João Oliveira e Sousa não precisou de descobrir a Misericórdia de Salvaterra de Magos quando chegou à provedoria. Já a conhecia desde criança. Vivia mesmo em frente à igreja, tinha acesso à chave e entrava no templo para brincar, num tempo em que o edifício estava degradado e as escadas eram suficientemente perigosas para hoje se admirar de por ali ter andado. A ligação vinha de casa: do avô, que associa à reconstrução da igreja, e de uma família onde a preservação da história local caminhava lado a lado com a obrigação de ajudar quem mais precisava. Médico veterinário, hoje com 77 anos, assumiu em 2017 a liderança da Santa Casa.
Nove anos depois, deixa para trás uma instituição que procurou reorganizar, uma pandemia atravessada com dezenas de idosos à responsabilidade e uma igreja recuperada onde voltou a encontrar pinturas que conhecia apenas das memórias de infância. Mas recusa fazer dessa obra um monumento pessoal: “Nunca encarei isto como um trabalho meu, mas como um trabalho da comunidade.”
Antes de saber o que significava ser provedor, João Oliveira e Sousa já conhecia por dentro a Igreja da Misericórdia de Salvaterra de Magos. A casa onde cresceu ficava mesmo em frente ao templo e, em criança, aquele espaço fazia parte do seu quotidiano. “Cresci aqui à volta. Posso dizer que cresci na Igreja da Misericórdia”, recorda.
Havia uma chave e, ainda miúdo, entrava no edifício para brincar, numa altura em que a igreja apresentava já sinais de degradação. Hoje reconhece o risco de algumas dessas incursões infantis, sobretudo pelas condições das escadas. O lugar que viria a marcar a sua vida institucional começou, portanto, por ser um território de infância, familiar antes de ser solene.
A relação com a Misericórdia tinha raízes familiares mais profundas. João Oliveira e Sousa associa ao avô um papel importante na reconstrução da igreja e recorda ter crescido num ambiente em que a preservação da história local, a valorização de Salvaterra de Magos e a ligação à Santa Casa faziam parte da educação familiar. A dimensão patrimonial nunca esteve, porém, desligada da missão social. “O meu avô e o meu pai ensinaram-me a ajudar os mais desfavorecidos”, resume.
Na memória ficaram também as pinturas do tecto, associadas às Obras de Misericórdia. A imagem permaneceu durante décadas e acabaria por adquirir um significado inesperado muito mais tarde, quando assumiu responsabilidades directas na instituição.
“A Misericórdia era um assunto que eu não deixava fugir”
A ligação formal à Santa Casa começou cedo. Nascido em 1948, João Oliveira e Sousa diz ser irmão da Misericórdia desde criança, embora já não consiga precisar a data exacta. A instituição acompanhou-o ao longo da vida, mesmo depois de adulto e já com a actividade profissional consolidada como médico veterinário.
“A Misericórdia era um assunto que eu não deixava fugir”, afirma. A entrada na administração da Santa Casa surgiu por convite de D. Manuel Pelino, então bispo de Santarém. Aceitou praticamente de imediato, mas rejeita a ideia de ter encarado a função com ligeireza. “Não é uma responsabilidade que se assuma de ânimo leve”, sustenta, explicando que à gestão administrativa se juntava a responsabilidade pela imagem da instituição e, sobretudo, pela sua missão junto das pessoas mais vulneráveis.
Assumiu a provedoria em 2017. Ficaria no cargo durante nove anos.
Nove anos para mudar uma relação
Os primeiros tempos foram marcados pela necessidade de reorganizar a casa. João Oliveira e Sousa diz ter encontrado fragilidades na organização administrativa e contabilística e uma relação com a comunidade que considerava necessário alterar. Na sua leitura, estava demasiado enraizada a ideia de que a Misericórdia existia apenas para responder às necessidades dos outros.
O desafio passava por manter intacta a missão social, mas recuperar também a noção de que a instituição precisava do envolvimento da própria comunidade. “Temos de dar à Misericórdia e temos de dar aos outros. Não podemos estar permanentemente à espera que a Misericórdia trate de nós”, afirma.
Esse foi, diz, um dos rumos que procurou imprimir à provedoria: fazer com que a Santa Casa fosse entendida não apenas como uma estrutura a que se recorre nos momentos de necessidade, mas como uma instituição que pertence à própria terra e cuja continuidade depende também das pessoas que a rodeiam.
Nove anos depois, evita fazer um balanço triunfalista, mas considera que a instituição ficou mais preparada para seguir o seu caminho. “Penso que a Misericórdia tem agora pés para andar.”
