pedagógico de reguadas a eito, aliás gerais, e nalguns casos da certeira pontaria à cabeça ou costas da eficaz cana-da- Índia da mestra «Tudo pela Nação, nada contra a Nação». Recebeu a notícia triste, o Sonsinha, a uma sexta-feira mas não disse nada em casa. No sábado seguinte à noite havia cinema na Sociedade: o «Rio Bravo» com o John Wayne, cobóiada de vir tudo abaixo. O Castanheiro do Azar e a esposa, rapando os tostões, lá estavam como quase sempre na plateia, – por azar, nesse dia, para não desdizer dos outros – atrás do Júlio Barroca que lia em voz alta as legendas à consorte analfabeta, barulheira pior que o tiroteio da tela. À saída, siderados de terror, é que descobriram todos a tragédia. Não em filme mas real. Num ramo do velho negrilho fronteiro à porta do cinema, suspenso duma corda, balançava um enforcado. Era o Sonsinha, rosto congestionado, mãos pendentes, imponderável, a balouçar lentamente com a brisa nocturna. A mãe, alertada, abeira-se do filho morto. Depois, certificando-se, irrompe em altas vozes, rosto alagado em lágrimas, mãos postas. «Ó mê rique filhe da minh´alma o que foste tu fazer?! Partiste sin a tua pobre mãe, mê rique filhe!? Mas nan vás ficar munte tempo só, filho da minh´alma, que nan tardarei a juntar-me a ti, mê pobre filhe! Rás partissem a nossa sorte nesta vida, mê desgraçado filhe da minh´alma! Aii!» O padrasto, mudo, marasmado pelo pânico contido, lágrimas em fio, vê por debaixo do cadáver o pequeno escadote que serviu para este trágico acto. Sem uma palavra pega nele, ajeita-o, sobe três degraus, tira do bolso a navalha e corta a corda, recebendo nos braços – adormecida criança – o pequeno enteado morto.

 

Depois deste triste dia, ninguém mais soube que destino levou este vendedor de castanhas e a mulher dele, nem os viram, frente à farmácia, ou fosse onde fosse, naquela terra ou noutra em torno de Santarém. Deles, restou apenas, feitos muito mais tarde por um poeta, estes versos: « Frente à farmácia, sobre o Rossio/ O branco fumo anunciava as castanhas/ Do castanheiro do azar, nome conforme/ À sua sina desde menino/ Magro, curvado, de mãos queimadas/ P´lo triste ofício e vício do cigarro/ Que nunca largava quando trabalhava/ O castanheiro, figura dostoievskiana/ Passava fome quase toda a semana/ P´ra no sábado poder ir ao cinema/ Possesso d´estranho e vivo lume/ Certa noite, à saída do cinema/ Viram pendurado numa árvore da Pena/ Já no último estertor um enforcado/ Nada menos que o pobre enteado/ Salvo p´la morte de morrer de fome/ Desde então, a soprar as brasas da desgraça/ Ninguém mais tornou a ver, frente à farmácia/ O castanheiro do azar, sempre a assar!»

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