Nasceu em Pernes, corria o ano de 1943. No Relógio, a parte alta, importante e inicial da Vila, quase em frente da pequenina Capela de Santo António, que data de 1585. Naquela noite de 12 de Junho, que é especialmente dedicada ao popular santo.
Do Relógio, a luz do nascimento, para a Ribeira, da raiz ao sonho.
Com seus pais, vem viver a infância e adolescência para a Ribeira de Pernes, junto ao Alviela, que o marcou de forma indelével para toda a vida. Por dois motivos:
Pela descoberta do rio, a piscina natural das crianças e adolescentes da terra, onde se aprendia a nadar, se apanhava peixe e se descobria a vida, entre o Alviela, a Fonte da Ribeira, e as aventuras nas Lapas do Saldanha e nas Tufeiras do Cabeço do Livramento;
Porque a Ribeira era o mundo do trabalho e da criação de riqueza, dos moinhos, das fábricas e dos lagares de azeite, e ali nas margens do rio estava instalada a Central Hidroeléctrica do Alviela, uma chave que lhe abriu as portas para o sonho.
Seu pai, Guilherme Batista Paradiz, mais conhecida pelo “Guilherme da Luz”, era o homem forte da Central Hidroeléctrica do Alviela, que, desde 1913, devido ao aproveitamento das águas do rio, fornecia a electricidade à Vila. Era ele o responsável pelo seu funcionamento e pela reparação de todos os problemas que surgiam na rede eléctrica, que estava instalada em Pernes.
Foi esta a verdadeira escola de José Guilherme Cacifo Paradiz. Ao lado de seu pai, a meter o nariz em todos os fios e engrenagens.
Foi neste caldo de cultura ambiental e técnica que cresceu e foi criado. Os valores da natureza, os valores do trabalho, os valores da criatividade, da procura e da descoberta. E as perguntas permanentes: Porquê? Eu tenho que saber porquê! E como? Como é que isto se faz? Como é que isto funciona? Tinha dentro de si, uma procura natural, uma sede, uma ânsia, uma espécie de segunda pele.
Na Escola Primária, que fez com meu irmão Rodolfo, era um bom aluno, inteligente. Mas, a Professora batia-lhe muito por ele ser esquerdino. Não queria que ele escrevesse com a mão esquerda.
Isso marcou-o, sem dúvida. Dizia que tinha uma caligrafia feia pela violência da mestra e da sua menina dos cinco olhos. Se inquieto era, mais inquieto ficou.
Começou a trabalhar cedo, em algumas oficinas da terra. Mas, logo deu o salto para Santarém. Empregou-se na Electro Dinâmica, para onde ia de motorizada, outras vezes, à boleia, com o meu tio Manuel Flor, com Arnaldo Gonçalves Santos ou com José Gonçalves Leal, era quem estivesse mais à mão.
Nas horas vagas, o bichinho da rádio começava a trabalhar e sucediam-se as experiências, com caixas de fósforo, com latas, com gira-discos de madeira, tinha que dar som, tinha que fazer ligações de fios, para tudo funcionar. Com o João António Sequeira, outro “engenhocas” da mesma idade, lá conseguiram os primeiros sinais e foi feita a ligação ao Cabeço do Livramento. Outras vezes, a partir de 1952, no Mouchão Parque, com os discos pedidos para as meninas apaixonadas da época. A experiência, que se iniciou em termos artesanais, manteve-se e desenvolveu-se com a argúcia, a inteligência e persistência, a paixão de José Guilherme Paradiz. Assim, surgiu a Rádio Paradiz!
Num estudo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, pode ler-se:
“A Rádio Paradiz, uma emissora pirata, foi uma experiência que se manteve um ano, entre 1959 e 1960, e antecipa assim em 18 anos o início da existência de emissoras locais piratas em Portugal”.