A pandemia e a prioridade aos mais velhos
A convicção foi posta à prova quando a pandemia trouxe às instituições sociais um dos períodos mais exigentes das últimas décadas. A Santa Casa da Misericórdia de Salvaterra de Magos teve de adaptar rotinas, reforçar cuidados e gerir uma pressão acrescida sobre uma resposta residencial com dezenas de idosos.
João Oliveira e Sousa recorda o sacrifício dos trabalhadores, os contactos constantes com os serviços de saúde e a preocupação em garantir respostas sem agravar uma situação financeira que nunca permitiu grandes folgas. Segundo relata, houve vários residentes doentes, mas a instituição conseguiu limitar a propagação da doença graças ao esforço dos funcionários e à articulação com as autoridades de saúde.
A prioridade, diz, foi definida desde o início de forma simples: “Em primeiro lugar, os velhotes.” A expressão, usada de forma coloquial e afectiva, resume a preocupação central de uma gestão que, naquele contexto, tinha de proteger uma população particularmente vulnerável.
O peso da responsabilidade prolongava-se para lá das horas passadas na instituição. A família sentiu parte do tempo que a provedoria lhe retirou, embora sem transformar essa dedicação numa fonte de conflito. O espírito da Misericórdia, diz, acabou também por entrar em casa: os filhos são irmãos da instituição e a ligação familiar à Santa Casa manteve-se.
À procura de uma memória de infância
É, porém, dentro da Igreja da Misericórdia que a passagem de João Oliveira e Sousa pela provedoria encontra o seu episódio mais simbólico. Quando assumiu responsabilidades na instituição, sabia que algumas das pinturas que em tempos preencheram o tecto tinham sido retiradas e guardadas, muito degradadas, numa garagem do lar. Mas estava convencido de que existiam outras peças espalhadas ou esquecidas noutros espaços.
Essa convicção não resultava de um inventário ou de um documento. Resultava de uma memória. João Oliveira e Sousa lembrava-se de, em criança, ter visto uma pintura de onde saía uma haste de madeira. Não sabia exactamente o que representava nem onde poderia estar. Sabia apenas que a imagem existira.
E começou a procurar.
A busca terminou atrás de um armário. Foi aí que encontrou a bandeira da Misericórdia, precisamente a peça que correspondia à memória antiga. Estava muito suja, mas não destruída. Ao retirar outros objectos que se encontravam no mesmo espaço, surgiram novas telas, algumas num estado de conservação tão precário que o antigo provedor ainda hoje se admira com a possibilidade de terem sido recuperadas.
Seguiu-se um trabalho de estudo e interpretação, com apoio especializado, que permitiu perceber melhor o conjunto encontrado e a sua relação com a história da igreja. Algumas das pinturas do tecto tinham sido numeradas quando foram retiradas, facilitando a reconstrução da disposição original. Outras exigiram investigação, comparação e prudência.
Quando lhe perguntam qual foi o momento mais emocionante de todo esse processo, não escolhe a conclusão da obra. “A descoberta e perceber o que era”, responde.
Debaixo da purpurina apareceram as cores
O restauro viria a revelar que o património da igreja escondia mais do que aquilo que era visível à primeira vista. João Oliveira e Sousa recorda que uma intervenção anterior deixara grande parte da decoração coberta com purpurina, criando um dourado uniforme que o tempo tinha degradado. À medida que os trabalhos de conservação avançaram e essa camada começou a ser removida, apareceram as cores originais.
“Começaram a surgir os azuis, os verdes, os amarelos e os dourados. Mas dourados verdadeiros”, recorda.
A intervenção permitiu igualmente voltar a ler outros elementos do templo. João Oliveira e Sousa refere uma inscrição de 1777 associada ao púlpito, os painéis de azulejos, imagens religiosas e outros vestígios que ajudaram a reconstruir diferentes momentos da história do edifício. O restauro acabou por funcionar também como um processo de descoberta gradual da própria igreja que julgava conhecer desde criança.
Uma obra feita de portas abertas
Desde o início, João Oliveira e Sousa quis que a população pudesse acompanhar os trabalhos. A decisão de manter a obra aberta ao olhar de quem entrava na igreja tinha também uma preocupação de transparência. O antigo provedor recorda que, no passado, tinham desaparecido peças e paramentos do templo e receava que uma intervenção prolongada, feita longe dos olhos da comunidade, alimentasse rumores sobre o destino das obras retiradas para restauro.
“Quando as coisas são escondidas, começam a imaginar-se coisas”, explica.
Preferiu, por isso, que as pessoas vissem o processo. O restauro prolongou-se por cerca de três anos e, segundo João Oliveira e Sousa, a impaciência inicial foi dando lugar à curiosidade e ao entusiasmo à medida que as cores e os detalhes originais começaram a reaparecer.
