Amiúde nos referimos à relação existente entre muitas das tradições populares e a religião cristã. O Natal ocorre num tempo que antigamente era dedicado às celebrações do solstício de Inverno, assinalado com rituais pagãos, tendo a Igreja aproveitado a força dessas tradições populares para as impregnar da espiritualidade cristã, desviando para data próxima a celebração do nascimento de Jesus Cristo.
A tradição popular do Natal está desde tempos imemoriais relacionada com o espírito de bondade, de tolerância, de paz e de harmonia, atributos que, segundo os livros sagrados, o Profeta havia anunciado com a chegada do Salvador. Do mesmo modo o espírito familiar, entendido em sentido estrito ou mais amplamente alargado a toda a comunidade, é outra das características do Natal, pelo que no quadro das tradições populares a partilha da ceia na noite da Consoada, a comunhão na Missa do Galo e a convivência junto ao cepo comunitário, assumem, igualmente, lugar de relevância.
Há, contudo, um outro aspecto bem interessante que se prende com a forma como as crianças vivem o tempo de Natal. Nos nossos dias as atenções infantis recaem quase exclusivamente no universo das prendas, sugestionadas por uma dilacerante sociedade de consumo. É um Natal mais comercial e menos afectuoso, enquanto em tempos mais recuados as magras bolsas do povo não consentiam desejos tão aliciantes como os de agora.
Outrora o Natal começava a viver-se muito antecipadamente. Era a partir do dia de Nossa Senhora Imaculada Conceição que a petizada ia pelos matos em busca de musgo para começar a montar o presépio. Com os bonecos de barro que simbolizavam as figuras do presépio fazia-se uma cabana, sob a qual se colocavam o Menino Jesus no berço, o S. José, de um lado, e a Nossa Senhora, do outro, e por detrás a vaquinha e o burrinho. De ano para ano, se ia aumentando o presépio, pois, sempre se iam comprando mais algumas peças: os reis magos, os pastores, o rebanho… enfim, conforme as magras poupanças, se aumentava a figuração da história.
Então, o Natal valia, sobretudo, pela intensidade dos afectos em torno da família e pelo rancho melhorado nesta ocasião…
Há, de facto, algumas festividades às quais está intimamente ligada uma forte componente gastronómica. São as bodas cerimoniais, às quais, como é natural, está associado outro significado para além da mera satisfação fisiológica. Após a Quaresma, em que é mister que se guarde uma profunda abstinência e jejum, a Páscoa consagra, também, uma atenção especial ao ritual gastronómico, porém, o Natal será, decerto, a festividade mais devotada à refeição colectiva envolvendo os familiares mais próximos e alguns amigos mais íntimos.
Dentro do espírito de reunião familiar próprio das tradições natalícias, as refeições em noite de Consoada e no próprio Dia de Natal constituem momentos especiais nas celebrações do nascimento de Jesus, nomeadamente em relação às respectivas ementas.
De norte a sul do país, regista-se um enorme consenso em relação ao bacalhau com couves e batatas, o célebre “bacalhau com todos”, embora em algumas regiões, sobretudo no norte, o fiel amigo seja muitas vezes substituído pelo polvo.
No almoço de Natal era frequente servir-se o peru assado no forno, o que até inspirou aquele dito popular de uma pessoa quando está triste, com um ar de derrotado, se parecer com um peru em véspera de Natal.
Também os fritos de Natal são muito característicos, recaindo uma grande preferência pelos coscorões e pelas filhoses, embora nas mesas mais abastadas aparecessem já outras guloseimas, pois, tratando-se de uma refeição festiva e que envolvia grande parte da família todos se esmeravam em oferecer o melhor que podiam. O Bolo-Rei, apesar de ter uma origem tão antiga e de ser tão apreciado nos nossos dias, não marcava presença na mesa do povo…
A véspera de Natal era um dia de grande azáfama para as mulheres da família, pois, sobre elas recaíam quase todas as tarefas domésticas, deste a preparação da mesa à própria confecção das refeições. Para acompanhar o bacalhau, ou o polvo, sempre se teriam de cortar e lavar as couves e cortar as batatas, tarefa que só era complexa pela maior quantidade do que era habitual, mas já em relação ao peru e aos fritos a coisa fiava mais fina.
Pela tarde da véspera tinha de se embebedar o peru, forçando-lhe a ingestão de aguardente, o que sempre provocava algumas cenas hilariantes, sobretudo para as crianças que se deliciavam com as “tristes figuras” do embriagado peru, aqui caindo e ali se levantando, sem controlo do equilíbrio do seu corpo.
Depois, era todo o afã de o depenar e cortar para ser assado no forno de lenha, que por estes dias não tinha um segundo de parança. Também por esta altura, tinha de se fazer a cozedura do pão e, claro, começar a amassar os fritos, alguns dos quais tinham de ficar a levedar, a “crescer” como se dizia, num alguidar de barro, bem envoltos em cobertores ou xailes de lã, para a massa fermentar melhor.
Pouco antes de se começar a comer o bacalhau, dava-se início à fritura dos coscorões e das filhoses, para que os mesmos fossem servidos bem quentinhos. Se, porventura, era de obrigação oferecer alguns fritos a pessoas a quem se deviam favores, então, este processo era ligeiramente antecipado, de modo que se pudesse fazer a oferta antes do início do jantar da família obsequiada.
Nestas refeições há condimentos que valem tanto por aquilo que simbolizam como pelo préstimo e pelo apreço nas próprias refeições. A farinha de trigo, do pão e das filhoses, o azeite, com que se tempera o bacalhau ou o polvo e onde se fritavam os coscorões, e o vinho, sempre presente em todas as mesas festivas.
Finalmente, uma tradição comum a algumas regiões do nosso país era comer-se uvas e melão em Dia de Natal, os quais eram dependurados no tempo próprio em redes de sisal para não apodrecerem, e neste dia fazia-se questão de os partilhar entre todos. Hábito especial, que representava a necessidade da poupança e o espírito da partilha. Enfim, uma vez mais, e sempre, a expressão do Natal.
Logo após o jantar, agora mais repousado e alegre pela presença de todos, ia a criançada dormir, na expectativa de que, durante a noite, o Menino Jesus descesse pela chaminé e deixasse alguma prenda no sapatinho, que previamente ali havia sido colocado. Claro, de manhã lá se encontraria alguma roupinha nova ou uns sapatinhos que se estreavam no próprio dia de Natal, e, muito raramente, algum brinquedo, porque na maior parte dos casos eram os próprios rapazes e raparigas quem os fazia, a partir daquilo que apanhavam à mão. Tempos difíceis, mas puros e perfeitos, pela candura e pela humildade com que se aceitava a sorte madrasta.
O Natal dos Simples, como canta o poeta, tinha outros encantos, e valia pelo amor e pela solidariedade que a todos unia. Hoje, na maior parte dos casos, impõe-se pela opulência das prendas – mesmo em tempo de crise!
Que o espírito de Natal volte a ser o que era são os meus votos. Boas Festas!
