O Sardoal entra hoje, sexta-feira, 18 de Setembro, em cinco dias de Festas do Concelho que culminam, no dia 22, com a celebração dos 495 anos de elevação a vila. A pretexto da efeméride, Pedro Rosa faz ao Correio do Ribatejo um balanço dos primeiros meses à frente da Câmara Municipal e traça os principais desafios de um concelho que procura fixar população, captar investimento e criar melhores condições para quem ali vive. Habitação, creche, contas municipais, parque empresarial, turismo, protecção civil e os efeitos ainda por resolver das intempéries que atingiram o território atravessam uma conversa em que o autarca admite que algumas das vias afectadas poderão continuar encerradas em 2027 e assume que não pretende deixar “uma marca física”, mas antes contribuir para melhorar a vida das pessoas.
O Sardoal celebra 495 anos de elevação a vila. Que retrato faz hoje do concelho e quais considera serem os seus maiores activos e os problemas que mais condicionam o seu desenvolvimento?
Os 495 anos são o retrato de uma história longa e dão substância à importância que o Sardoal já teve, ainda tem e pode continuar a ter no território. Diria que, neste momento, um dos nossos maiores activos é a qualidade de vida.
Sou professor de carreira e, durante 16 anos, corri o país. Com excepção dos meus dois primeiros anos de serviço, em que tive de ir para mais longe, nunca deixei de vir a casa. Há, naturalmente, a questão das raízes, mas encontrei no Sardoal o sítio certo para viver e constituir família. E creio que é isso que também encontram muitas das pessoas que nos visitam.
Apesar de sermos um território do interior, temos alguma centralidade no contexto do Médio Tejo e boas acessibilidades, que permitem às pessoas viver aqui e trabalhar nos concelhos limítrofes. Conseguimos também manter, ao longo dos anos, um conjunto de serviços que dá segurança a quem aqui vive, seja na educação, cultura ou desporto.
Uma das nossas maiores preocupações está na empregabilidade e na inexistência de grandes empresas que possam trazer outra dinâmica ao concelho. Ainda assim, os números do desemprego não são muito preocupantes. Estaremos, sensivelmente, entre os 80 e os 100 desempregados.
Quanto à população, é difícil dizer hoje exactamente quantos residentes temos. A minha expectativa é que possamos estar já na ordem dos 3800 habitantes. Também temos assistido à chegada de imigrantes e estamos a trabalhar na ampliação do parque empresarial, porque acreditamos que o Sardoal tem condições para ser atractivo para novas empresas.
As Festas do Concelho são um dos momentos de maior concentração de pessoas na vila. Quanto custa ao Município organizar estes cinco dias e que retorno consegue medir para a economia local, nomeadamente no comércio, restauração e alojamento?
Para nós, fazer estas festas custa bastante, sobretudo num contexto em que os preços aumentaram muito. Muitas vezes, as pessoas olham apenas para o cartaz principal e para o custo dos artistas, mas uma festa envolve muito mais: preparação, aquisição de materiais, licenças, vigilância, publicidade, som e toda uma estrutura que não é tão visível.
Este ano teremos cinco dias de festas, mais um do que no ano passado, também por força do feriado municipal, e aquilo que esperamos é não gastar muito mais do que gastámos na edição anterior.
Quanto ao retorno na economia local, espero naturalmente que exista. É uma oportunidade para os restaurantes terem mais movimento, para os serviços atraírem novos clientes e para as próprias associações reforçarem a sua actividade.
As associações são, aliás, um dos pilares das Festas do Sardoal. É isso que lhes dá uma característica própria. Sem o envolvimento do movimento associativo seriam festas semelhantes a muitas outras da região. Temos associações envolvidas na restauração, que permitem a quem nos visita jantar com comodidade antes dos concertos, outras que asseguram espaços de animação para os mais jovens e ainda as que colaboram nas actividades desportivas.
