Pelas Malhas do Aantigo Império na costa do Golfo de Bengala: Dianga e Sundiva

Sabia que … um português foi rei em Sundiva (Sundwip), e que com um exército composto por mais de mil portugueses assumiu-se como um pirata temido que aterrorizava o Golfo de Bengala, e a quem os reinos de menor poder militar, ofereciam tributo e obediência? E que … centenas de comerciantes portugueses foram massacrados em Dianga?

Se o Golfo de Bengala foi palco onde se destacaram alguns capitães portugueses, como João Coelho ou D. João Silveira, entre outros, foi também, como vimos anteriormente, uma região onde muitos portugueses deixaram marcas bem duradouras na memória colectiva das suas gentes e pela negativa. Entre vários destaco Damião Bernaldes, Sancho Pires (artilheiro que como mouro tomou o nome de Tringui Kan) e Gonçalves Tibau.

Toda a região de Rakhine (costa oriental) e áreas envolventes foram (e ainda são, veja-se o caso da minoria Rohingya) fonte de discórdia entre raças diversas e até de pequenos reinos com destaque para alguns do território de Myanmar (Birmânia) ou Sião (Tailândia), estes mais na área de Chiang Mai, pelo que as guerras entre muçulmanos, budistas birmaneses e siameses perduraram ao longo de décadas e, nesses conflitos foi comum haver portugueses (os ringis, já referidos), lutando contra outros portugueses defendendo reinos opostos.

A vida de Sundiva como ilha portuguesa inicia em 1590 quando António de Souza Coutinho derrota Min Nala o novo líder de Arracão (Rakhine) e captura o forte de Chitagão, fazendo de Sundiva tributária.

A situação da Ilha, que se mantinha algo confusa, porque reclamada pelos mogóis, só se esclarece quando Domingos Carvalho a traz para um total controle dos portugueses em 1602, com a ajuda de Manuel de Matos liderando quatrocentos portugueses de Dianga, em território de Arracão, provavelmente o território onde se concentrava o maior número de piratas portugueses. Vencedores, cada um destes dois governou metade da ilha, submetendo este como território do Estado da Índia, o que lhes valeu serem agraciados pelo rei de Portugal como cavaleiros da Ordem de Cristo. Porém esta conquista não foi duradoira, pois os ataques continuaram e até incluíram destruições de igrejas dos jesuítas e tortura de missionários, culminando com a morte de Domingos Carvalho em 1603, o que pôs m à primeira fase da liderança portuguesa de Sundiva.

Ao tempo eram já cerca de 2 500 portugueses e eurasianos, os bayingys, vivendo nessa zona quer como piratas, bandidos ou mercenários, todos eles aventureiros deslumbrados com as riquezas e mordomias que os seus roubos, saques e raptos lhes permitiam. Referimo-nos já a um deles, a Filipe de Brito e Nicote, que se apoderara de Sirião, que faria capital do seu Reino de Pegu (Bago).

Este pretendeu em 1607 apossar-se de Dianga, território do reino de Arracão (Rakine), a quem traíra e onde se concentrava o maior número de renegados portugueses, procurando não só trazê-los de volta ao controle do Estado da Índia mas também incluir o Golfo de Bengala na zona de expansão do Império Português.

Na sequência da traição quando proclamou o seu reino, o rei de Arracão fez massacrar centenas de portugueses que comerciavam em Dianga, entre os quais o próprio filho de Filipe de Brito e Nicote. Desta matança escapou um pequeno número entre os quais Sebastião Gonçalves Tibau, comerciante de sal. Este, em 1608, liderando um punhado de portugueses que haviam escapado ao massacre de Dianga e com quem cometia actos de pirataria, enfrenta e vence a armada do Senhor de Sundiva, um muçulmano soberbo e cruel para os cristãos, de seu nome Fatecão. Assim vem a tornar-se rei da ilha. Iniciava aqui a segunda fase de Sundiva portuguesa.

Durante o seu reinado reconquistaram-se fortalezas e fizeram-se alianças com os reinos vizinhos. Portugal não reconheceu esta nova Sundiva portuguesa, pois por detrás de todo este prestígio, Tibau era um pirata temido que fazia negócios suspeitos e aterrorizava o Golfo de Bengala, agora com um exército composto por mais de mil portugueses, e a quem os reinos de menor poder militar, ofereciam tributo e obediência.

O seu fim deu-se quando traiu o Reino budista de Arracão com quem se aliara e tomou o partido do muçulmano Império Mogol. O rei de Arracão, ao ver muitos dos seus territórios destruídos pelos seus inimigos e seu suposto aliado, ataca os portugueses com o apoio de navios holandeses e outros reinos que tinham sido afetados pelo terror português. A armada de Tibau, embora contando com reforços que o Vice-Rei D. Jerónimo de Azevedo enviara, a troco de um tributo anual de um galeão carregado de arroz, acaba por ser derrotado pelo novo rei de Arracão Min Khamon em 1616, que invade e toma posse de Sundiva. Durara apenas treze anos a autoridade portuguesa.

(Genevieve Bouchon, Luis Filipe omaz, João de Barros, Sanjay Subranyam, Diogo do Couto, Rila Mukherjee. Por decisão pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico).

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