Depois, veio a fase das galenas, fazia-as, montava-as e vendi-as. De descoberta em descoberta, de experiência em experiência, foi avisado de que estava a ser perseguido e tenta fugir da caça ao homem. A PIDE não gostava de inovação, nem de experimentalismos, o regime odiava e tinha medo da arte e da cultura, e, pelos vistos, também da técnica. Acaba por se oferecer para as Tropas Paraquedistas. Tem 18 anos e a cabeça cheia de sonhos por cumprir, na comunicação e na rádio, que se lhe infiltrou no sangue.
Em 1961, a guerra começa em Angola. Foi mobilizado, como Paraquedista, com a especialidade de Rádio Telegrafista, tinha que ser, estava-lhe na massa do sangue. Parte para uma comissão de serviço militar, sem saber para onde ia. Só na escala em São Tomé e Príncipe teve conhecimento do destino que o esperava, Angola.
A comissão foi muito dura. A guerra progredia no norte de Angola, e os Paraquedistas eram lançados por toda essa vasta área norte, da Pedra Verde, dos Dembos, da célebre Estrada do Café, do Úcua a Carmona ou até Santa Cruz. Constantemente requisitado, o radiotelegrafista Paradiz não faltava a uma. As comunicações eram essenciais e ele conseguia ultrapassar muitos problemas de interferências e avarias. Os ataques e demais situações de alto risco sucediam-se no tempo e no espaço. Paradiz era o conhecedor que desenrascava tudo e todos, tornou-se conhecido e respeitado. Pediam-lhe cada vez mais. A morte sempre à espreita era tratada por tu, pelo que socorreu muitos feridos e viu muitos mortos. Criou uma amizade para toda a vida com o Paraquedista Picoto, de Santarém, conhecido pelo Tokalon, seu companheiro de guerra e de aventuras.
A sua casa, no regresso das operações, era a Fortaleza de São Miguel, com uma panorâmica que se espraiava por toda a Marginal e a baía de Luanda.
Na guerra é assim, diz-se que a sorte protege os audazes.
Só que a sorte dá muito trabalho! José Guilherme Paradiz foi audaz, muito apto e conhecedor e escapou. Deu saltos de paraquedas, viveu mil e uma aventuras, algumas de cortar a respiração.
Mas Angola roubou-lhe o coração. E a rádio tinha encontro marcado com ele, estava à sua espera. Que desafio!
Passada a comissão de serviço militar, já na vida civil, decidiu ficar em Angola.
Em Luanda, estavam muitos conterrâneos de Pernes, pelo que o convívio com pernenses era intenso.
Foi na Emissora Católica de Angola, com estúdios em Luanda, que José Guilherme Paradiz fez carreira como técnico de som. O processo da infância e adolescência começava a dar frutos maduros, a escola da vida ensinara-lhe o caminho. Ganhou amigos, os melhores profissionais da Rádio de Angola (Alice Cruz, Rui Romano, Emílio Rangel, Ausenda Maria, Carlos Brandão Lucas, entre muitos outros) e ganhou muito prestígio. Trabalhava, mas divertia-se e esse lado acentuava-se com as novas experiências de um jovem, curtido pela guerra e que granjeava sucessos. Com o seu espírito irrequieto estava como peixe na água. Movimentava-se, agora, no mundo da comunicação social e no meio artístico, onde tinha nome e prestígio.
Entre muitos amores de juventude, conhece finalmente Maria do Carmo, a escolha certa para sua companheira de toda uma vida.
Angola já tinha pouco a ensinar-lhe, a inquietação queria mais, queria alargar horizontes. E com Maria do Carmo parte para a outra costa, com destino a Moçambique.
A Rádio continua a ser uma das suas grandes paixões de sempre, pelo que, profissional experimentado ingressa na Rádio Clube de Moçambique, com sede em Lourenço Marques. Uma prestigiada estação emissora, que estava instalada bem no centro da cidade, num icónico Palácio que data do final dos anos 40.
Ele, que já era cidadão do mundo, logo encontrou gente de Pernes, a sua terra de origem, com quem continuou a manter contactos.
