Dar a conhecer uma outra faceta de Santarém, evocando a memória de quem viveu e trabalhou nas suas ruas, bem como os eventos que deram origem aos nomes destas. O livro “Dicionário de Toponímia de Santarém: arruamentos do Centro Histórico século XIX e XX”, da autoria de António Canavarro e José Raimundo Noras, foi apresentado no passado dia 28 de Março, na Casa do Brasil, funcionando como uma obra de divulgação do património toponímico scalabitano que todos podem ler, adquirir e consultar. 

Em entrevista ao Correio do Ribatejo, os autores explicam curiosidades históricas e revelam os motivos e propósito de uma investigação que resultam num livro que os “deixou orgulhosos”. 

O que é que este dicionário nos diz sobre Santarém que a população ainda não saiba? O que é que descobriram?

António Canavarro (AC): Descobrimos imensas coisas. Por exemplo, que há uma rua na Ribeira de Santarém, chamada Lourenço de Almeida, cujo nome foi trocado. Nos anos 30 a rua foi oficializada e por volta dos anos 60, uma secretária da Câmara Municipal interpretou mal o nome e alterou-o para Lourenço de Almeida, quando o nome era Lourenço Viegas. 

José Raimundo Noras (JRS): Também no caso da Ribeira de Santarém, existe o Largo António Faustino. Desconhecia-se quem pudesse ser este António Faustino. Foi através do trabalho da professora Teresa Moreira que chegámos lá. Muita gente na Ribeira está convencida que foi um jogador de futebol com o mesmo nome, mas na verdade António Faustino era um líder associativo da Ribeira que se suicidou em 1911. No fundo, foi perceber porque é que as ruas se chamam assim. Algumas decorreram de homenagens locais e outras de momentos históricos nacionais.  

Esta obra nasceu de uma necessidade académica ou de uma curiosidade pessoal de ambos?

AC: Foi uma iniciativa do antigo vereador da cultura, que nos propôs este projecto há cerca de três anos. 

JRN: O que nós estamos a fazer aqui no gabinete do Centro Histórico e que se cruza com este projecto é o historial de cada edifício, para conhecermos melhor o edificado e para apoiar também a parte do licenciamento. Eu já estava a fazer esse projecto, depois surgiu a hipótese de incluir na equipa o António e lançaram-nos o desafio de, em parceria, fazermos este trabalho sobre os nomes das ruas.

Porquê focar a pesquisa especificamente nos séculos XIX e XX?

JRN: Foi por uma razão muito prática. Nós partimos dos nomes que temos actualmente e tentámos perceber porque é que eles se chamam assim e como é que se chamavam no passado. O objectivo foi perceber porque é que as ruas se chamam assim hoje e não qual era o nome das ruas no passado e o que é que elas correspondem.

AC: Uma coisa muito interessante é a reforma administrativa de António Rodrigues Sampaio em que ele obriga a que as ruas tenham nomes. Só desde 1878 é que as Câmaras Municipais têm a competência de dar nomes às ruas. 

Qual foi o maior desafio que encontraram no decorrer da investigação?

AC: De certa forma, foi ler a letra antiga. A paleografia é uma arte da história que é muito complicada. Tu tens letras do século XV, do século XVI, até mesmo do século XX, que são muito complicadas de se ler. 

JRN: Foi a dispersão dos materiais que tivemos de encontrar. Felizmente, a Câmara de Santarém tem uma colecção de actas que vai do século XVII ao século XIX. Mas, por exemplo, nós tentámos ver nas Juntas de Freguesia, estivemos a fazer esse trabalho de levantamento de arquivo com elas e quisemos encontrar actas paroquiais de séculos anteriores e não conseguimos porque não foram preservadas.

Como definem a identidade das ruas do Centro Histórico de Santarém?

JRN: Eu considero Santarém como uma cidade romântica porque foi reconstruída no século XIX e vive ao mesmo tempo com a introdução de elementos arquitectónicos dissonantes, como as janelas manuelinas ou neogóticas, os azulejos. É uma cidade reconstruída pelo romantismo durante XIX e XX. 

AC: E o local mais romântico de Santarém ainda se mantém e está no livro, que são as Portas do Sol, sobretudo o Largo da Alcáçova. É um jardim romântico e é para lá que os casalinhos vão. A minha avó, que já morreu há trinta anos, vivia lá e vinha sempre à janela dizer: “Parem lá com esta pouca-vergonha!”. São gerações. 

Que impacto esperam que esta obra tenha na comunidade?

JRN: Nós fizemos um apanhado dos livros sobre Santarém, na introdução, e não havia um específico sobre toponímia. Existem estudos de toponímia, mas mais focados na origem do nome de Santarém. E este pode ser, até porque resume só a uma zona da cidade, um começo de outros estudos mais abrangentes. 

AC: Neste livro nós falamos que é na rua que as pessoas se existem. Se estás em casa, ninguém te conhece. Portanto, isto é um convite para que as pessoas usufruam também do centro de histórico da cidade e lhe dêem vida. 

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