Quanto à afluência, não temos uma estimativa global rigorosa. Os maiores picos acontecem naturalmente nos concertos. Para o espectáculo de Paulo Gonzo, no sábado, acredito que possamos ter cerca de cinco mil pessoas na praça. É um artista com trabalho feito, que não tem actuado muito na região, e procuramos também que o nosso cartaz tenha essa diferenciação.
Foi eleito presidente da Câmara em 2025, sucedendo a Miguel Borges, também do PSD, e conhecia já profundamente o funcionamento do Município. O que mudou efectivamente no Sardoal com Pedro Rosa na presidência?
Talvez as pessoas tenham passado a conhecer um Pedro Rosa diferente daquele a que estavam habituadas. Sempre fiz parte da equipa de Miguel Borges, com quem tive uma excelente experiência, e era visto sobretudo como alguém mais ligado à parte operacional, ao fazer acontecer e a estar presente nas actividades que me diziam directamente respeito.
Agora, naturalmente, passei a assumir uma dimensão mais institucional. Ainda assim, uma das ideias que levei para a candidatura foi precisamente a proximidade e é isso que tenho procurado manter: estar próximo das pessoas e ir ao encontro das suas necessidades.
Do ponto de vista colectivo, herdámos um projecto do qual também fiz parte na sua construção, sobretudo ao nível dos grandes investimentos e dos fundos comunitários. É esse projecto que estamos agora a tentar pôr no terreno.
Não tem sido fácil. Há vários constrangimentos e muito trabalho de gabinete que não é visível. Aquilo que espero é que o próximo ano seja o ano do arranque de muitas das obras que temos previstas. Algumas estão já em curso e espero, por exemplo, que a creche municipal fique concluída até ao final deste ano ou, no limite, no início do próximo.
O PSD venceu as últimas autárquicas por uma margem relativamente curta sobre o PS. Interpretou esse resultado sobretudo como um voto de continuidade ou como uma exigência de mudança na governação do concelho?
É difícil encontrar uma explicação única para um resultado eleitoral. Ainda assim, é importante notar que tivemos um aumento relativamente à votação anterior.
Quando olho para os números e para os resultados nas freguesias, não diria que tenha havido propriamente um desgaste da governação de Miguel Borges. Talvez tenha existido algum desgaste da própria cor política ou uma vontade das pessoas de verem algo diferente.
No final, o que conta é o resultado e aquilo que os sardoalenses disseram foi que queriam continuar a contar connosco e acreditavam que o nosso projecto era o melhor. Compete-nos agora, ao longo destes quatro anos, provar que essa aposta foi bem feita e que somos merecedores de continuar.
Também houve resultados na região que contrariaram algumas expectativas. No caso do Sardoal, ouvi muitas vezes nos bastidores que o PS dava a vitória como adquirida. Creio que o trabalho que fizemos, o conhecimento que as pessoas têm de mim e essa imagem de proximidade acabaram também por ser decisivos.
Tinha já 12 anos de conhecimento da autarquia e sabia bem como a casa funcionava. Penso que isso também contribuiu para que as pessoas acreditassem que eu, juntamente com a minha equipa, poderia fazer um bom trabalho.
As estimativas mais recentes apontam para alguma recuperação da população residente desde 2021. Quem está a escolher viver no Sardoal e acredita que esta evolução pode transformar-se numa tendência duradoura?
Aquilo que esperamos é que esse crescimento continue, ainda que de forma ténue. Quando olhamos para os números da comunidade escolar e para a nossa creche, vemos sinais que nos dão alguma confiança de que existe estabilidade, com tendência para crescer.
A escola chegou, a determinada altura dos últimos 12 anos, a baixar dos 500 alunos. Nos últimos dois ou três anos voltou a subir e estamos agora perto dos 550, considerando todos os níveis de ensino até ao 12.º ano. É verdade que estes números também são influenciados pela zona norte do concelho de Abrantes, mas isso sempre aconteceu: a escola do Sardoal sempre viveu também de alunos provenientes de fora do concelho.