A sua vida em Moçambique foi multifacetada. Além da Rádio, fez mil e uma outras coisas. Era destemido e ousado, arriscava. Fazer, experimentar, construir, os seus grandes objectivos.
Em Moçambique, nasceram ao casal, Maria do Carmo e José Guilherme, dois filhos, Pedro e Luís, que vieram a herdar a paixão pela Rádio, fizeram caminho a seu lado e de quem muito se orgulhava.
Em 1974, com o 25 de Abril, José Guilherme Paradiz começa a pensar em regressar às origens com a sua família. E assim aconteceu. Chegou no mês de Junho desse mesmo ano.
Em Portugal, ingressa na Rádio Renascença, com a sua especialidade de técnico de som. E nessa área, ninguém o batia! Mas, José Guilherme Paradiz quer mais! Muito mais!
Vem para Pernes e monta o seu comércio de venda de electrodomésticos e de reparações dos mesmos.
Mas, a criatividade ia fazendo o seu caminho. E assim inventa a Televisão, com emissões regulares, após o encerramento das emissões da RTP. Era dado um sinal! O auditório já sabia que a seguir a emissão do Zé Guilherme ia para o ar. Quando vinha a Pernes, a minha mãe avisava-me: o José Guilherme já deu o sinal, a emissão começa dentro de momentos.
Daí para a televisão a cores foi um salto. A 1ª televisão a cores, em Portugal!
O jornalista Pedro Rolo Duarte vem a Pernes informar-se do que se passava e entrevista-o. As informações correm céleres. Estava dado o alarme!
José Guilherme Paradiz queria afirmar-se e afrontar o monopólio da RTP, e cria um emissor de televisão em Pernes. Não contente com essa inovação, persegue a televisão a cores e consegue instalá-la e transmiti-la.
A sua loja de electrodomésticos é o centro de tudo, o mundo criativo e inventivo de Paradiz passa por ali, onde acolhe colaboradores e amigos, e prepara as suas emissões. Muitos nomes desse período febril poderia apontar, refiro apenas dois: João Pedro das Virtudes e Fernando Alberto Santos Soares.
Se já tinha nascido um Senhor Rádio, que o futuro haveria de consolidar, nascia assim o Senhor Televisão. Um pioneiro, um criativo, um idealista, que sabia fazer!
Um dia, contava, estava na Escola de Pernes C+S de Pernes a transmitir a festa de fim de ano, quando o espaço é invadido por agentes da autoridade e todo o material é apreendido. Teve um processo, que correu seus trâmites, com o risco de condenação pesada. Acabou por ser ilibado de toda a culpa.
Mas a aventura era para continuar. A sua inteligência criativa não parava. O sonho da sua vida, por onde começara e que o acompanhara como amador e profissional tinha que ser concretizado.
Porque a Rádio não pede licença para entrar em casa, José Guilherme Paradiz cria a sua Rádio Pernes, que passa a ser a menina dos seus olhos. Foi o pioneiro das emissões piratas em FM, frequência modulada, só depois é que apareceram a Rádio Antena Livre de Abrantes e mais algumas. Era o movimento das rádios piratas, que inicia e acompanha, sob os olhares vigilantes das entidades oficiais.
Em 1 de Maio de 1980, que ficou como a data de aniversário da Rádio Pernes, transmite uma festa no Largo do Rossio, coração de Pernes, e inicia emissões regulares. Continua a transmitir, com um alargado leque de audiências cada vez maior, até 1988, momento em que tem que parar por um ano, para poder ter acesso ao processo de legalização.
Em 1990, a Rádio Pernes, agora legalizada, estava de novo no ar e ganha cada vez um maior auditório. Era um fenómeno de comunicação social, ouvido em todo o lado.
A Rádio Pernes passa a ser uma marca distintiva.
O nome de Pernes destaca-se e é levado mais longe, sempre mais longe! A Rádio passa a ter dois estúdios, um em Pernes, outro em Santarém.
