A identidade de uma região não se constrói apenas com a geografia que a delimita ou com a economia que a sustenta; forja-se, acima de tudo, na preservação activa da sua memória colectiva e na dedicação daqueles que assumem a missão de transmitir esse legado às gerações vindouras. Ludgero António de Jesus Mendes é, inquestionavelmente, um desses guardiões fundamentais. 

Figura central e incontornável da etnografia, do folclore e da cultura popular de Santarém, a sua trajectória de vida confunde-se, de forma íntima e indissociável, com a própria história recente da preservação identitária do Ribatejo. A distinção que lhe foi conferida na Gala do 135.º Aniversário do Correio do Ribatejo — jornal do qual é sócio e colaborador assíduo há meio século — celebra não apenas o dirigente associativo de excepção ou o investigador rigoroso, mas o homem multifacetado que dedicou a sua existência a garantir que a alma ribatejana continua a pulsar com autenticidade no século XXI.

Nascido a 22 de Fevereiro de 1957, na freguesia de Marvila, em Santarém, Ludgero Mendes cresceu a respirar a atmosfera singular de uma cidade onde a lezíria e o bairro se encontram e onde as tradições populares sempre tiveram um eco profundo e estruturante. O seu percurso académico revela uma curiosidade intelectual vasta e incomum: frequentou o curso de Direito na Universidade de Lisboa, licenciou-se em Antropologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e prosseguiu com pós-graduação e mestrado na área de Cultura Material e Consumos. Profissionalmente, exerceu funções de gerente bancário no BPI até à reforma. Esta sólida base teórica viria a revelar-se fundamental para o rigor e a profundidade que sempre imprimiu à sua acção cultural e associativa.

A Sombra Tutelar de Celestino Graça

Para compreender a essência da intervenção pública de Ludgero Mendes, é imperativo recuar à sua juventude e à influência determinante de uma das figuras maiores da cultura ribatejana: Celestino Graça. O encontro entre o jovem Ludgero e o experiente etnógrafo marcou o início de uma relação de discipulado e de partilha de ideais que moldaria para sempre o seu destino.

“Celestino Graça foi determinante para mim. Eu comecei de calções a andar atrás dele”, recorda com a gratidão de quem reconhece a importância dos verdadeiros mestres. “Celestino Graça apercebeu-se, porque era um homem muito inteligente e perspicaz, de que eu gostava daquilo que fazia e que tinha a apetência por aprender mais.” Com apenas 14 anos, o jovem Ludgero assumiu, na prática, as funções de secretário de Celestino Graça para os assuntos do folclore, redigindo cartas, tratando de burocracias para as viagens internacionais e absorvendo, no dia a dia, os ensinamentos do mestre.

A morte de Celestino Graça, em 1975, quando Ludgero Mendes tinha apenas 18 anos, representou um choque brutal e inesperado, mas também um momento de viragem e de assunção de responsabilidades acima do que seria expectável para a sua idade. Perante a incerteza quanto ao futuro do Grupo Académico de Danças Ribatejanas, o jovem discípulo não hesitou. “Não era fácil assumir, perante pessoas mais velhas, a defesa de que o grupo devesse continuar. No entanto, eu decidi lançar mãos à obra”, recorda. A partir desse momento, assumiu a missão de garantir a continuidade, procurando aprofundar os seus conhecimentos e honrando a memória do fundador com rigor e exigência crescentes.

Meio Século ao Serviço do Grupo Académico e do Folclore Nacional

A ligação de Ludgero Mendes ao Grupo Académico de Danças Ribatejanas é um caso raro de longevidade e de amor a uma causa. Componente activo (na dança) desde 1970, assumiu funções dirigentes logo após a morte de Celestino Graça. Com excepção de um breve interregno motivado por razões familiares, a sua presença nos órgãos sociais tem sido uma constante ao longo de cinco décadas. Desde 1995, preside ininterruptamente à direcção, conduzindo os destinos de uma instituição que considera “como se fosse um filho”.

