O Programa da Imagem e da Palavra da Azinhaga (PIPA) está à procura de nova sede, depois de a Câmara da Golegã não ter renovado o acordo que permitia a utilização de uma antiga escola primária, segundo a associação.
Em declarações à agência Lusa, a diretora da associação, Ana Matos, reconheceu que “a Câmara exerceu um direito que lhe assiste” ao não renovar o acordo que permitia à associação usar a antiga escola primária da Azinhaga, mas admitiu que recebeu a decisão “com surpresa”.
Segundo Ana Matos, não houve qualquer contacto prévio ou tentativa de diálogo por parte da autarquia, mesmo que informal, nem foram apresentadas alternativas para a continuidade do projeto num território pequeno, “onde todos se conhecem”.
Segundo a responsável, a comunicação foi feita por carta e por correio eletrónico, “sem avançar soluções” que permitissem manter o projeto cultural, que estava há cinco anos na antiga escola.
Contactado pela Lusa, o presidente da Câmara Municipal da Golegã, António Camilo, explicou que a decisão de não renovar o protocolo com o PIPA se insere numa estratégia mais ampla “de gestão do espaço da antiga escola primária da Azinhaga”, sublinhando que o edifício tem dimensão suficiente para acolher várias associações.
Segundo o autarca, existem atualmente “outras coletividades da freguesia sem sede própria, nomeadamente associações de âmbito cultural e desportivo, o que levou o município a reavaliar a forma de utilização do espaço”, de modo a permitir uma partilha mais alargada.
O presidente adiantou ainda que a não renovação do protocolo cumpriu os prazos legais e não implica, por si só, a saída imediata do PIPA, podendo a associação continuar a utilizar o local enquanto decorre o processo de articulação com outras entidades interessadas.
A diretora do PIPA indicou que esta decisão teve impacto imediato na programação prevista para 2026, que terá agora de ser reagendada, uma vez que a associação se viu obrigada a retirar os equipamentos e materiais das instalações, num prazo de dois meses.
“Estamos neste momento a trabalhar para encontrar uma nova sede que nos permita, pelo menos, acolher a biblioteca do PIPA”, explicou, referindo-se ao acervo de cerca de 400 livros de arte reunidos ao longo dos últimos anos e disponibilizados gratuitamente ao público.
De acordo com Ana Matos, a nova sede terá de permitir a realização de oficinas e o funcionamento regular da associação, sendo que, no curto prazo, algumas atividades, como exposições e sessões de cinema, poderão recorrer a espaços alternativos.
Apesar da saída da antiga escola primária, a responsável garantiu que o projeto vai continuar.
“O PIPA vai continuar. Vamos reajustar datas, mas vamos continuar”, afirmou, sublinhando que a cultura “é também um lugar de resistência”.
Para 2026, o PIPA tem previstas duas residências artísticas, uma das quais a partir de uma obra de Patrícia Reis sobre Maria Teresa Horta, bem como uma residência internacional intitulada “Ecology of Flowers”, além de oficinas temáticas, apresentações de livros, exposições, sessões de cinema e o festival de curtas-metragens que habitualmente decorre no verão.
“O nosso compromisso com a comunidade mantém-se”, disse Ana Matos, acrescentando que o projeto continuará a trabalhar em torno “dos eixos da imagem e da palavra”, inspirados na herança cultural da Azinhaga, terra natal do escritor José Saramago.
Entre as iniciativas desenvolvidas ao longo dos últimos anos, Ana Matos destacou oficinas artísticas e literárias, sessões de cinema comentadas, apresentações de livros e exposições de fotografia, algumas das quais permitiram à população local contactar “com práticas artísticas pouco habituais no contexto da aldeia”.
“Todas estas atividades foram sempre pensadas para os públicos e de acesso gratuito”, sublinhou a diretora, salientando o contributo do projeto para a promoção cultural num território marcado por uma forte “herança literária e artística”.
A responsável destacou também projetos de proximidade com a comunidade, referindo, como exemplo, uma iniciativa realizada em parceria com a Santa Casa da Misericórdia, que envolveu crianças da aldeia num acampamento noturno no espaço do PIPA.
“É o tipo de experiência que temos a convicção de que essas crianças nunca mais irão esquecer”, afirmou.
O PIPA promoveu ainda concertos, palestras e ações de formação, incluindo encontros com professores, no âmbito da educação para a leitura e para as artes, bem como a participação em festivais literários da região do Alentejo e Ribatejo.
Segundo Ana Matos, ao longo deste período foi também constituída uma biblioteca de arte com cerca de 400 livros, disponibilizada gratuitamente, reforçando “o papel do projeto como espaço de acesso à cultura e ao conhecimento”.
A associação, fundada em 2021, funciona com base num modelo associativo, contando com o envolvimento de voluntários e parceiros locais.
“É um projeto feito pelas pessoas e para as pessoas”, referiu.
