Um projecto empresarial de origem chinesa, ligado à Global Industry Innovation Alliance (GIIA), pretende instalar no Ribatejo uma plataforma de investimento e desenvolvimento industrial com projecção internacional, tendo Santarém como base operacional. A iniciativa, liderada por Paulo Marques, engenheiro com carreira internacional nas áreas da consultoria estratégica e tecnologia, prevê investimentos que poderão atingir cerca de mil milhões de euros ao longo dos próximos cinco anos, envolvendo sectores como a construção modular, a energia e a instalação de unidades industriais destinadas a abastecer o mercado europeu. A partir da região, o objectivo passa por criar um hub de inovação e produção industrial capaz de atrair empresas tecnológicas e industriais de grande dimensão, funcionando simultaneamente como plataforma de ligação a mercados como Espanha, França, África e América do Sul.
Como surgiu a oportunidade de captar para Portugal este investimento promovido por um conjunto de grandes empresas chinesas e qual foi o seu papel nesse processo?
A origem deste projecto está numa plataforma criada na China que reúne algumas das maiores empresas mundiais em diferentes sectores industriais e tecnológicos. Essa estrutura chama-se Global Industry Innovation Alliance (GIIA) e tem como objectivo promover inovação industrial e expansão internacional, permitindo que empresas de grande dimensão desenvolvam projectos fora da China, sobretudo em áreas tecnológicas avançadas e em soluções ligadas à sustentabilidade.
A estratégia desta aliança passa por criar bases operacionais fora da China que permitam desenvolver projectos em diferentes regiões do mundo. Inicialmente foram analisadas várias hipóteses na Europa, incluindo contactos com países como Alemanha, França ou Espanha. No entanto, o processo acabou por convergir para Portugal.
Acabei por me envolver nesse processo porque ao longo da minha carreira tive sempre uma forte ligação ao contexto internacional, trabalhando muitos anos em áreas de estratégia e desenvolvimento de negócios em multinacionais. Depois de regressar à região, surgiu a oportunidade de ajudar a estruturar a instalação desta plataforma na Europa.
Um dos factores que pesou na decisão foi também a localização da nossa região. O Ribatejo tem uma posição muito interessante do ponto de vista logístico: está relativamente próximo de portos marítimos, tem acesso facilitado a aeroportos e boas ligações rodoviárias, nomeadamente ao eixo que liga Portugal a Espanha.
Existe ainda um elemento de confiança histórica entre Portugal e a China que não deve ser ignorado. Ao longo das últimas décadas, vários investimentos chineses instalaram-se em Portugal, em sectores como a energia ou a banca, o que demonstra que existe um ambiente de cooperação entre os dois países.
Neste momento a estrutura já está formalmente constituída e operacional e a ideia é que funcione como um hub internacional de investimento e inovação instalado na região de Santarém, a partir do qual possamos acompanhar o mercado europeu, mas também estabelecer ligações com outros mercados, como África ou a América do Sul.
Que empresas concretamente integram este projecto e que áreas de actividade representam dentro da estrutura que está a ser criada?
A Global Industry Innovation Alliance reúne um conjunto muito vasto de empresas chinesas de grande dimensão que actuam em diversos sectores industriais e tecnológicos. Mais do que falar de uma ou duas empresas específicas, estamos perante uma plataforma que congrega organizações líderes em várias áreas da economia.
Existem empresas associadas que são referências mundiais em sectores como a produção de baterias, a indústria automóvel, a energia ou as tecnologias industriais avançadas. O funcionamento da plataforma passa precisamente por identificar, em cada momento, quais são as áreas prioritárias de desenvolvimento e mobilizar dentro desta rede empresarial as empresas mais adequadas para cada projecto.
No caso português, nesta fase inicial identificámos algumas áreas onde existe um potencial particularmente interessante. Uma delas é a construção modular industrializada, que permite acelerar significativamente os processos de construção e responder a necessidades urgentes de habitação.
Portugal enfrenta um défice importante no mercado habitacional e estima-se que sejam necessárias cerca de 70 mil novas habitações por ano para responder às necessidades existentes. A tecnologia que estas empresas dominam permite desenvolver soluções de construção com elevada qualidade técnica e com tempos de execução bastante mais curtos do que os métodos tradicionais.