Muitos e muitos jovens profissionais iniciaram-se, cresceram, afirmaram-se e fizeram carreira, na Rádio Pernes. Não esquecem o trato simples e directo, a experiência e os conhecimentos transmitidos pelo Chefe.
Sou o seu colaborador mais antigo, com transmissões da sala de jantar da sua casa. O amigo José Guilherme Paradiz convidou-me para trabalhar na Rádio Pernes. Foi uma excelente experiência que me deixou gratas recordações. Estava em família:
Maria do Carmo, José Guilherme, Pedro e Dora, Luís e Bela! E tantos outros amigos e colegas! Citar é omitir, pelo que deixo apenas, aqui, os nomes dos que já partiram, e são saudade: Germano Pacheco, Aurelina Duarte e António Manuel.
O desfile de personalidades que passaram pela Rádio Pernes quer, no Festival Nacional de Gastronomia, onde estava em permanência, quer nos estúdios em directo, daria outro extenso artigo. Era a região, o mundo da política, das artes e das letras, do desporto, da vida social e associativa. A Rádio Pernes para mim foi uma escola.
Para além das notícias de hora a hora, quase sempre com directos, assinei com plena liberdade dois programas de autor: “Conversas ao fim da manhã” e “O Regresso das Conversas”. À Dora e ao Pedro agradeço a colaboração.
A história da Rádio Pernes continua por fazer, alguns anos após o seu desaparecimento. Foi um sucesso comunicacional que se apagou quase sem deixar rasto.
Foi uma perda. Fez-se sentir a sua falta.
Há uma história para contar! Há documentos sem conta, um verdadeiro arquivo, que precisa de ser analisado, estudado, conhecido.
Uma nota final e um novo mergulho nas suas raízes.
José Guilherme Paradiz foi também um ecologista, e deve ser lembrado também por isso. Acompanhou o célebre “Diabo”, de seu nome completo, Joaquim Jorge Duarte, ao hemiciclo da Assembleia da República, para fazer entrega aos Senhores Deputados de garrafões de água poluída do Alviela. Bem podia o Sr. Presidente da Mesa gritar, “há intrusos na sala”, que a distribuição continuava, até serem efectivamente expulsos.
De referir, ainda, que a antena da Rádio Pernes esteve sempre aberta e à disposição de autarcas e populações para denunciarem na hora os atentados que o querido Rio Alviela sofria no dia-a-dia. Na década de 90, quando estive como Presidente da Junta de Freguesia de Pernes, numa fase muito aguda da luta, era presença constante e quase diária aos microfones da Rádio Pernes.
Um serviço público mais prestado à comunidade, que todos temos que reconhecer.
Em 2011, a Junta de Freguesia de Pernes decide homenagear José Guilherme Paradiz e propõe à Câmara Municipal de Santarém a atribuição do seu nome à rua da sua Rádio Pernes.
Em 2012, o Rotary Club de Santarém homenageou José Guilherme Paradiz, atribuindo-lhe o “Prémio Carreira”, reconhecendo uma carreira que tem levado o nome de Santarém além das fronteiras do concelho e do distrito.
Em 2024, a Junta e Assembleia de Freguesia de Pernes prestaram-lhe nova Homenagem, com a entrega da Medalha de Mérito, a mais alta condecoração da Freguesia, na Sessão Solene do 50º aniversário do “25 de Abril”.
Confesso que estou a escrever estas linhas de recordação, história e saudade, e tudo isto me parece um sonho próximo e distante. José Guilherme Paradiz partiu, sem se despedir. Partiu serenamente, com o abraço do seu filho Pedro, quase como quem pede desculpa à vida por ter existido.
Ele que tinha vivido à frente do seu tempo!
Fica o seu exemplo criativo e inconformista, a obra que construiu e faz parte da história, é já um mito!
Obrigado, amigo José Guilherme Paradiz!
Ficarás no coração de todos nós como o eterno Senhor Rádio e Senhor Televisão!
Vicente Batalha