A sua acção extravasou largamente as fronteiras de Santarém. Ludgero Mendes tornou-se uma figura de proa do movimento folclórico nacional. Foi um dos membros fundadores da Federação do Folclore Português, onde presidiu ao Conselho Fiscal durante 27 anos consecutivos (1977-2004), assumindo posteriormente a vice-presidência da direcção. A sua intransigência na defesa da autenticidade etnográfica valeu-lhe o respeito dos seus pares e a atribuição, em 2019, do Colar de Mérito da Federação. A nível internacional, a sua intervenção fez-se sentir através do CIOFF (Comité International des Organizateurs de Festivals de Folklore et d’Arts Traditionelles), onde presidiu à Assembleia-Geral da secção portuguesa. Em Santarém, a sua liderança à frente da Comissão Executiva do Festival Internacional de Folclore “Celestino Graça”, desde 1995, tem garantido a projecção da cidade e a manutenção de um evento de referência à escala global.

O Cronista da Região e a Ligação ao Correio do Ribatejo

A par da intensa actividade associativa, Ludgero Mendes tem desenvolvido um notável trabalho de reflexão e de divulgação através da escrita e da comunicação social. A sua ligação ao Correio do Ribatejo é, a este título, paradigmática. Colaborador efectivo desde 1975, as suas primeiras crónicas nasceram da necessidade de relatar as digressões internacionais do Grupo Académico. Rapidamente, a sua pena alargou-se a outros horizontes, tornando-se uma voz atenta, crítica e profundamente conhecedora da realidade regional.

Sócio-gerente da sociedade detentora do título, Ludgero Mendes tem utilizado as páginas do jornal para defender o património, para evocar figuras marcantes da história local e, não raras vezes, para assumir posições de coragem. “Tenho um sentido de justiça muito grande e quando as coisas me parecem que estão a descambar para a injustiça e para a ingratidão, digamos que me agiganto e bato o pé”, confessa. A sua faceta de comunicador estendeu-se também à rádio, onde realizou e apresentou, durante décadas, programas como “Ribatejo em Pessoa” e “Ecos do Burladero”, abordando temas que vão desde a etnografia à tauromaquia, outra das suas grandes paixões.

Um Legado de Serviço Público

O currículo de Ludgero Mendes impressiona pela vastidão e pela diversidade das áreas em que deixou a sua marca ao longo de cinco décadas de serviço público. Foi vereador independente da Câmara Municipal de Santarém (2009-2013), membro da Assembleia Municipal em diversos mandatos, dirigente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, da Associação de Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural, da Santa Casa da Misericórdia, da Associação de Futebol de Santarém e de inúmeras outras instituições de referência. Foi também Comissário da Feira Nacional de Agricultura e membro da Comissão Regional de Turismo do Ribatejo. Docente da Universidade da Terceira Idade de Santarém e professor convidado em cursos de pós-graduação, a sua intervenção pedagógica prolonga o trabalho de transmissão do saber etnográfico e antropológico às novas gerações.

Hoje, ao olhar para o caminho percorrido, Ludgero Mendes mantém a lucidez que sempre o caracterizou, reconhecendo que se aproxima o tempo de passar o testemunho. “Penso que é o tempo de passar o testemunho e gostaria de o fazer numa oportunidade em que ainda me sentisse válido e activo para poder acompanhar quem me vier a substituir”, reflecte. “A maior felicidade que eu poderia ter era, estando fora dos órgãos sociais do grupo, ver que o grupo continuava com boa actividade, com saúde, com motivação. E eu cá estarei sempre para ajudar na retaguarda.”

A homenagem do Correio do Ribatejo é o corolário natural de uma vida inteira dedicada à causa pública, à cultura e à identidade ribatejana. Ludgero Mendes não é apenas um herdeiro das tradições; é um construtor activo da memória, um homem que soube honrar o passado para garantir que o Ribatejo continua a ter um futuro com raízes firmes e identidade própria.

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