A imigração teve influência neste crescimento, mas não foi o único factor. O aumento do custo de vida nas grandes cidades levou também alguns filhos da terra, que tinham saído, a regressar às suas origens porque encontraram aqui condições para viver.
Ao mesmo tempo, o paradigma do trabalho mudou. Hoje é mais fácil viver num território do interior e trabalhar à distância, desde que existam condições. E aí a internet é fundamental. A maior via de comunicação que podemos ter hoje é o acesso aos dados.
Durante muitos anos, as melhores acessibilidades rodoviárias ajudaram a trazer investimento, mas também facilitaram a saída de população. Acredito que esta nova via de comunicação, através da internet, pode funcionar precisamente no sentido inverso e tornar-se uma boa estratégia de atracção de pessoas.
Num concelho de pequena dimensão, que argumentos tem hoje o Sardoal para atrair e fixar jovens, famílias e empresas, sobretudo quando concorre com municípios vizinhos de maior dimensão?
A população não está a descer e isso, por si só, já é um sinal importante. Mas o melhor argumento que o Sardoal tem é a qualidade de vida. É aí que temos de apostar.
Estamos também a trabalhar para que as oportunidades de emprego possam tornar-se um factor de atracção. No caso do parque empresarial, por exemplo, a competição com os concelhos vizinhos é difícil, porque os terrenos acabam por ter valores semelhantes. Podemos, no entanto, estudar outros instrumentos, nomeadamente benefícios fiscais para quem se instala, através do IMI ou, eventualmente, da derrama.
Mas continuo a considerar que a qualidade de vida é o nosso principal argumento. Se conseguirmos juntar a isso melhores oportunidades de emprego e melhores condições para as empresas, ficaremos naturalmente mais competitivos na capacidade de atrair e fixar população.
A habitação foi apresentada como uma das prioridades do mandato. Que resposta está o Município a conseguir dar e em que ponto está o projecto dos 16 fogos a custos acessíveis da Fonte da Estrada?
Foi feita uma intervenção em 32 fogos no bairro da Tapada da Torre, sobretudo ao nível da eficiência energética, com o objectivo de melhorar as condições de quem ali vive.
Ao mesmo tempo, estamos a avançar com 16 fogos destinados a habitação a custos acessíveis. Espero que este seja um projecto capaz de atrair famílias e que possa ser concluído rapidamente.
O processo teve várias vicissitudes ao longo dos últimos anos e isso não nos permitiu executar a obra dentro do prazo inicialmente previsto. Aquilo que esperamos é que, nos próximos dois ou três anos, o projecto esteja concluído e que possa representar uma oportunidade, sobretudo para famílias com rendimentos intermédios, que tenham capacidade para pagar uma renda ajustada aos valores do mercado.
O projecto acabou por sair do calendário do PRR, mas as garantias que nos têm sido dadas são de que o financiamento será assegurado por outra via. Espero que assim aconteça e que não surjam alterações a meio do processo.
A nova creche municipal é outra das respostas apontadas como essenciais para fixar famílias. Em que ponto está a obra e que capacidade terá o novo equipamento?
O Sardoal viu-se, a determinada altura, na necessidade de criar uma resposta de creche praticamente de um momento para o outro. Em cerca de dois meses tivemos de preparar um regulamento, criar condições para receber as crianças e contratar pessoal.
Já sabíamos que a situação não estava a correr bem, porque esta é uma valência com custos muito elevados e a Santa Casa da Misericórdia, que assegurava o serviço, vinha há alguns anos a alertar para a falta de sustentabilidade. O Município já apoiava financeiramente o funcionamento da creche, até que foi necessário encontrar uma solução directa.
Neste momento, a creche está a funcionar em instalações provisórias. O contrato da nova obra termina a 31 de Dezembro e aquilo que esperamos é que a empreitada seja entregue nessa data e que, no primeiro trimestre de 2027, possamos fazer a transição para o novo edifício.
