Foto LUSA André Kosters

Criado a 15 de Setembro de 1979, o Serviço Nacional de Saúde mudou profundamente o acesso dos portugueses aos cuidados de saúde e acompanhou uma transformação sem precedentes nos principais indicadores do País. Quarenta e sete anos depois, o SNS mantém-se como o principal pilar do sistema de saúde português, mas enfrenta problemas que vão do envelhecimento da população à falta de profissionais, passando pela pressão financeira, pelas dificuldades de acesso e pela necessidade de adaptar o modelo de cuidados a uma sociedade muito diferente daquela que encontrou em 1979.

Quando a Lei n.º 56/79 foi publicada no Diário da República, a 15 de Setembro de 1979, Portugal era um país muito diferente. A democracia tinha apenas cinco anos, persistiam grandes desigualdades sociais e territoriais e o acesso aos cuidados de saúde estava longe de alcançar toda a população nas mesmas condições. A criação do Serviço Nacional de Saúde procurou responder a essa realidade colocando nas mãos do Estado a responsabilidade de assegurar o direito à protecção da saúde.

O primeiro artigo da chamada Lei do SNS não deixava dúvidas sobre a dimensão da mudança: era criado um Serviço Nacional de Saúde destinado a assegurar aquele direito nos termos previstos na Constituição. O segundo estabelecia uma rede de órgãos e serviços que deveria prestar cuidados globais de saúde a toda a população.

Nascia assim uma das instituições que mais profundamente marcariam a sociedade portuguesa nas décadas seguintes.

Quarenta e sete anos depois, o princípio mantém-se. Pelo meio ficaram sucessivas reformas, diferentes modelos de organização e gestão, alterações no financiamento, mudanças nas carreiras dos profissionais e uma progressiva transformação dos hospitais e dos cuidados de saúde primários. Mudaram também o País, as doenças e os próprios cidadãos que procuram o sistema.

 

Um país que passou a viver mais

Os resultados alcançados ao longo destas quase cinco décadas encontram expressão em alguns dos principais indicadores de saúde da população.

A esperança média de vida em Portugal atingiu os 82,5 anos, situando-se 1,4 anos acima da média dos países da OCDE. As taxas de mortalidade evitável e tratável são igualmente inferiores à média daquela organização. Na mortalidade infantil, uma das áreas em que a transformação portuguesa é particularmente evidente, o País apresentava em 1977 uma taxa de 30,3 mortes de crianças com menos de um ano por cada mil nascimentos. Em 2025, o valor era de 2,8 por mil.

A evolução resulta de múltiplos factores, desde a melhoria generalizada das condições de vida ao avanço da medicina, mas acompanha também a expansão da rede de cuidados, dos programas de vacinação, da assistência materno-infantil e dos cuidados de saúde primários.

Pedro Marques, presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde da Lezíria, considera que o aniversário deve ser aproveitado precisamente para olhar para este percurso, mas também para aquilo que está por fazer.

“O SNS acompanhou a modernização do país e soube coexistir com o sector privado e o sector social”, afirma, salientando que o serviço público continua a constituir “o pilar central do sistema de saúde”.

O responsável sublinha o trabalho desenvolvido por sucessivas gerações de profissionais e considera que muitas das conquistas alcançadas resultam da conjugação entre investimento público, construção de uma rede assistencial e uma cultura de serviço que permitiu garantir cuidados a milhões de pessoas.

Mas os bons indicadores não eliminam as fragilidades. Portugal continua, por exemplo, a apresentar dificuldades em áreas relacionadas com a qualidade de vida depois dos 65 anos e a despesa directamente suportada pelas famílias permanece como um dos pontos menos favoráveis do sistema português.

 

O SNS de 1979 já não responde ao Portugal de 2026

A realidade que o Serviço Nacional de Saúde encontra em 2026 é substancialmente diferente daquela para que foi inicialmente construído.

O País envelheceu. As pessoas vivem mais anos e aumenta o número de portugueses que convivem durante largos períodos com doenças crónicas, diferentes patologias em simultâneo e situações de dependência. O modelo tradicional, muito centrado na resposta à doença aguda e no hospital, passou por isso a enfrentar necessidades muito mais prolongadas e complexas.

Pedro Marques identifica o desafio demográfico como uma das principais pressões que o SNS terá de enfrentar nas próximas décadas.

Portugal está hoje entre os países mais envelhecidos da União Europeia e essa transformação repercute-se em toda a cadeia de cuidados: centros de saúde, hospitais, cuidados continuados, respostas domiciliárias, cuidados paliativos e estruturas sociais.

A prevenção ganha, neste contexto, uma importância acrescida. O presidente da ULS da Lezíria aponta para a necessidade de articular saúde, escolas e autarquias e de reforçar não apenas a prevenção primária, mas também a secundária e terciária.

Ao envelhecimento juntam-se novos problemas de saúde e novas exigências. A saúde mental, as novas infecções, a resistência aos antibióticos, as alterações climáticas e a ligação entre saúde humana, animal e ambiental são algumas das áreas que obrigam o sistema a preparar respostas que pouco tinham que ver com as prioridades existentes quando o SNS nasceu.

