Num tempo dominado pela velocidade das redes sociais e pela produção incessante de imagens, Paulo Sousa continua a defender a fotografia enquanto exercício de pensamento, observação e construção autoral. Coordenador do Projecto Fotográfico 2026 do Centro Cultural Regional de Santarém (CCRS), o fotógrafo acredita que um verdadeiro projecto nasce da necessidade de explorar uma ideia com profundidade e coerência, distinguindo-se da simples acumulação de imagens sem relação entre si. Nesta entrevista ao Correio do Ribatejo, fala do desafio de acompanhar diferentes linguagens visuais sem impor uma estética, reflecte sobre as transformações do território ribatejano e assume a fotografia como documento, expressão artística e ferramenta essencial para compreender o mundo contemporâneo.

O Projecto Fotográfico 2026 do CCRS propõe um trabalho continuado ao longo de vários meses, algo pouco habitual numa época dominada pela instantaneidade da imagem. O que distingue um verdadeiro projecto fotográfico de uma simples acumulação de fotografias?

Um projecto fotográfico é o desenvolvimento de um trabalho pessoal, é um processo de construção e desenvolvimento consciente de alguma ideia que o fotografo ou amante da fotografia queira explorar e dar um sentido. Uma acumulação de fotografias é apenas, como o nome indica, um conjunto de imagens soltas, que até podem nem estar relacionadas umas com as outras, sem sentido.

A fotografia vive hoje mergulhada num fluxo constante de imagens produzidas por telemóveis e redes sociais. Nesse contexto, ainda faz sentido falar em “olhar autoral”?

Sim, faz e cada vez mais. É esse olhar autoral que reforça a fotografia como meio de expressão pessoal, artístico ou outro. É ele que vai diferenciar toda essa massa de fotografias produzidas em todo o mundo. É esse olhar que contribui para a valorização da fotografia, enquanto meio de produção artístico. 

Como se orienta alguém sem impor uma estética ou retirar identidade ao trabalho de cada participante?

É um desafio permanente. Sobretudo para mim. Todas as pessoas são diferentes, cada uma tem a sua vida alicerçada nas suas vivências, crenças e escolhas, por isso estar a orientar este projecto é, em primeiro lugar, tentar extrair o que cada um se propõe fazer, dando ferramentas e, sobretudo, discutir ideias, caminhos e formas de por tudo em prática, respeitando sempre o trabalho de cada um. Todo este processo é uma troca, ganho eu e ganham eles, é um processo de aprendizagem colectivo. 

Santarém e o Ribatejo continuam a ser territórios visualmente muito ricos, mas também profundamente transformados. Enquanto fotógrafo, o que sentes que ainda falta olhar — ou voltar a olhar — nesta região?

Os territórios estão sempre a mudar, quer a paisagem que adquire novos elementos decorrentes do desenvolvimento (seja isso bom ou mau), como o que estamos a assistir com a agricultura intensiva, ou a exploração da energia solar sem qualquer controle e disciplina, em que vemos a antiga vegetação, agora coberta com painéis solares. A falta de mão de obra nacional e a recorrente substituição por mão de obra imigrante também vão alterando, ao longo do tempo, a forma como vemos isto tudo. Por isso, o olhar para nossa região também está sempre a mudar, digamos que é um exercício constante, que nunca vai acabar. Hajam novos fotógrafos que possam explorar estas vertentes na nossa região. 

A fotografia continua a ser, para ti, sobretudo documento, expressão artística ou forma de compreender o mundo?

A fotografia para mim é tudo isso. Com o tempo e o aprofundamento da fotografia, também vou explorando outras áreas. Ao início primei muito pela exploração das técnicas, treinei muito, mais tarde a fotografia documental tomou conta de mim e ainda hoje é uma paixão, mas também já tenho registados outros apelos para uma fotografia mais autoral, mais condizente com o que me incomoda ou que esteticamente, me dê prazer em explorar. 

E a fotografia também está sempre presente para compreender o mundo, é essencial estarmos informados sobre o que o mundo tem de bom e as atrocidades que muitos estados ainda estão a cometer, em forma de trofeu, só para conquistar terra. 

Um título para o livro da tua vida?

Nunca pensei nisso, mas para primeira tentativa talvez “Passei por aqui”.

Viagem?

Muitas, este ano talvez seja apenas pelo norte de Portugal. 

Música?

Sou ecléctico, ouço tudo, mas pop/rock em maior frequência. 

Quais os teus hobbies preferidos?

Agora não tanto, mas sempre gostei de bricolage.

Se pudesses alterar um facto da História, qual escolherias?

Nunca pensei nisso, a história deve seguir o seu rumo.

Se um dia tivesses de entrar num filme, que género preferirias?

Entraria num filme, mas como director de fotografia, a exposição pública não é o meu forte.

O que mais aprecias nas pessoas?

A genuinidade e a inteligência.

O que mais detestas nelas?

A falsidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Leia também...

“Até numa simples viagem de carro, consigo construir fotografias mentais”

Ricardo Catarro, reconhecido fotógrafo da região, natural de Almeirim, volta a dar cartas no universo da fotografia de casamento. Desta vez, a VOGUE dos…

“Portugal é reconhecido como uma geografia de produtos de qualidade e de segurança alimentar”

Gonçalo Santos Andrade, natural de Almeirim, foi reeleito para um mandato de três anos como presidente da direcção da Portugal Fresh – Associação para…

“Queremos recuperar as bases do passado e inovar a pensar num futuro risonho”

João Neves, de 33 anos de idade, líder da lista única “Rumo ao Futuro”, foi eleito presidente do Sport Lisboa e Cartaxo no passado…

Nuno Domingos: “Abrimos um novo caminho que só o futuro permitirá confirmar como uma boa opção”

Nuno Domingos, mentor do Projecto In.Santarém. Este Verão traz a Santarém o quinto ano do projecto In.Santarém. Ano de “viragem” onde se observa “uma…