O Grupo Académico de Danças Ribatejanas e o Grupo Infantil de Dança Regional vão celebrar sete décadas de existência com um espectáculo comemorativo, no próximo domingo, dia 31 de Maio, pelas 16 horas, no Convento de São Francisco, em Santarém, no Dia Nacional do Folclore Português.

Fundados a 27 de Maio de 1956, os Grupos tornaram-se autênticos embaixadores culturais, guardiões da autenticidade e pilares da identidade ribatejana.

Pugnando pela criação de grupos de folclore que representassem as tradições etnográficas e folclóricas, designadamente na Feira do Ribatejo, Celestino Graça fundou diversos agrupamentos, entre os quais estes na cidade de Santarém.

Mercê de um aturado trabalho de pesquisa e de recolha etnográfica, Celestino Graça logrou criar estes Grupos escalabitanos para representarem as diferentes regiões etnográficas ribatejanas, nomeadamente o Bairro, a Lezíria e a Charneca.

Desde logo este objectivo foi amplamente conseguido, e os Grupos Infantil e Académico de Santarém alcançaram um grande sucesso nas suas actuações em todo o país e, a partir de 1958, também no estrangeiro.

Ao longo da sua existência de setenta anos de uma ininterrupta actividade, estes Grupos já se apresentaram em cerca de 3.000 actuações e já efectuaram cerca de 60 digressões a 25 países estrangeiros, pelo são a associação cultural escalabitana que mais vezes cruzou fronteiras para representar Santarém, o Ribatejo e Portugal.

Após o infausto falecimento de Celestino Graça, ocorrido em 24 de Outubro de 1975, os Grupos prosseguiram a sua actividade, mantendo a sua qualidade artística e a representatividade etnográfica e folclórica.

A Câmara Municipal de Santarém distinguiu estes Grupos com a Medalha de Ouro da Cidade, em 1958, ao Grupo Infantil, e em 2006, ao Grupo Académico.

O Grupo Académico de Danças Ribatejanas é membro da Federação do Folclore Português, da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, da Federação das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto do Distrito de Santarém, da Fundação INATEL e da Associação CIOFF Portugal.

Anualmente, o Grupo Académico organiza o Festival Celestino Graça – A Festa das Artes e das Tradições Populares do Mundo, cuja 65.ª edição decorrerá na Casa do Campino, entre os dias 2 e 6 de Setembro de 2026, contando com a participação de Grupos Folclóricos de Costa Rica, Grécia, Itália, Lituânia, Quénia e Portugal.

No dia 31 de Maio, no Convento de S. Francisco, em Santarém, decorrerá a partir das 16 horas, o espectáculo comemorativo do 70.º aniversário, que assinalará também o Dia Nacional do Folclore Português, em parceria com a Federação do Folclore Português. As entradas serão livres e o programa do espectáculo será o seguinte: 16 horas – Início do Espectáculo com intervenção de Ludgero Mendes; 16.05 horas – Usará a palavra o representante da Câmara Municipal de Santarém; 16.15 horas – Usará a palavra o Presidente da Federação do Folclore Português, Doutor Daniel Café; 16.30 horas – Apresentação de 100 imagens alusivas à trajectória dos Grupos Infantil de Dança Regional e Académico de Danças Ribatejanas, de Santarém; 16.45 horas – Início da Actuação dos Grupos Infantil e Académico de Santarém, com caracterização das sub-regiões etnográficas do Ribatejo e apresentação de trajos; 17.45 horas – Corte do Bolo de Aniversário; 18 horas – Encerramento.

Fiéis à Matriz fundadora

Sete décadas depois, os grupos mantêm-se fiéis a essa matriz fundadora, provando que a tradição não é um conceito estático, mas uma força viva capaz de unir o passado ao futuro. 

A sua actuação não se limita a preservar o que foi, mas a garantir que essas expressões culturais continuam a fazer sentido no presente, dialogando com as novas gerações e com o mundo.

Para compreender a essência do Grupo Académico de Danças Ribatejanas, é imperativo recuar à figura do seu fundador. Celestino Graça (1914-1975) foi muito mais do que um estudioso do folclore; foi um visionário que percebeu a urgência de salvaguardar a alma popular antes que a modernidade a apagasse irremediavelmente. Regente agrícola de formação e etnólogo por paixão, Graça estruturou um modelo de trabalho cultural assente no rigor da pesquisa, na autenticidade da representação e no respeito profundo pelas raízes do povo ribatejano.

O Grupo Académico foi a materialização desse projecto maior. Mais do que criar um rancho para exibições pontuais ou para mero entretenimento, Celestino Graça forjou uma verdadeira escola de transmissão intergeracional. 

Hoje, o grupo assume-se orgulhosamente como herdeiro directo dessa obra, mantendo viva a exigência técnica e artística que sempre o caracterizou desde a sua génese. A recente publicação do livro “Celestino Graça – O Homem que disse NÃO à mediocridade”, editado pelo próprio grupo no início de 2026, é um testemunho eloquente dessa reverência e do compromisso inabalável em preservar e divulgar a memória e o pensamento do seu patrono.

O grupo apresenta trajes, danças e cantares com um rigor etnográfico ímpar, fruto de décadas de recolha aturada, mas também promove activamente jornadas de estudo, sessões evocativas e iniciativas de formação que aprofundam o conhecimento sobre as tradições locais.

