santarem cultura

O projecto Santarém Cultura quer tornar-se numa das bases estratégicas de desenvolvimento de uma cidade marcada pela “falta de sentimento de pertença” dos que a habitam e que tem estado “fora de qualquer circuito”, disse à Lusa o seu mentor.

João Aidos, gestor, programador, produtor e engenheiro projectista, com passagem por estruturas culturais em vários pontos do país e director-geral das Artes em 2010/11, lidera a equipa que venceu o concurso aberto em 2018 pela Câmara de Santarém, abraçando o desafio de “pensar o território de uma maneira concertada” e de construir “um pensamento de cidade” a partir da cultura, disse à agência Lusa.

No final do primeiro trimestre de programação, que abriu a 19 de Janeiro com um concerto de Áurea e encerrou a 30 de Março com a peça “Odeio este tempo detergente”, a partir da escrita de Ruy Belo, a vice-presidente da Câmara de Santarém, que detém o pelouro da Cultura, Inês Barroso, afirmou que não tem ainda números da afluência tanto aos espectáculos como às acções realizadas nas escolas e em colectividades das freguesias, mas realçou o facto de, pela primeira vez em muitos anos, as lotações terem ficado “completamente esgotadas”.

Anunciada a programação para o segundo trimestre, o espectáculo de António Zambujo, agendado para o próximo dia 12, ficou esgotado em dois dias e o de Salvador Sobral (12 de maio) tinha, no final da semana passada, meia sala vendida, disse, realçando o carácter abrangente do Santarém Cultura, que não se esgota nos espectáculos no Teatro Sá da Bandeira (TSB), mas que decorre em outros espaços da cidade, vai às freguesias e às escolas, num processo que tem revelado “grande adesão” da população.

“É este o modelo que queremos, de envolvimento e de participação de todos”, pensado “na globalidade”, pondo de parte “as quintas de cada um” e rentabilizando os recursos humanos, mas, sobretudo, por abranger as escolas e o público jovem, declarou, salientando o impacto que o Escala, projeto educativo, de mediação de públicos e de envolvimento da comunidade, está a ter, sobretudo ao trazer “produtores, coreógrafos, encenadores” que deixam a “semente” para a criação local.

Reconhecendo que um “salto de qualidade na cultura” é determinante na assunção da cidade como capital de distrito e na sua afirmação “no panorama nacional”, o município está já a realizar os procedimentos para um novo concurso, agora por dois anos, porque os “pilares” que estão a ser lançados “têm de ser cimentados e já não se podem perder”, disse a autarca.

Com contrato por um ano, assinado em agosto de 2018, João Aidos sublinhou que, com a sua equipa – que integra Carlos Veríssimo, assistente de programação, e Ricardo Falcão, coordenador do projeto Escala –, tem feito um “investimento pessoal enorme, que ultrapassa em muito a contratação”, já que têm dado grande apoio à produção, resolvendo inclusivamente questões técnicas, e na formação e “reestruturação” do quadro de pessoal “muito reduzido” do município.

Muito mais que uma programação para o TSB ou para outros espaços da cidade – como o Palácio Landal, o convento de S. Francisco, a Casa do Brasil, a Incubadora d’Artes ou mesmo o museu de S. João de Alporão (cujo encerramento pode estar em vias de solução) e a biblioteca municipal Braamcamp Freire -, e que os projetos para as escolas e a comunidade, a ideia é “pensar o território de uma forma macro”.

O desafio de refletir “como é que a cultura se poderá relacionar com a regeneração urbana, com a educação, com o turismo, sendo esta uma cidade com grande valor patrimonial”, tem levado a equipa a fazer “um mapeamento do território, a pensar o que existe, quais os fatores diferenciadores”, quais os projetos, quem são os agentes, que património, material e imaterial, existe, ao mesmo tempo que procura ajudar a reorganizar os serviços de cultura do município, afetados pelo corte que, na crise, acabou com o departamento, disse João Aidos.

Há ainda o trabalho de ‘branding’ de cidade, que começou com a edição de uma agenda, mas que passa também pela capacidade de comunicar do projeto Escala, em que as “grandes palavras” são “mediação, envolvimento e participação”, destacou, realçando as sinergias com as associações das freguesias rurais e o trabalho com as da cidade, contribuindo para esbater barreiras e apoiar na elaboração de projetos e nas candidaturas a apoios.

Inserindo o seu trabalho no conceito de “ecologia criativa”, João Aidos afirmou que o projeto em curso em Santarém quer contribuir para que os escalabitanos sejam “pessoas mais felizes”, cidadãos “mais críticos, mais intervenientes”, porque ser competitivo e inovador “não se compra em lado nenhum”.

Para João Aidos, é também preciso mostrar a quem não é de Santarém que a cidade “tem uma série de atributos únicos que outros territórios não têm”, o que exige uma maneira diferente de comunicar.

“Que outra cidade tem 50 ou 60 cisternas inacreditáveis, algumas delas com dez metros de altura, com água e arcos, em que quase se pode andar de barco lá dentro? Essas partes não estão exploradas nem comunicadas. É uma cidade única até pela sua situação geográfica e a importância da água tem que ser trabalhada”, exemplificou.

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