“As pessoas começaram a apreciar uma coisa que é delas”, afirma.
Quando a intervenção terminou, a emoção foi difícil de traduzir. “Não sou capaz de descrever. Foi emocionante durante todo o tempo”, recorda.
“Eu sozinho não era capaz”
Apesar de ter conduzido o processo enquanto provedor, João Oliveira e Sousa rejeita qualquer leitura personalista da recuperação da igreja. Prefere falar numa obra feita por muitas mãos e apoiada por diferentes entidades.
Recorda o papel de D. Manuel Pelino, que considera decisivo para impedir que o edifício perdesse a sua função e identidade, e destaca também o apoio de D. José Traquina. Junta-lhes a Câmara Municipal, a Diocese, os serviços da administração central ligados ao património, o Fundo Rainha D. Leonor e os técnicos que acompanharam os trabalhos.
“Nunca encarei isto como um trabalho meu, mas como um trabalho da comunidade”, afirma. A lógica, explica, passou sempre por juntar competências e vontades em torno do mesmo objectivo. “Eu sozinho não era capaz.”
Essa forma de trabalhar é também a explicação que encontra para o envolvimento crescente da população. Ao abrir a igreja durante o restauro, ao procurar apoios fora da instituição e ao evitar transformar o projecto numa iniciativa fechada da Mesa Administrativa, acredita ter contribuído para aproximar novamente a Misericórdia da vila.
O legado que não se vê nas paredes
Quando lhe perguntam que Misericórdia recebeu e que Misericórdia entregou, João Oliveira e Sousa não começa pelas contas, pelas pinturas ou pelas intervenções físicas. Fala primeiro da relação das pessoas com a instituição.
“Espero ter mudado um bocadinho a mentalidade das pessoas em relação à Misericórdia”, afirma.
Diz que hoje encontra pessoas dispostas a oferecer bens e a colaborar com a Santa Casa, algo que considera menos frequente quando chegou. Recorda até uma expressão antiga, usada quando alguma coisa corria mal — “mas tu julgas que isto é a Santa Casa?” — para explicar a imagem de uma instituição vista sobretudo como quem tinha a obrigação de dar.
Foi essa lógica que procurou contrariar. A Misericórdia, defende, deve continuar a apoiar quem precisa, mas também necessita de ser reconhecida como parte da comunidade e sustentada por ela. Para João Oliveira e Sousa, é nessa mudança de pertença que se encontra uma das marcas mais importantes dos nove anos de mandato.
“Ficou muita coisa por fazer”
O balanço não é apresentado como uma obra terminada. “Ficou muita coisa por fazer”, admite.
Entre as prioridades que ficaram por concretizar aponta melhores condições para os utentes do lar, um equipamento que refere ter cerca de quatro décadas. Diz ter procurado recorrer a diferentes concursos e fontes de financiamento, mas encontrou obstáculos relacionados, entre outros aspectos, com a documentação necessária às candidaturas.
João Oliveira e Sousa associa algumas dessas dificuldades à situação administrativa que encontrou quando assumiu funções, mas considera que o trabalho entretanto desenvolvido deixou melhores condições para quem agora dirige a Santa Casa. “As pessoas que lá estão agora são extremamente competentes e entusiasmadas. E isso é que é preciso”, afirma.
Não fala, por isso, do fim do mandato como um ponto final. Prefere a ideia de continuidade.
Trazer a população para dentro
Há uma frase que João Oliveira e Sousa diz ter repetido ao longo da provedoria: “Temos de trazer a população para aqui.”
Podia ser apenas uma referência à necessidade de dinamizar a instituição, organizar almoços ou promover actividades. No seu percurso, porém, a frase ganha outro significado.
Em criança, atravessava a rua e entrava na Igreja da Misericórdia porque tinha acesso à chave. Décadas depois, já provedor, decidiu que a recuperação desse mesmo edifício devia ser feita de portas abertas para que a população acompanhasse cada etapa.
Entre uma imagem e outra passaram muitos anos, um percurso profissional e nove anos à frente da Santa Casa. A ideia permaneceu próxima da mesma: a Misericórdia não pode ser um lugar fechado sobre si próprio.
“Não pode ser uma coisa fechada, onde ninguém sabe o que se passa”, resume.
Talvez seja aí, mais do que nas paredes recuperadas ou nas pinturas reencontradas, que João Oliveira e Sousa situe a herança da sua passagem pela instituição: numa igreja novamente aberta, numa Santa Casa mais presente na vida da terra e numa comunidade que, espera, voltou a olhar para a Misericórdia como uma coisa sua.
Filipe Mendes

