Solidariedade na pandemia defendeu a “vida humana”

O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana manifestou preocupação com a manutenção dos empregos no contexto da crise social e económica provocada pela pandemia Covid-19, destacando a solidariedade em defesa da “vida humana”.

“Foi notável como o valor da vida humana veio ao de cima, uma convergência de vontade para defender este valor”, afirma D. José Traquina.

Segundo o bispo de Santarém, desde Março, quando começou o isolamento, houve uma “clara boa vontade” das instituições sociais que funcionaram, das autarquias, juntas de freguesia, bombeiros, que “funcionou para responder a uma causa que é absolutamente central, a vida humana”.
D. José Traquina refere que, “em dois meses, 100 mil pessoas ficaram sem trabalho”, o que “revela a fragilidade do próprio trabalho”, e há quem precise de ajuda “no que é mais elementar e básico, o apoio alimentar”.

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“As pessoas não têm uma estabilidade, não estão num quadro de estabilidade de emprego e há muitas situações de trabalho que funcionam com outros registos, outras formas de estar que também nos preocupa”, acrescentou o bispo de Santarém, alertando para há empresas que “não tem quadro social” que se conhece “como normal”.

Neste contexto, o responsável católico deu como exemplo “empresas grandes”, como plataformas de transportes, questionando “quantos empregados é que tem, actual é que é a responsabilidade social que tem com estes empregados”.

“Não há uma responsabilidade social como as outras empresas que conhecemos e, no entanto, são coisas megalómanas. Claro que queremos que as empresas funcionem, mas com responsabilidade social”, realçou D. José Traquina.

O bispo de Santarém assinala que “todos os indicativos” é que a seguir à crise de saúde provocada pela pandemia do coronavírus vai acontecer “a crise social”, que está relacionada “com a estabilidade do emprego, com o rendimento das pessoas, com o rendimento das famílias”.

Não sabemos em pormenor quais são as consequências mas sabemos que perante essa crise precisamos de estar preparados para corresponder, a solidariedade traduzida em concreto, em ajuda: Quem puder ajudar, ajude, sejam generosos”.

O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana salienta que se quer “uma sociedade que em si mesma é solidária”, não apenas uma responsabilidade do Estado que “veio ao de cima com uma grande importância nesta crise.

Para D. José Traquina este tempo “não é para amealhar, para fazer uma conta para amealhar”, mas “é um tempo para subsistir e distribuir”, por isso, é bom que, num momento de crise, “as pessoas que têm possibilidade, que têm alguma reserva, sejam confiantes e generosas para poder ajudar quem não tem”.

Família afirmou-se como valor da sociedade
D. José Traquina não tem dúvidas que a família se afirmou “como um valor muito grande” para a sociedade portuguesa, no confimanento provocado pela pandemia.

“Foi mesmo uma expressão de bem para a defesa da própria sociedade. Claro que houve dificuldades, foi o teletrabalho, foram as crianças que estiveram em aulas a partir de casa, foi algum cansaço, mas também foi a descoberta nas crianças de estar mais tempo junto dos pais, não tanto com os avós, porque se gerou esse cuidado”, disse D. José Traquina.

O bispo de Santarém realça que “a família vem ao de cima como um grande bem” neste combate contra a propagação do novo coronavírus e viu “reforçado” o seu valor.

D. José Traquina contextualiza que é a família “cuida do bom ambiente onde as pessoas se estimam, se respeitam”, e cultivam entre si um conjunto de valores que “dá gosto, e dê gosto, viver”, considerando que merecem ser “mais apoiadas para cumprir a sua missão”.

Quanto melhor a família funcionar, melhor funcionarão as empresas, melhor funcionarão as instituições, melhor funcionará a escola, melhor funcionará o mundo”.

O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana assinalou que o período de isolamento foi exaustivo para todos, porque “estar dois meses em confinamento é muito tempo”, e revela que pensou e rezou pelas famílias.

“Foi preciso muita imaginação da parte dos pais para viver essa situação com alegria, com uma capacidade de gestão dos afectos”, acrescentou, manifestando preocupação pela diminuição em 52% de “comunicações de situações de perigo” de crianças durante o confinamento, segundo dados da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens.

“Tudo o que é menos cuidado com a pessoa humana, tudo isso nos preocupa, obviamente”, referiu D. José Traquina, afirmando que a “violência doméstica em Portugal é muito preocupante”.

O bispo de Santarém alerta que o aumento dos números de queixas de violência doméstica nos últimos anos, significa que “há gente que promoveu o casamento, ou a união, mas não tem condições humanas para viver com outra pessoa”.

Ninguém nasceu para ser feliz sozinho, mas somos felizes na medida em que tornamos felizes os outros. Como é que alguém promove dentro da sua própria casa o mau estar ao ponto de estar sempre a ameaçar com a morte o seu semelhante. Não faz sentido”.

“Distribuição equitativa” da vacina para a Covid-19
Para o bispo de Santarém, o caminho para sair da pandemia implica solidariedade entre nações, destacando em particular a necessidade de uma vacina para a Covid-19 que esteja disponível para todos.

“Espero muito que essa solidariedade venha ao de cima e esteja presente. Vai ser certamente muito difícil, depende de quantas empresas vão produzir um medicamento, em quantas partes do mundo. Há sempre ganhos com essa produção e distribuição, mas os países têm estado a colaborar para que haja solução”, sustentou D. José Traquina.

“Vamos ver como é que de facto os governantes são capazes entre si, de cuidar dessa distribuição de forma equitativa, que vai chegando aos países e sendo aplicada, distribuída de forma que chegue a todos”, acrescentou.
O responsável católico destaca que a “globalização também tem aspectos positivos” e rejeita ideia de “nacionalismos egoístas”, quando o caminho é de solidariedade e entreajuda entre pessoas, instituições e nações.

“Não vá alguém entusiasmar-se a ideia de que numa ditadura é que vai. Há quem pense isso, mas não é o pensamento da Igreja”, advertiu.

Para D. José Traquina, a distância dos cidadãos às instituições nacionais e europeias, que se percebe na participação a que são chamados, “é um problema” que “preocupa e interpela”.

O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana considera que quem defende o fim da União Europeia “com certeza está a ver benefícios que são muito difíceis de entender no conjunto” que é de países fechados, onde “mais facilmente se desenvolvem as ditaduras”.

Queremos valorizar na União Europeia o sentido de comunidade e o sentido de pertença. É preciso crescer nessa dimensão”.

O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, da Igreja Católica em Portugal, assinala que a União Europeia para “além da bandeira e dos euros tem pouco mais” com que as pessoas se identifiquem.

“Uma consciência europeia não existe, mas essa consciência europeia não tem de fazer desaparecer o meu amor, consideração pelo meu país. Uma Europa de nações, mas a formar uma comunidade”, assinalou.

O bispo de Santarém recorda que este sentido de comunidade, “que surgiu depois de uma grande crise”, que foi a II Guerra Mundial, “é uma ideia positiva e exemplar para outras instituições”.

“Os políticos têm de fazer alguma coisa para inverter isto. A falta de credibilidade política leva a que as pessoas não querem saber, deixam de acreditar nos políticos que existem”, concluiu o bispo de Santarém.

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