Houve alguns atrasos, também por causa da grande pressão provocada pelas obras do PRR e das dificuldades de mão-de-obra, mas neste momento a empreitada está a decorrer dentro da normalidade.
A nova creche terá capacidade para cerca de 40 a 45 crianças. As necessidades reais são superiores e temos pessoas em lista de espera. O novo edifício não representará uma diferença muito grande em termos de capacidade instalada, mas terá salas maiores, melhores espaços e outras valências e condições administrativas que hoje não existem.
As contas municipais de 2025 fecharam com um resultado líquido negativo de cerca de meio milhão de euros, apesar de níveis elevados de execução orçamental. Como explica esse resultado e até que ponto a transferência de competências do Estado está a pressionar as finanças do Município?
Esse resultado tem também explicação nos investimentos realizados, nos pagamentos que foi necessário efectuar e em transferências que deveriam ter acontecido e não aconteceram no momento previsto. Não é, no entanto, aquilo que mais nos preocupa. A nossa preocupação principal é continuar a reduzir a dívida municipal, que tem vindo a descer gradualmente, também à medida que vão sendo encerrados empréstimos contraídos ao longo dos anos.
Sou defensor da transferência de competências para o poder local. Acredito que os municípios conseguem ser mais eficientes e mais céleres na resposta às necessidades das pessoas do que a administração central. O problema é quando as responsabilidades são transferidas sem os meios financeiros necessários para assegurar um serviço com a qualidade que entendemos ser exigível.
Na saúde, por exemplo, recebemos um edifício e uma verba destinada essencialmente à sua manutenção. Mas, se quisermos melhorar as condições existentes, substituir equipamentos antigos, melhorar a eficiência energética ou fazer intervenções mais profundas, esse investimento já não está contemplado nas transferências.
Na educação passa-se algo semelhante. O Ministério transfere-nos um rácio correspondente a 26 funcionários, além dos técnicos previstos, mas as necessidades reais são superiores. Temos de garantir pessoal para a segurança das crianças, limpeza dos edifícios, componentes de apoio à família e outras respostas.
Há ainda situações de crianças que necessitam de acompanhamento permanente. No ano passado, sinalizámos a necessidade de três funcionários adicionais para esses casos e foi-nos atribuído apenas um. Essas crianças não podem ficar sem acompanhamento e o Município tem de assegurar essa resposta.
É também por isso que temos uma estrutura com cerca de 200 trabalhadores. Além das competências transferidas na educação, temos bombeiros municipais, equipamentos culturais, biblioteca e outros serviços que precisam de funcionar diariamente. Tudo isso tem custos que nem sempre são totalmente compensados pelas transferências do Estado.
O Sardoal tem feito uma aposta continuada na cultura e no turismo religioso. Que papel atribui hoje a estas áreas na afirmação do concelho e na capacidade de atrair visitantes?
A cultura tem sido uma prioridade porque entendemos que não se confunde com entretenimento. O entretenimento é aquilo que fazemos, por exemplo, nas festas anuais, proporcionando às pessoas momentos de lazer. A cultura é outra coisa: é aquilo que provoca reacção, reflexão e que ajuda a construir o indivíduo. Nesse sentido, entendemo-la também como parte da construção da própria democracia.
Temos feito um investimento significativo no Centro Cultural Gil Vicente e procurado manter uma programação regular, porque consideramos que esse trabalho é importante para a comunidade.
Ao mesmo tempo, o turismo religioso tem sido uma aposta muito consequente. Essa dimensão resulta da própria identidade do Sardoal, da sua história, da fé e da religiosidade que fazem parte destes 495 anos. Só no núcleo da vila temos seis capelas e três igrejas, para além de todo o património religioso existente nas restantes localidades do concelho.
Percebemos desde cedo que este podia ser um activo turístico importante. O próprio Turismo de Portugal tem vindo a reconhecer o turismo religioso como um produto capaz de chegar a públicos diferenciados.