Não estamos a falar de soluções básicas, mas de estruturas altamente sofisticadas, com ligas metálicas avançadas, vidros triplos, elevados níveis de eficiência energética e capacidade para responder a exigentes normas de segurança, incluindo testes sísmicos e resistência a condições meteorológicas extremas.
Outra área de interesse é o desenvolvimento de parques industriais que permitam instalar unidades produtivas destinadas a abastecer o mercado europeu. Muitas das empresas que fazem parte desta aliança são essencialmente empresas industriais e procuram localizações estratégicas fora da China para desenvolver produção destinada à exportação.
Há também uma área muito relevante ligada à energia e às tecnologias associadas à transição energética, onde a China tem vindo a desenvolver soluções bastante avançadas, nomeadamente no domínio dos sistemas de produção e armazenamento de energia.
A lógica do projecto é criar uma plataforma a partir da qual possamos lançar projectos piloto, testar soluções tecnológicas e, caso se revelem bem-sucedidas, expandi-las para outros mercados.
Referiu que a sede desta estrutura ficará instalada em Santarém. O que pesou na escolha da cidade e da região do Ribatejo para acolher este projecto?
A escolha do Ribatejo resulta de uma combinação de factores. Por um lado, há a localização estratégica da região, que permite uma ligação relativamente fácil a diferentes infra-estruturas logísticas e mercados europeus.
Por outro lado, existe também a convicção de que esta região tem condições para acolher projectos industriais e tecnológicos de grande dimensão e que pode desempenhar um papel mais relevante na captação de investimento internacional.
Durante muitos anos, muitos dos grandes investimentos que chegaram a Portugal acabaram por se concentrar noutras regiões do país. A ambição aqui é demonstrar que o Ribatejo pode também assumir um papel central nesse processo.
A ideia é que a base operacional desta plataforma fique instalada na região, permitindo desenvolver a partir daqui projectos industriais com capacidade para abastecer diferentes mercados.
Hoje, com as cadeias logísticas internacionais e com a capacidade de transporte existente, uma unidade industrial bem dimensionada pode produzir num território e distribuir os seus produtos para vários países. A nossa visão passa precisamente por criar no Ribatejo um pólo industrial capaz de produzir para o mercado europeu e, ao mesmo tempo, estabelecer ligações com outros espaços económicos.
Que projectos concretos estão previstos nesta fase inicial?
Nesta fase estamos a trabalhar sobretudo em três linhas principais: construção modular, desenvolvimento de parques industriais e projectos ligados à energia.
Na área da construção modular estamos a preparar a instalação de três casas de demonstração em diferentes pontos do país, que permitirão apresentar esta tecnologia e demonstrar as suas vantagens em termos de rapidez e eficiência.
Estamos também a estudar projectos ligados à revitalização urbana e à requalificação de determinados espaços urbanos, sempre respeitando a identidade arquitectónica das cidades.
Outra vertente importante passa pelo desenvolvimento de parques industriais capazes de acolher empresas que pretendam instalar unidades produtivas destinadas ao mercado europeu.
Paralelamente estamos a analisar projectos na área da energia e também a estudar a criação de um centro de demonstração tecnológica, uma espécie de espaço expositivo onde possam ser apresentados diferentes tipos de soluções industriais e tecnológicas associadas às empresas que fazem parte desta plataforma.
Esse centro funcionaria como uma montra tecnológica aberta a investidores e empresas interessadas em conhecer estas soluções.
Falou numa dimensão significativa de investimento. De que valores estamos a falar?
Nesta fase inicial trabalhamos com uma previsão indicativa de investimentos que poderão atingir cerca de mil milhões de euros ao longo de um período de cinco anos.
Naturalmente que estamos ainda numa fase inicial e a evolução desse valor dependerá do sucesso dos primeiros projectos. À medida que as iniciativas forem demonstrando viabilidade e começarem a produzir resultados, é natural que outras empresas associadas a esta rede empresarial possam também manifestar interesse em instalar unidades produtivas em Portugal.
O objectivo é lançar as bases para um ciclo de investimento industrial e tecnológico com projecção internacional.
