Finalizemos hoje o artigo com o mesmo título iniciado na edição da semana anterior.

Decapitado o almirante Piri Reis por não ter derrotado as forças portuguesas e conquistado Ormuz no interior do Golfo Pérsico,  o Sultão do Império Otomano, Suliman I, o Magnífico, tido na Europa e Ásia por “Invencível”, vai substitui-lo por Murat Reis como “Almirante da frota do Oceano Índico”.

Entretanto Muharraq na ilha do Barém, vassala do reino de Ormuz, seu Senhor, agora dependente do rei de Portugal revolta-se. Contra ele vai uma expedição de ataque luso ormuziana, comandada por D. Antão de Noronha que a conquistará. O rei de Barém refugia-se em AlQatif, a Norte no litoral da costa arábica, região dele dependente. Forças portuguesas de Ormuz, comandadas por António Correia, avançam para AlQatif, destroem o forte local, terminam definitivamente com a rebelião, permanecendo por lá algum tempo. António Correia, ao comandar as forças luso-ormuzianas sobre Al Qatif, elimina a casa real de Muqrin ibn Zamil, sendo este dignatário decapitado por Raiz Xarafo, o comandante das forças ormuzianas, nada mais que a aversão violenta entre sunitas e xiitas. Quando António Correia regressa a Portugal, por tal vitória, o rei concede-lhe o brasão de armas onde é bordada a cabeça decapitada e ensanguentada do monarca árabe e o apelido de Baharem.

Procurando evitar mais revoltas e sentindo a necessidade de acompanhar os movimentos das forças otomanas na região, o capitão de armada D. Fernando Meneses vai criar uma rede de espiões com militares indianos da sua guarnição, que em barcos de pesca e disfarçados de pescadores, vão procurar saber dos planos dos otomanos na região, recolhendo informações importantes que transmitiam aos seus superiores.

Entretanto nova armada, agora de Murat Reis é localizada junto ao Estreito de Ormuz. Vão as naus de guerra portuguesas dar-lhe combate, após uma vitória portuguesa significativa, com a frota otomana sofrendo pesadas perdas e forçada a recuar na direção de Baçorá.

Após este revés, também Murat Reis se viu demitido do seu posto e condenado, sendo substituído no cargo por Seydi Ali Reis, que também tentaria uma incursão pelo Golfo Pérsico no ano seguinte. Este novo confronto com a armada portuguesa ainda comandada por D. Fernando de Meneses, em Agosto de 1554, já não acontecerá nas águas do interior do Golfo, mas no seu exterior, no Golfo de Omã, antes do Estreito de Ormuz, visando desafiar o domínio português após a reconquista de Mascate pelos portugueses, ocupada dois anos antes. Apesar de uma aparente desvantagem numérica perante a frota otomana, os portugueses conseguiram obter uma vitória decisiva após vários encontros, derrotando severamente a frota inimiga e forçando Seydi Ali Reis a abandonar os seus navios e regressar a Constantinopla por terra. Seis das suas galés refugiam-se em Surrate, Índia, feitoria frequentada pelos portugueses, onde o rajá local para evitar represálias sobre as suas naus que anualmente iam em peregrinação a Meca, preferiu não as destruir, e, com o acordo dos capitães portugueses, mandou-as serrar, cada uma em seis partes. Foi esta batalha naval uma das mais duras e longas batalhas da marinha portuguesa.

Mais um almirante otomano, desta vez Mir Ali Bei, é enviado para enfrentar os portugueses. Começa ele por atacar e saquear Mascate em 1581. Após este ataque, os portugueses retomaram a cidade e reforçaram significativamente as suas defesas, construindo as fortalezas de Al-Jalali (Forte de São João) e Al-Mirani (Forte do Almirante). Convencido de uma medonha força naval portuguesa nas águas do Golfo Pérsico, prefere Mir Ali Bei enfrentar os portugueses na costa oriental africana convencido de estar esta mais desprotegida. Mas esta costa africana consistindo essencialmente numa rede de fortalezas, feitorias e cidades-estado vassalas que garantiam aos portugueses o controlo da Rota do Cabo e do comércio no Oceano Índico, não estava desprotegida. Mir Ali Bei julgando ser fácil, cerca Mombaça em Março de 1589.  Logo depois dá conta do seu exército estar encurralado entre a frota portuguesa de Tomé de Sousa Coutinho e os ataques da tribo canibal Zimba, aliada estratégica dos portugueses. Mir Ali Bei preferiu render-se aos portugueses, declarando que “preferia ser cativo de cristãos do que servir de alimento para os bárbaros e desumanos Zimba“. Foi então como prisioneiro para Lisboa, onde se converteu ao catolicismo, com o nome de Francisco Julião, vivendo o resto dos seus dias em Portugal onde faleceu.

Entretanto na Pérsia (hoje Irão), em 1587, subira ao trono o jovem Xá Abbas I. Este vai desencadear uma série de reformas administrativas e militares e impulsionar as relações diplomáticas com a Europa de forma a granjear apoios militares e comerciais contra o Império Otomano. A Monarquia Hispânica, onde Portugal se encontrava integrado desde 1581, pois havia perdido a sua independência para a Espanha em 1580, surgiu como um dos mais importantes e potenciais aliados, passando a partir de 1599, a troca de missões diplomáticas entre Madrid e Ispahano, reino persa, a ser praticamente permanente. Porém, apesar dessa troca de diplomatas os persas não se coibiam de atacar as possessões portuguesas na costa de Omã, costa da Pérsia e no Golfo. Logo em 1608, guarnições do Xá Abbas I da Pérsia tomaram Queixome, e construíram uma fortaleza junto a Comorão. Esta acção revestiu-se de um grande perigo para Ormuz, pois as duas posições eram as principais fornecedoras de água potável à cidade. Em 20 de Fevereiro de 1622 uma armada persa com mais de 3 .000 homens e apoio naval de seis galeões ingleses, irão selar o destino da presença portuguesa em Ormuz terminando com mais de 100 anos de domínio português no Golfo Pérsico.

Mascate cidade fora das águas do Golfo Pérsico, torna-se então na maior praça portuguesa da região, sede do almirantado para o “Mar da Costa da Pérsia e Arábia”. Para aqui vieram os fugitivos de Ormuz, cerca de 2 mil pessoas. Apenas em 1650, sob o ataque de milhares de guerreiros das tribos da região chefiados por Ibn Said, Portugal irá perder Mascate e todas as outras cidades vassalas na região. Finalmente em 1656, o abandono da fortaleza de Caçapo, no Estreito de Ormuz, simbolizará o fim da presença militar portuguesa, encerrando o chamado Período Português no Golfo Pérsico.

(Bibliog.: M. Allawatti, D. Couto, R. Loureiro, J. Ferreira, A. Wilson).

 

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