A nossa Semana Santa é hoje um exemplo claro dessa capacidade de atracção. Este ano tivemos uma participação extraordinária, nomeadamente na Procissão dos Fogaréus, onde nunca tínhamos visto tanta gente. Houve um momento em que a extensão da procissão praticamente ocupava toda a vila.
Tudo isto resulta também do envolvimento das pessoas. Os tapetes de flores, a preparação das capelas, o trabalho dos voluntários e a divulgação através da fotografia têm contribuído muito para construir esta imagem do Sardoal como uma terra que sabe receber e que gosta de receber.
A economia local foi outra das prioridades apresentadas no início do mandato. Que condições tem hoje o Sardoal para captar investimento privado e criar emprego?
Da parte da Câmara, aquilo que os investidores podem encontrar é uma porta aberta e uma via verde para os projectos que queiram instalar no Sardoal. Temos uma estrutura preparada para acompanhar esses processos, nomeadamente através do gabinete de apoio ao empresário, que pode ajudar quem pretende investir e também orientar para algumas fontes de financiamento.
No caso das pequenas e microempresas, temos já essa capacidade de acompanhamento. Para investimentos de maior dimensão, sobretudo na área industrial, precisamos rapidamente de avançar com a ampliação do parque empresarial. Só assim poderemos dizer que temos todas as condições para acolher projectos com outra escala e que possam representar uma mais-valia para o concelho.
Os contactos vão acontecendo, mas não ao ritmo que gostaríamos, precisamente porque as próprias empresas conhecem as limitações actuais. Queremos também criar um instrumento de apoio à criação de emprego e à fixação de novas empresas, que possa passar por incentivos à criação de emprego jovem e de longa duração e, eventualmente, por benefícios fiscais. Essa solução ainda não está fechada.
Em termos de modelo de desenvolvimento económico, não diria que exista neste momento um modelo totalmente definido. Temos vários objectivos em cima da mesa. Um deles é a criação de um espaço de cowork, que esperamos concretizar no próximo ano, dirigido a pessoas e empresas que necessitem de um posto de trabalho sem terem de suportar os encargos de uma estrutura física própria.
Acreditamos que o Sardoal, pela qualidade de vida e pela posição geográfica, tem condições para atrair empresas. Mas a ampliação da zona industrial é decisiva. Estamos já a trabalhar nesse processo, em paralelo com a alteração do PDM, e a preparar a aquisição dos terrenos necessários à expansão.
Neste momento, praticamente todos os espaços industriais existentes estão ocupados. O nosso objectivo é criar capacidade para receber novos investimentos e, ao mesmo tempo, garantir que essas empresas geram emprego e deixam também benefícios no concelho.
Depois dos estragos provocados pelas intempéries que atingiram o concelho, qual é a situação das estradas afectadas e está o Sardoal preparado para enfrentar um novo Inverno com episódios meteorológicos extremos?
Ainda não curámos essas feridas. Estamos neste momento em fase de projecto para a EN358-3 e para a antiga Nacional 2. A ligação entre Abrantes e Vila de Rei também sofreu uma derrocada provocada pelas intempéries, mas essa intervenção é da responsabilidade da Infraestruturas de Portugal e penso que já estará em andamento.
No que depende directamente do Município, continuamos na fase de projecto para as duas derrocadas e temo que não consigamos ter essas vias abertas no próximo ano. Entre concluir os projectos, lançar as empreitadas, encontrar empresas disponíveis e executar trabalhos que, tecnicamente, não são simples, os prazos tornam-se muito exigentes.
Estamos preparados para enfrentar Invernos normais, dentro daquilo para que a nossa estrutura pluvial está dimensionada. Para episódios desta dimensão, imprevisíveis, tenho de reconhecer que nunca estamos totalmente preparados.