Que impacto poderá este projecto ter para a região do Ribatejo?
O impacto poderá ser significativo, sobretudo se conseguirmos atrair unidades industriais tecnologicamente avançadas. Quando uma empresa industrial se instala num território cria-se normalmente um efeito multiplicador importante, porque surgem fornecedores, serviços associados e novas oportunidades de emprego.
Aquilo que nos interessa particularmente é trazer para a região actividade industrial com forte componente tecnológica, que envolva engenharia, inovação e mão-de-obra qualificada.
Esse tipo de investimento contribui para aumentar a produtividade e para dinamizar o tecido económico regional.
Qual é, em síntese, a visão estratégica que está associada a este projecto e que papel poderá desempenhar o Ribatejo enquanto plataforma de ligação entre investimento internacional e desenvolvimento regional?
A visão estratégica que está na base deste projecto é relativamente clara: criar no Ribatejo uma plataforma capaz de articular investimento internacional, inovação tecnológica e desenvolvimento industrial, funcionando como um ponto de ligação entre diferentes mercados.
Durante muitos anos, fomos assistindo ao anúncio de grandes investimentos que acabavam por se concretizar noutras regiões do país. Muitas vezes surgiam projectos relevantes em zonas como Sines, Braga ou noutras áreas com forte dinâmica económica, enquanto o Ribatejo, apesar do seu potencial, ficava frequentemente à margem desses processos. Costumava até brincar, dizendo que parecia que todos os “meteoritos” de investimento caíam sempre noutros territórios e nunca aqui.
O facto de conseguirmos trazer para a região um projecto com esta dimensão já representa, por si só, um passo importante. A ideia é precisamente demonstrar que o Ribatejo tem condições para acolher investimentos industriais e tecnológicos de grande escala e que pode assumir um papel mais central na economia nacional.
Aquilo que estamos a procurar fazer é convencer as empresas que integram esta aliança de que a região pode funcionar como uma base sólida para o desenvolvimento das suas operações internacionais. Em vez de dispersar investimentos por vários pontos da Europa, é possível concentrar unidades produtivas num território com boas condições logísticas e, a partir daí, abastecer diferentes mercados.
Hoje, com as cadeias logísticas globais e com as infra-estruturas de transporte existentes, uma unidade industrial bem dimensionada pode produzir num determinado território e distribuir os seus produtos para vários países. Nesse sentido, não faz necessariamente sentido replicar fábricas idênticas em múltiplas localizações se for possível centralizar a produção num ponto estratégico.
A nossa visão passa precisamente por isso: desenvolver no Ribatejo um pólo industrial capaz de produzir para o mercado europeu e, ao mesmo tempo, estabelecer ligações com outros espaços económicos. A partir daqui é possível olhar para mercados como Espanha, França ou outros países europeus, mas também para regiões como África ou a América do Sul.
Aliás, uma das vantagens deste projecto é precisamente o facto de existir já um interesse significativo de várias empresas que fazem parte desta rede empresarial. À medida que o projecto avança e começa a demonstrar resultados concretos, é natural que outras empresas se sintam motivadas a participar ou a instalar unidades produtivas associadas.
Naturalmente que, no futuro, poderão surgir iniciativas noutros pontos do país. Isso dependerá da evolução dos projectos e das oportunidades que se apresentarem. Mas a ideia inicial é que o centro de gravidade desta plataforma fique localizado na região do Ribatejo.
Se conseguirmos consolidar essa base, então estaremos a criar algo que pode ter uma relevância muito grande a médio e longo prazo: um território que funciona como porta de entrada de investimento industrial internacional e como ponto de partida para a expansão de actividades económicas para diferentes mercados globais.
No fundo, aquilo que procuramos é transformar o Ribatejo num espaço onde investimento, tecnologia e capacidade industrial se encontram, gerando desenvolvimento económico e novas oportunidades para a região.
Onde está actualmente instalada a estrutura que está a desenvolver este projecto?
Neste momento a estrutura está provisoriamente instalada na Startup Santarém, que nos permitiu criar rapidamente uma base operacional na região.
