Na numerologia tradicional, o número seis está fortemente associado a temas que podem ser relacionados com crianças e jovens. O seis é visto como um número da família, da proteção e do cuidado, do amor e da educação. Embora nada tenha de científico, este simbolismo diz-nos que poderá não ser por acaso que o mês das crianças é o sexto mês do calendário gregoriano.
Apesar destas associações simbólicas, a realidade está a transformar frases como “Grande é a poesia, a bondade e as danças, mas o melhor do mundo são as crianças.”, de Fernando Pessoa, em meros bordões linguísticos que se dizem, papagueando, sem uma relação objetiva entre o que se diz e o que verdadeiramente se faz para educar, proteger e cuidar das crianças. Esta é uma tarefa permanentemente inacabada, dado que há, cada vez mais, crianças de olhos tristes. Assim sendo, no mês de junho dedicarei, sempre, os meus escritos às crianças e aos jovens. Enquanto houver uma criança infeliz, manifestarei a minha indignação e apresentarei soluções, de acordo com aquilo que são as minhas ideias.
E todos nunca seremos demais porque, em vez de flores, nas últimas primaveras, floresceram a negligência parental e a violência doméstica que propiciaram uma subida exponencial dos comportamentos de perigo dos jovens. Ainda por cima, estamos numa conjuntura em que as estruturas que mais devem contribuir para a sua educação e proteção – famílias, escolas e comissões de proteção de crianças e jovens – passam por momentos bem difíceis. O dinheiro é pouco para as armas.
Este é o momento de a escola fomentar a capacidade de os jovens questionarem o “status quo” e de pensarem pela sua própria cabeça e não pela cabeça dos outros. Mas, para que isso aconteça, na minha opinião, muitas coisas têm de mudar.
Permito-me recuperar uma memória de escola do século passado, quando fui coordenador do primeiro projeto educativo da Escola de Mem Ramires, a que demos o nome de “Mem Ramires, uma escola feliz.” Foi este o nome que eu, o António Carmo e o nosso saudoso João Cotrim lhe demos, em 1996. Sim, o primeiro, porque dantes as escolas não estavam afogadas em papéis e burocracias, os alunos aprendiam e os professores ainda podiam ensinar, com tempo para preparar bem as aulas e tudo.
Lembro-me de que o nome foi escolhido de acordo com aquilo que era a nossa filosofia de educação cujo princípio maior era que as crianças pudessem ser felizes na escola e lhes criássemos condições para isso. A felicidade também se conquista. O Carlos Gomes ajudava muito e idealizava um primeiro dia de aulas de sonho e de magia para que pudéssemos arrancar sorrisos daquelas carinhas ainda receosas pelo contacto com o desconhecido: uma nova escola. Tínhamos, ainda, outra ideia-chave: promover a educação pela arte, valorizando a estética e a beleza das coisas e dos espaços. E nada era deixado ao acaso. As auxiliares de ação educativa cuidavam dos jardins interiores e dos canteiros com flores que plantávamos e que davam um colorido especial; minimizavam o horror e a frieza do betão. O Luís Carlos cuidava de tudo, fazendo uma manutenção exemplar. Os professores tinham uma ação diária consubstanciada em trabalho de projeto, indo ao encontro das apetências dos alunos, potenciando as capacidades que cada criança tinha. E todos têm capacidades. Todos! E nós ajudávamo-los a encontrar as suas.
Durante o ano letivo, preparávamos e apresentávamos espetáculos. Abríamos a escola à comunidade, não só para informar os pais da avaliação dos filhos, mas para que eles vissem os filhos a brilhar, brilhando-lhes os olhos. E era vê-los nas festas do final de ano letivo a exibir os seus dons. Nunca convidávamos nenhum artista de fora, tal era a profusão de artistas-meninos que se transformavam, de facto, em artistas maiores. Nasceram, na Escola de Mem Ramires, cantores, músicos, fadistas, desenhadores, pintores, escritores, porque lidavam, desde muito novos, com o lado bonito da vida. E durante uma semana, no final de ano letivo, a escola era forrada de beleza com dezenas de exposições. Quem lida com o belo, embeleza-se e embeleza a vida, a sua e a dos outros. Depois, lançávamo-los para o mundo, quais exploradores, criativos, críticos, empreendedores.
A escola pode, e deve, ser o arauto da Educação pela Arte, em que o enfoque esteja no processo e não nos resultados, dinamizando trabalhos de projeto, de acordo com as apetências das crianças. A construção artística é uma construção de liberdade. A arte propõe novas formas de fazer e de ver a realidade à margem dos discursos dominantes; ajuda-nos a fugir das convenções, a sentir, a compreender e a viver de forma diferente. Ajuda a formar cidadãos que se preocupam com os outros, a respeitar as ideias alheias e a desenvolver competências de colaboração e participação democrática. O trabalho artístico e os projetos coletivos exigem diálogo, negociação, escuta ativa e construção conjunta. Estas experiências ajudam os jovens a compreender o valor da participação cívica e da responsabilidade partilhada na construção de comunidades mais justas e inclusivas. A Educação pela Arte não forma apenas artistas; forma cidadãos mais empáticos, criativos, autónomos e participativos, capazes de interpretar criticamente o mundo e de contribuir para a sua transformação.
Não é disto que precisamos?!
A imagem que ilustra este meu escrito é o resultado de um trabalho de projeto e que embeleza a minha Escola E.B.2,3/S de José Relvas, em Alpiarça. A inauguração, no último dia de aulas, foi espetacular. Houve declamação de poemas, cantigas, lágrimas de alegria e palmas para todos os que participaram. A partir de hoje, haverá mais sorrisos perante a beleza deste mural. E beleza traz beleza, paz e tranquilidade.
Há pouco tempo, houve, também, outra iniciativa bastante interessante: desenharam-se, nos pátios exteriores, jogos tradicionais, a fim de que as crianças possam brincar livremente, despegando-se do jugo das telas e dos écrans.
São iniciativas que se saúdam.
As crianças agradecem, hoje.
O país agradecerá mais tarde, porque o que se passa na infância, não fica na infância, como diria o meu amigo juiz, Paulo Guerra.