 

Profissionais são um dos maiores desafios

Se a população mudou, também o mercado de trabalho na saúde sofreu uma profunda transformação.

A falta de profissionais em determinadas especialidades, as dificuldades de recrutamento e retenção, o envelhecimento de parte das equipas e a concorrência crescente dos sectores privado e social estão hoje entre os principais problemas das organizações públicas de saúde.

É uma questão particularmente visível nos serviços de urgência, nas maternidades e em algumas especialidades hospitalares, mas que atravessa igualmente os cuidados de saúde primários.

Pedro Marques considera que se trata de uma “debilidade estrutural” para a qual não existem respostas instantâneas. O diagnóstico, sustenta, está feito, sendo necessárias soluções capazes de assegurar a capacidade operacional das unidades de saúde.

O problema ganha particular importância numa altura em que coexistem no território diferentes prestadores e em que hospitais públicos, privados e sector social disputam profissionais pertencentes ao mesmo mercado de trabalho.

É também nesta capacidade de manter médicos, enfermeiros, técnicos, assistentes e restantes trabalhadores que se joga uma parte importante do futuro do serviço público.

 

Mais tecnologia, mas também mais custos

A sustentabilidade financeira completa o conjunto de grandes desafios apontados pelo presidente da ULS da Lezíria.

O avanço científico permite hoje utilizar medicamentos, tratamentos e equipamentos que seriam inimagináveis quando o SNS foi criado. A medicina personalizada, as novas terapêuticas, a digitalização e a inteligência artificial abrem possibilidades para diagnosticar e tratar melhor, mas transportam igualmente novos custos.

Portugal gastava, nos dados internacionais mais recentes comparáveis, cerca de 10,2% do Produto Interno Bruto em saúde, acima da média da OCDE, embora a despesa por habitante permanecesse abaixo daquela média.

Para Pedro Marques, o modelo de financiamento terá de continuar a evoluir e aproximar-se de uma lógica de criação e avaliação de valor. O responsável defende igualmente a necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de financiamento do SNS, num sistema que terá simultaneamente de acompanhar a inovação e assegurar a sua sustentabilidade.

Mais recursos, por si só, não encerram, porém, a discussão sobre o futuro.

A capacidade de resposta, a proximidade, a transparência, a participação dos cidadãos, a humanização dos cuidados e a confiança nas instituições são apontadas como dimensões igualmente importantes.

 

Uma conquista que continua em construção

As comemorações dos 47 anos decorrem num momento em que o Serviço Nacional de Saúde permanece regularmente no centro da discussão pública. Tempos de espera, acesso a médicos de família, funcionamento das urgências, encerramentos temporários de serviços, maternidades, contratação de profissionais e financiamento sucedem-se no debate sobre o estado do sistema.

No próximo dia 17 de Setembro, dois dias depois do aniversário, o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, recebe uma das iniciativas nacionais destinadas a assinalar a efeméride. Promovido pela Fundação para a Saúde, o encontro “SNS: Uma Conquista, Um Compromisso, Um Futuro” pretende juntar profissionais, académicos e representantes de diferentes instituições para discutir o contributo do Serviço Nacional de Saúde para a população e as condições necessárias à sua continuidade.

O título escolhido para o encontro resume uma parte importante da discussão que acompanha o aniversário.

O SNS chega aos 47 anos com resultados que modificaram profundamente a saúde dos portugueses, mas obrigado a responder a uma população mais envelhecida, a doenças diferentes, a cidadãos mais informados e exigentes e a um contexto onde a tecnologia, os custos e a disponibilidade de profissionais colocam novos problemas.

Pedro Marques acredita que essa capacidade de transformação continuará a existir. Para o presidente da ULS da Lezíria, o futuro dependerá de conseguir colocar efectivamente o cidadão no centro do sistema e de envolver profissionais, instituições e população na procura das respostas.

Quarenta e sete anos depois da publicação da lei que o criou, é nesse equilíbrio entre aquilo que conquistou e aquilo que ainda tem de resolver que o Serviço Nacional de Saúde chega a mais um aniversário.

 

Leia também...

Músico dos Santos & Pecadores morre vítima de acidente de trabalho em Tremez

Rui Martins, um dos músicos da banda Santos & Pecadores, morreu na passada sexta-feira, 14 de Maio, vítima de acidente de trabalho, na localidade…

Médico detido por abuso sexual de menores

Um homem de 27 anos foi detido esta manhã no Bairro de S. Domingos, em Santarém, no seguimento do cumprimento de um mandado de…

Alterações ao Código da Estrada entram em vigor amanhã com multas agravadas

As alterações ao Código da Estrada aprovadas em Novembro entram na sexta-feira, 8 de Janeiro, em vigor, com multas agravadas para o uso do…

O amargo Verão dos nossos amigos de quatro patas

Com a chegada do Verão, os corações humanos aquecem com a promessa de férias, descontracção, e momentos inesquecíveis. Contudo, para muitos animais de companhia…