O vereador socialista Pedro Ribeiro defende que a Câmara de Santarém deve intervir, enquanto accionista do CNEMA, perante a realização de um evento de Gustavo Santos marcado para 10 de Outubro naquele parque de exposições. O presidente da autarquia, João Teixeira Leite, rejeita qualquer intervenção e considera que impedir a iniciativa representaria uma forma de censura.
A polémica surgiu na reunião do executivo municipal de segunda-feira, 24 de Agosto, a propósito do evento “Acorda Portugal”, promovido pelo Movimento Acorda, fundado por Gustavo Santos, e agendado para o CNEMA, em Santarém.
Segundo a informação divulgada pelo próprio movimento, a iniciativa realiza-se a 10 de Outubro, entre as 10h00 e as 19h00, com entrada gratuita. O Movimento Acorda apresenta-se como uma organização “humanitária, apartidária, não religiosa e sem fins lucrativos”, orientada para temas relacionados com consciência, saúde, amor-próprio e desenvolvimento pessoal.
Pedro Ribeiro levou o assunto à reunião de Câmara por considerar que Gustavo Santos tem divulgado posições na área da saúde sem sustentação científica, nomeadamente sobre vacinação, tratamentos oncológicos e outras matérias médicas.
O vereador socialista distinguiu o caso de um espectáculo artístico ou de entretenimento, defendendo que está em causa a utilização de um espaço ligado a uma entidade participada pelo município para acolher aquilo que considera ser divulgação de desinformação.
“Podem fazer as coisas onde entenderem”, afirmou Pedro Ribeiro, defendendo, contudo, que “não faz sentido que uma entidade pública e credível contribua para promover a desinformação na ciência”.
Entre os exemplos invocados pelo vereador estiveram posições públicas de Gustavo Santos sobre vacinas e tratamentos contra o cancro. O assunto tem suscitado polémica nacional. O Polígrafo considerou falsa a associação entre a vacinação contra a Covid-19 e o AVC sofrido por Nuno Markl, depois de Gustavo Santos ter publicado conteúdos sugerindo que o humorista deveria questionar a relação entre a vacina e o problema de saúde.
Mais recentemente, declarações de Gustavo Santos sobre tratamentos oncológicos, incluindo críticas à quimioterapia, voltaram a gerar reacções públicas e contestação de profissionais e figuras ligadas à área da saúde.
João Teixeira Leite rejeitou, porém, que a Câmara deva procurar impedir a realização do evento. O presidente do município considerou que uma intervenção dessa natureza constituiria uma forma de censura prévia e comparou essa lógica a práticas de regimes sem liberdade de expressão.
O autarca sustentou ainda que o CNEMA tem órgãos próprios de administração e que não compete à Câmara interferir na sua gestão corrente ou decidir que eventos podem ou não realizar-se naquele espaço.
“As pessoas são livres de poderem ir ou não a determinados espaços”, afirmou João Leite, defendendo que cabe aos cidadãos escolher se pretendem participar na iniciativa.
Pedro Ribeiro insistiu que a questão não se prende com discordância política ou ideológica relativamente a Gustavo Santos, mas com aquilo que considera ser a divulgação de informação falsa em matérias de saúde pública.
O evento “Acorda Portugal” mantém-se anunciado para 10 de Outubro no CNEMA, em Santarém.