A existência e a vitalidade de um grupo infantil de dança regional é, talvez, o sinal mais claro da força e da visão de futuro desta instituição. Ao integrar as novas gerações desde tenra idade, o Grupo Académico garante que o fandango, o verde-gaio, as modas de roda e os cantares de trabalho não são apenas peças de museu cristalizadas no tempo, mas expressões culturais vibrantes que continuam a fazer sentido para os jovens de Santarém.

O reconhecimento deste trabalho profundo, metódico e continuado chegou de forma expressiva no final de 2025, quando a Federação de Folclore Português distinguiu o grupo com o estatuto de Sócio Efectivo. Esta distinção, entregue durante uma emotiva sessão evocativa dos 50 anos da morte de Celestino Graça, não foi uma mera formalidade administrativa; foi a validação institucional, ao mais alto nível, do seu papel como referência maior do folclore português e como guardião incontestável de uma escola de autenticidade que recusa cedências à facilidade.

 

Um Festival que é referência internacional

Falar do Grupo Académico de Danças Ribatejanas é falar, inevitavelmente, do Festival Internacional de Folclore “Celestino Graça”. Esta iniciativa de grande envergadura, organizada e impulsionada pelo grupo, é uma das marcas culturais mais fortes de Santarém e um dos festivais etnográficos mais prestigiados e antigos do país, reconhecido internacionalmente pelo CIOFF (Conselho Internacional das Organizações de Festivais de Folclore e Artes Tradicionais).

O festival é a prova provada da extraordinária capacidade organizativa do grupo e da sua visão profundamente cosmopolita. Ao trazer anualmente a Santarém grupos folclóricos de excelência de vários cantos do mundo, o Grupo Académico transforma a cidade numa verdadeira festa das artes e das tradições populares globais. Espaços emblemáticos da cidade, como a Casa do Campino, o Campo Infante da Câmara e as ruas do Centro Histórico, ganham uma nova vida durante estes dias, num diálogo vibrante e enriquecedor entre a cultura ribatejana e as mais diversas expressões etnográficas internacionais.

Correio do Ribatejo homenageou a Herança Viva do Folclore Ribatejano

A celebração do 70.º aniversário do Grupo Académico de Danças Ribatejanas (GADR) foi um dos motivos centrais para a distinção da instituição na Gala do 135.º Aniversário do Correio do Ribatejo que decorreu no passado dia 14 de Abril, em Santarém. 

A homenagem, que reconheceu o papel insubstituível do grupo na salvaguarda da identidade cultural da região, foi recebida por Cristina Graça Rodrigues, neta do fundador Celestino Graça e por vários elementos do Grupo que este ano participaram na animação da Gala. 

A sua intervenção, breve, mas carregada de simbolismo, sublinhou a importância do trabalho colectivo, a responsabilidade de continuar um legado fundado em 1956 e a parceria histórica com o jornal que ao longo de sete décadas acompanhou e documentou o percurso da instituição.

Ao subir ao palco, a representante do GADR fez questão de partilhar o mérito da distinção com todos os que, ao longo de sete décadas, têm mantido viva a chama do folclore ribatejano. “Para levarmos a cabo este projecto com 70 anos, é preciso o esforço de muitos”, afirmou, reconhecendo a dedicação de quem abdica do seu tempo pessoal em prol da cultura popular.

A intervenção de Cristina Graça Rodrigues destacou a dimensão comunitária do projecto fundado pelo seu avô em 1956. “O projecto do Grupo Académico é um projecto que só se consegue levar a cabo com todos. A nossa associação é extensa, com pais, com todos os que estão aqui em cima do palco e os que faltam aqui”, sublinhou, lembrando as múltiplas actividades desenvolvidas pela instituição, incluindo a organização do Festival Internacional de Folclore “Celestino Graça”.

Ludgero Mendes: a voz da Tradição Ribatejana

Figura central e incontornável da etnografia, do folclore e da cultura popular, a trajectória de vida de Ludgero Mendes, director dos Grupos, confunde-se, de forma íntima e indissociável, com a própria história recente da preservação identitária do Ribatejo. 

A morte de Celestino Graça, em 1975, quando Ludgero Mendes tinha apenas 18 anos, representou um choque inesperado, mas também um momento de viragem e de assunção de responsabilidades acima do que seria expectável para a sua idade. 

Perante a incerteza quanto ao futuro do Grupo Académico de Danças Ribatejanas, o jovem discípulo não hesitou: “Não era fácil assumir, perante pessoas mais velhas, a defesa de que o grupo devesse continuar. No entanto, eu decidi lançar mãos à obra”, recorda. 

A partir desse momento, assumiu a missão de garantir a continuidade dos Grupos, procurando aprofundar os seus conhecimentos e honrando a memória do fundador com rigor e exigência crescentes.

A ligação de Ludgero Mendes ao Grupo Académico de Danças Ribatejanas é um caso raro de longevidade e de amor a uma causa. Componente activo (na dança) desde 1970, assumiu funções dirigentes logo após a morte de Celestino Graça. Com excepção de um breve interregno motivado por razões familiares, a sua presença nos órgãos sociais tem sido uma constante ao longo de cinco décadas. Desde 1995, preside ininterruptamente à direcção, conduzindo os destinos de uma instituição que considera “como se fosse um filho”. Um filho da sua idade.

Como a data é de celebração, estamos todos convidados a assistir a este espectáculo comemorativo que muito promete, este domingo, às 16h00, no Convento de São Francisco. As entradas serão livres.

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