Trata-se de uma solução temporária. À medida que os projectos forem avançando e que surjam novas infra-estruturas associadas à plataforma, a ideia é transferir a sede para um espaço mais adequado à dimensão do projecto.
O que é importante garantir é que a base desta plataforma continuará localizada no Ribatejo, porque é precisamente a partir daqui que queremos desenvolver esta iniciativa com projecção internacional.
Pode falar um pouco do seu percurso profissional e de que forma essa experiência internacional acabou por conduzir a este projecto?
O meu percurso profissional começou na área da engenharia. Frequentei o curso de Engenharia de Produção Industrial em Lisboa, numa altura em que essa área começava a ganhar grande relevância, sobretudo pela ligação que estabelece entre engenharia, gestão industrial e organização de processos produtivos. Na altura diziam-nos que seria uma área com grande futuro e, olhando hoje para a evolução do sector industrial e tecnológico, creio que foi efectivamente uma aposta acertada.
Durante o período académico acabei também por receber um prémio na área da engenharia, o que acabou por abrir algumas portas no início da minha carreira. Foi nessa sequência que fui convidado a integrar a SAP, a multinacional alemã de software empresarial. Na época tratava-se de uma empresa que estava em forte expansão e que começava a consolidar a sua presença em vários mercados internacionais.
Fui trabalhar para a Alemanha e acabei por integrar um projecto que tinha como objectivo desenvolver o mercado europeu. Foi uma experiência muito interessante, porque estávamos numa fase em que muitas empresas começavam a adoptar sistemas integrados de gestão e a transformar profundamente os seus processos internos através da tecnologia.
Posteriormente fui convidado a integrar a Capgemini, uma multinacional de consultoria que, nessa altura, tinha adquirido a divisão de consultoria da Ernst & Young. Foi nessa fase que passei a trabalhar mais directamente na área da consultoria estratégica e operacional, ajudando empresas a desenvolver processos de transformação organizacional, inovação e crescimento.
Ao longo desses anos tive oportunidade de trabalhar com diferentes mercados e diferentes realidades empresariais. Mais tarde surgiu também a oportunidade de integrar um projecto de consultoria internacional cuja sede se situava em Chicago. Nesse contexto acabei por assumir responsabilidades no desenvolvimento do mercado da América Latina.
Durante cerca de quinze anos estive baseado em São Paulo, acompanhando projectos em vários países da região. Foi um período muito intenso do ponto de vista profissional, que me permitiu contactar com diferentes sectores de actividade e com contextos económicos bastante diversos.
Apesar dessa carreira internacional, sempre mantive uma ligação forte à região de Santarém. Tenho aqui uma propriedade no Azoia de Baixo e, ao longo dos anos, fui regressando regularmente. Chegou um momento em que, depois de muitos anos fora, senti que fazia sentido regressar de forma mais permanente.
Acabei por voltar à região e dedicar-me também a alguns projectos pessoais. Tenho, por exemplo, uma pequena produção de vinho na minha propriedade, uma actividade que comecei a desenvolver de forma mais tranquila depois de tantos anos ligados a contextos empresariais muito exigentes.
Ao mesmo tempo mantive sempre ligação com a comunidade local e também com o próprio Correio do Ribatejo, que sempre fez parte do meu universo desde muito cedo. Cresci a acompanhar o jornal e mantive ao longo dos anos uma relação próxima com algumas pessoas ligadas à publicação.
Foi já nesse período de regresso à região que surgiu a oportunidade de me envolver neste projecto. De certa forma, acabou por ser uma conjugação de circunstâncias: por um lado, a experiência internacional acumulada ao longo da carreira; por outro, a vontade de contribuir para o desenvolvimento da região onde nasci.
Quando o projecto da Global Industry Innovation Alliance começou a procurar uma base de implantação na Europa, acabei por ser convidado a acompanhar o processo e a ajudar a estruturar a instalação desta plataforma em Portugal. Olhando para a dimensão do desafio e para o potencial que poderia ter para a região, pareceu-me um projecto suficientemente interessante para aceitar.
Neste momento estamos ainda numa fase inicial, mas com a ambição de criar algo que possa ter impacto real na economia da região e que contribua para colocar o Ribatejo no mapa de grandes projectos de investimento internacional.
Filipe Mendes