Tenho defendido junto da Agência Portuguesa do Ambiente que o Estado precisa de encontrar uma solução que permita aos municípios intervir de forma mais eficaz nas linhas de água, seja através de transferência de competências, seja através de candidaturas específicas. Não podemos continuar a ter linhas de água abandonadas e tomadas por vegetação espontânea, porque quando ocorrem episódios de precipitação muito intensa essa situação agrava os prejuízos.
Grande parte dos danos que tivemos resultou precisamente desse problema. Houve também prejuízos em propriedades privadas que dificilmente serão recuperados, porque os apoios disponibilizados pelo Estado se destinaram sobretudo às habitações permanentes.
O Estado respondeu com alguma rapidez no apoio inicial ao Município e recebemos uma primeira transferência que permitiu suportar a tesouraria e começar alguns trabalhos. Temos até ao final de Outubro para apresentar candidatura ao Fundo de Emergência Municipal. A dúvida que tenho é se esse fundo será suficiente para responder à dimensão das duas grandes obras que ainda temos pela frente.
Num território com forte componente florestal, considera que o Sardoal está hoje melhor preparado para responder aos incêndios e outras situações de emergência?
Acho que hoje temos um conjunto de meios muito mais preparado, quer ao nível da prevenção, quer da vigilância e da capacidade de resposta.
Temos mais capacidade para intervir nas primeiras horas e a estrutura do Comando Sub-regional está também mais afinada, o que permite mobilizar os meios com maior rapidez. Isso é decisivo num incêndio, porque quanto mais cedo se intervém, maior é a possibilidade de o controlar ainda numa fase inicial.
A vigilância também melhorou. As estruturas de Protecção Civil, as forças de segurança e até os próprios cidadãos estão hoje mais despertos para este risco. O Sardoal sempre viveu, durante o Verão, com a ameaça dos incêndios, mas penso que o trabalho desenvolvido pelos bombeiros municipais, sapadores florestais, GNR e restantes estruturas tem contribuído para reduzir o número de ignições e para responder mais depressa quando elas acontecem.
Este ano tivemos também o projecto de voluntariado jovem para a natureza e florestas, em que jovens foram colocados em pontos estratégicos do concelho para apoiar a vigilância, desenvolver acções de sensibilização e colaborar noutras tarefas de prevenção.
Diria que, em termos de eficácia e disponibilidade no terreno, a estrutura de Protecção Civil nunca esteve tão preparada.
Tivemos recentemente um incêndio às portas do concelho, que afectou Abrantes e Mação e que poderia ter atingido o Sardoal. Em menos de uma hora, todos os meios disponíveis do Comando Sub-regional estavam colocados no terreno e foi possível ter o incêndio controlado nas primeiras 12 horas.
Daqui a cinco anos, em 2031, o Sardoal celebra 500 anos de elevação a vila. Que marca gostaria de poder apresentar nessa altura como resultado da sua governação?
Acho que um autarca tem de ambicionar aquilo que qualquer pessoa espera de quem assume estas funções: aumentar a população, atrair mais empresas, criar melhores condições para quem escolhe viver no Sardoal e também para quem nos visita.
Mas não tenho a ambição de deixar uma marca física. Já o disse várias vezes. A única marca que gostaria de deixar depois de passar por estas funções é ter conseguido gerar alguma mudança positiva na vida das pessoas.
Pode ser através do emprego, da qualidade de vida ou de um envelhecimento mais saudável e activo. É evidente que todos gostamos de fazer obra e de criar melhores equipamentos, mas isso só faz sentido se, no final, se traduzir em melhores condições para as pessoas.
Não basta termos um centro cultural com determinada dimensão, uma escola nova ou uma nova creche se esses investimentos não produzirem qualidade de vida. As duas coisas têm de andar ligadas.
A minha ambição é essa: que, no final deste mandato — e, se tiver oportunidade, de um próximo —, possa sentir que contribuí para melhorar a vida das pessoas no Sardoal.



