O Teatro Sá da Bandeira, em Santarém, recebe no dia 17 de abril, às 21h30, o espetáculo “Portugal não é um País Pequeno”, uma criação de teatro documental que propõe uma reflexão crítica sobre a ditadura e o passado colonial português em África.
Em declarações à Lusa, o encenador e intérprete André Amálio explicou que o espetáculo nasceu de um trabalho de recolha de entrevistas a portugueses que viveram em Angola e Moçambique e que ficaram conhecidos como “os retornados”.
“É um trabalho que olha para a experiência dos colonos quando estão em África, para a sua vida lá, e depois para o impacto do 25 de Abril e da chegada de centenas de milhares de pessoas a Portugal”, afirmou.
O encenador sublinhou que muitos dos testemunhos recolhidos revelam uma aceitação do racismo, da discriminação racial e da violência colonial como algo “normal”, uma perceção que o espetáculo procura “questionar e problematizar”.
“O que mais me surpreendeu foi encontrar uma grande falta de visão crítica sobre este passado, com a aceitação do racismo e da discriminação como se fossem algo normal, quando não eram”, sublinhou, acrescentando que o espetáculo confronta esses discursos com a documentação oficial do Estado Novo, que revela “uma realidade completamente diferente”, marcada pela opressão.
O responsável explicou que o espetáculo procura também dar espaço a memórias frequentemente silenciadas e questionar a forma como o passado colonial continua a ser debatido “ou evitado” em Portugal.
“Ainda existe um enorme silenciamento e uma mitificação do nosso passado colonial que não corresponde ao que realmente aconteceu”, defendeu, referindo que, nos últimos anos, tem‑se construído uma narrativa centrada apenas nos aspetos considerados mais positivos ou “mais bonitos” da história, deixando de fora experiências de opressão, violência e exclusão.
“A história foi vivida e sentida de vários pontos de vista e é fundamental compreendermos essa complexidade. É isso que o espetáculo pretende”, defendeu.
André Amálio considerou que o teatro documental contribui de forma decisiva para a revisão crítica da história, por se basear em documentos reais, como “arquivos, discursos políticos, leis, filmes, fotografias, histórias de vida”.
“Aquilo que é dito em palco é citado diretamente ou fundamentado nesses documentos”, explicou, acrescentando que o trabalho assenta numa investigação histórica rigorosa.
No espetáculo é utilizada a técnica de verbatim, com a reprodução literal das palavras recolhidas nas entrevistas. Para o encenador, esta opção permite ao público ter acesso direto “às vozes e subjetividades” das pessoas entrevistadas.
“As histórias são ditas na primeira pessoa, com hesitações, repetições e impurezas próprias do discurso oral. Essa riqueza ajuda‑nos a conhecer melhor essas pessoas e a perceber como a história impactou diretamente as suas vidas”, afirmou.
O encenador disse ainda esperar que o público saia do espetáculo com vontade de questionar a narrativa dominante sobre o colonialismo português.
“Gostava que as pessoas procurassem conhecer melhor a nossa história, de forma crítica, e que questionassem o mito de que Portugal foi um bom colonizador, porque isso não corresponde à verdade”, afirmou, acrescentando que só recentemente Portugal começou a olhar criticamente para o passado colonial.
Com criação e interpretação de André Amálio e música original de Pedro Salvador, natural de Santarém, “Portugal não é um País Pequeno” integra o programa das comemorações do 25 de Abril, promovidas pelo município de Santarém e pelas Comemorações Populares do 25 de Abril – Associação Cultural, em colaboração com várias associações do concelho.
