Quem percorre hoje o centro histórico de Santarém encontra espaços que parecem suspensos no tempo à espera de que o feitiço seja quebrado e a vida volte. Esta realidade contrasta com a memória de uma cidade com identidade e história que foi, durante séculos, um centro ativo de vida social, económica e cultural no Ribatejo. O que hoje muitos veem como decadência irreversível é, na verdade, o sinal de uma cidade que adormeceu, não por falta de valor, mas por uma lenta perda de ligação entre os cidadãos e o seu próprio centro.
Um centro histórico à espera
Com mais de dois mil anos de ocupação contínua, possui um património urbano, arquitetónico e simbólico comparável ao das grandes cidades portuguesas. O seu centro histórico não morreu; está adormecido. Esta distinção implica que a solução não passa pela demolição nem pela substituição, mas pela reativação e adaptação do património aos desafios do presente.
Este período de declínio tem também um efeito inesperado: a preservação de grande parte da identidade arquitetónica do centro histórico. A ausência de pressão imobiliária ligada á dificuldade de intervenção evitou demolições irreversíveis e transformações agressivas. Isto significa que ainda existe uma base patrimonial íntegra sobre a qual é possível intervir com critério e visão de longo prazo.
Desenvolver sem afastar
Ao longo do último século, decisões que afastaram, passo a passo, a vida quotidiana do centro da cidade, acumularam-se. Primeiro, o progressivo corte da relação com o Tejo, que durante séculos funcionou como uma verdadeira “fonte comercial” e ponto de ligação entre a Alfange, os bairros ribeirinhos e o planalto. A isto acrescentou-se a deslocação das dinâmicas comerciais com a chegada do caminho de ferro e, mais tarde, a descentralização da A1, que acabou por impulsionar a enorme expansão urbana para a periferia, cada vez mais próxima dos seus acessos e das novas zonas industriais.
Este processo não aconteceu de um dia para o outro, nem resultou de um colapso económico súbito. Foi, antes, uma mudança gradual de prioridades, em que a conveniência imediata se sobrepôs à continuidade urbana e social. Estas tendências trouxeram conforto e acessibilidade, mas também fragmentação. O centro histórico ficou associado ao passado, à dificuldade, ao custo e ao abandono.
Muitos edifícios degradaram-se não por falta de potencial, mas por ausência de uso, de investimento e, sobretudo, de atenção. É importante dizê-lo com clareza: a situação atual do centro histórico de Santarém explica-se, em grande medida, por uma forma de distanciamento coletivo.
Quando passamos por um edifício antigo e vemos apenas um problema, uma despesa ou um obstáculo, surge mais facilmente a solução da demolição. Ao fazê-lo, estamos a aceitar, ainda que involuntariamente, a continuação do abandono. Quando deixamos de reconhecer valor num lugar, a ruína torna-se quase inevitável.
O património só sobrevive quando é vivido. Edifícios, tradições, comércio local e espaços públicos mantêm-se relevantes quando fazem parte da vida das pessoas. A ligação emocional a um lugar gera cuidado; o cuidado gera investimento; e esse investimento permite que o lugar se mantenha ao longo do tempo. O centro histórico é o repositório da memória coletiva de Santarém. Ao afastarmo-nos dele, enfraquecemos a capacidade de fazer o centro uma parte das nossas vidas.
Isto não significa congelar o desenvolvimento nem romantizar a degradação ou a pobreza. Pelo contrário, significa apostar na reutilização adaptativa dos edifícios existentes, permitindo que ganhem novas funções e respondam às necessidades atuais, sem perder a sua identidade. O centro histórico não deve ser um museu inacessível, mas um espaço vivo, capaz de acolher habitação, comércio, serviços, cultura e novas formas de trabalho.
Cidades, como o Amesterdão, conseguiram conciliar património e vida contemporânea. Esses casos demonstram que a preservação não é incompatível com a inovação. O desafio não está em rejeitar a tecnologia, a mobilidade automóvel ou as mudanças sociais, mas em escolher como integrá-las de forma equilibrada e responsável.
Políticas públicas e responsabilidade partilhada
Naturalmente, este processo exige políticas públicas adequadas: menos burocracia na reabilitação, uma visão estratégica clara construída com o contributo de pessoas e entidades profundamente ligadas ao território, apoio técnico e instrumentos financeiros ajustados à realidade do centro histórico.
Mas nenhuma estratégia terá sucesso sem a participação ativa da comunidade. A revitalização não acontece apenas por meio de planos ou obras, mas por meio de escolhas diárias e decisões simples: ir tomar um café no centro, marcar um encontro na esplanada, comprar no comércio local como uma livraria independente, fazer uma caminhada ao fim da tarde nas Portas do Sol, ou fazer visitas regulares às novas exposições. E, quando possível, optar por viver, investir ou trabalhar nele. São estes gestos cumulativos, aparentemente pequenos, que quebram o ciclo de abandono.
Santarém tem tudo o que precisa para despertar. O desafio não está em acrescentar espetáculo ao território, mas em tornar relevantes e acessíveis os valores que já existem. O centro histórico não é um peso nem um problema herdado: é uma oportunidade. Mas essa oportunidade só se concretiza se for assumida como uma responsabilidade partilhada. A cidade não precisa de um salvador nem de soluções espetaculares. Precisa que os seus cidadãos voltem a olhar para o seu coração com um sentido de pertença.
Edna Peres
Sobre a Autora: Edna Peres possui um doutoramento em Arquitetura. É investigadora e especialista em ambientes urbanos sustentáveis e culturalmente ricos.



