A Banda da Bica, projecto musical da APPACDM de Santarém, lançou o primeiro álbum de originais. “Três Minutos de Atenção” reúne temas criados desde 2022 e gravados em estúdio no final de 2025, num trabalho que envolve oito elementos e que conta com a participação dos utentes no processo criativo. João Correia, músico, e Elisabete Patrício, coordenadora do Projecto de Inclusão pela Cultura, explicam como nasceu o disco, o que muda quando a banda sobe a palco e por que razão “três minutos de atenção” podem ser mais do que um título.

A Banda da Bica lançou o primeiro álbum de originais, Três Minutos de Atenção. Em que momento perceberam que o trabalho desenvolvido na APPACDM de Santarém já tinha consistência para chegar a disco?

A Banda da Bica nasceu em 2022 e logo no seguinte concorremos com um tema original ao Festival Nacional da Canção para Pessoas com Deficiência Intelectual, na Lousã. Com o tempo, as canções surgiram de forma natural, sem pretensões de vir a gravar um disco. Entretanto fomos compondo mais temas até chegarmos à conclusão que devíamos editar este nosso trabalho. Ensaiamos tudo direitinho e fomos para estúdio no final de 2025.

O título do álbum pede, desde logo, escuta. Que ideia está por trás de Três Minutos de Atenção?

Três Minutos de Atenção nasce da ideia de que, hoje em dia, a atenção se tornou um dos bens mais raros. Vivemos depressa, distraídos e divididos entre inúmeras solicitações. O álbum é um convite a parar por um instante e a escutar. Três minutos podem parecer pouco, mas, quando são de atenção genuína, podem significar muito.

Como se constrói uma canção na Banda da Bica? Quem escreve, quem propõe ideias e como se chega ao resultado final?

Todos os que fazem parte do grupo têm um propósito dentro da Banda da Bica. A maioria dos temas foram compostos por mim, João Correia e pela Elisabete Patrício, no entanto a Teresa Jorge, uma das utentes da APPACDM também compôs a letra de uma das músicas, “Nova Mulher”. Todas as opiniões são válidas dentro deste grupo. No total somos 8 membros, a Catarina, o Fábio, o Rogério, o Alexandre, o Rui, a Carina, eu e a Elisabete, mas todos contribuímos com algo, seja na hora do ensaio, da composição ou até da própria gravação. A melhor maneira de ter uma noção de tudo isto passa por nos ouvirem nas plataformas digitais, ou adquirirem o nosso CD. Estamos em todo o lado!

Que papel têm os utentes da APPACDM neste projecto: são intérpretes, autores, criadores, ou tudo isso ao mesmo tempo?

Embora os utentes da APPACDM assumam principalmente o papel de intérpretes, procuramos que sejam também participantes activos em todo o processo criativo. As suas opiniões, ideias e experiências são escutadas e valorizadas, contribuindo para a construção artística das músicas, de forma a conseguirmos um resultado artístico honesto. Enquanto criadores de arte, é importante que sintamos as músicas como nossas. Desta forma conseguimos um resultado final mais puro.

A banda tem feito concertos em vários locais e prepara uma pequena digressão de Verão. O que muda quando este trabalho sai da sala de ensaios e encontra o público?

Ficamos muito entusiasmados. Gostamos de ensaiar e de estar juntos a preparar as músicas, no entanto tudo isto só faz sentido a partir do momento que vem cá para fora. A Banda da Bica vive para os concertos. Temos imensas pessoas que nos seguem para todo o lado e isso deixa-nos muito felizes. Onde quer que toquemos acabamos por fazer novos fãs. Somos muito agradecidos!

O João tem um percurso ligado à guitarra clássica, à guitarra portuguesa e a projectos de música portuguesa em Santarém. O que é que a Banda da Bica lhe trouxe enquanto músico?

A Elisabete tem uma frase que encaixa aqui perfeitamente: “Tudo muda quando a APPACDM entra na nossa vida”. Trabalhar com a banda levou-me a questionar preconceitos sobre o que é ser músico, sobre quem pode criar e sobre a própria natureza do acto artístico. A Banda da Bica contribui imenso para a minha aprendizagem enquanto músico, mas sobretudo enquanto pessoa. Aquilo que eles me ensinam diariamente não se aprende na escola, mas devia! 

 

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