Memorar Ruy Castelar é viajar no tempo até uma época em que a voz era o universo absoluto da Rádio e a imaginação do ouvinte completava o que os olhos não podiam ver. Ao longo de mais de seis décadas, Ruy Castelar dominou a força da palavra, da música e do silêncio. Especialmente nas emissões noturnas, transformou o microfone num instrumento de proximidade, deixando uma marca indelével na Comunicação, na Música e no espetáculo em Portugal.

Nascido a 19 de Setembro de 1932, revelou desde cedo uma forte inclinação para as artes e para a representação. Embora tenha frequentado o Instituto Industrial de Lisboa, interrompeu os estudos aos 18 anos por vontade do pai para ingressar na Marinha de Guerra. Formou-se em Engenharia de Máquinas Navais e fez várias viagens pela instituição militar. Seria precisamente uma escala nos Açores a mudar o rumo da sua vida: foi em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, que se estreou na Rádio aos microfones do Rádio Club de Angra.

Mais tarde, em cumprimento do serviço militar na Índia Portuguesa (Goa), continuou a fazer rádio para os camaradas e para a população local. Foi nesta altura que nasceu uma longa amizade com o autor destas linhas, que na “nossa” Rádio Ribatejo lhe enviava programas de fado gravados em casas típicas, com locução minha e técnica do diretor Jaime Varela Santos Ao regressar, integrou o prestigiado Rádio Clube Português. Em 1963 ligou-se a formatos como “Meia Noite e Sintonia 63”, mas o verdadeiro marco da sua carreira seria o programa “A Noite é Nossa” (1967–1975). Castelar tinha um talento natural para a Rádio de madrugada, criando uma atmosfera íntima com os ouvintes. O programa chegou a ser emitido ao vivo a partir do “Porão da Nau”, um espaço noturno lisboeta de que Ruy Castelar era sócio. Era uma proposta vanguardista que unia a noite de Lisboa, música e conversa para acompanhar trabalhadores noturnos e, nas primeiras horas da manhã, os pescadores que iniciavam a faina.

Com as transformações do pós-25 de Abril, transitou para a Rádio Comercial nas décadas de 1980 e 1990, onde deu voz a sucessos como “Fantástico” e “Clube da Manhã”. A sua capacidade de se adaptar às novas tecnologias e tendências culturais, sem perder a identidade, foi MEMORÁVEL Mais tarde, dedicou-se à RDP Internacional, aproximando os emigrantes portugueses da sua terra natal com programas como “Vamos Recordar”,” O Fado e a Guitarra Portuguesa”, “Meia Noite e uma Guitarra” e o formato de autor, com o seu nome “Ruy Castelar”. O seu trabalho estendeu-se além dos microfones da Rádio. Como produtor musical, assinou álbuns históricos como “Maria da Fé Canta com Orquestra” (1968) e “Versos de Orgulho” (1996) de Maria Leopoldina Guia.

No Cinema, integrou o elenco do clássico “Os Verdes Anos” (1963) e da comédia musical “Rapazes de Táxis” (1965), ao lado de Tony de Matos e António Calvário. No Teatro, trabalhou com a prestigiada Companhia de Francisco Ribeiro (Ribeirinho). Décadas mais tarde, conquistou as gerações mais jovens através da ficção televisiva na RTP, SIC e TVI, integrando elencos de telenovelas e séries de sucesso como “Olhos de Água”, “Saber Amar”, “Baía das Mulheres”, “Feitiço de Amor” e “Remédio Santo”. O público e os pares consagraram o seu talento com distinções como o prémio “Microfone de Ouro” do Rádio Clube Português e o prémio da Casa da Imprensa para “Melhor Locutor de Rádio”. Em 1991, venceu um grande concurso nacional de popularidade promovido pela Rádio Comercial através da votação direta dos ouvintes.

Na vida pessoal, foi pai de Sandra e de Paula Castelar, tendo esta última seguido os passos do pai na Comunicação. Ruy Castelar manteve-se ativo na RDP Internacional até 2022. Faleceu a 3 de março de 2023, aos 90 anos de idade.  Aquando da sua partida, a filha Paula recordou-o como um homem generoso, dono de um fino sentido de humor e com uma curiosidade insaciável pela vida. A sua partida gerou uma enorme vaga de consternação e homenagens de instituições como a RTP e a Rádio Comercial. O seu percurso confunde-se com a própria evolução da Radiodifusão em Portugal: das grandes estações privadas de antena aberta, passando pelo nascimento das rádios comerciais, até à excelência do serviço público.

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