Mais de 2.000 artefactos líticos datados de há cerca de 300 mil anos foram recolhidos durante a campanha arqueológica deste ano no sítio do Vale do Forno, em Alpiarça, anunciou o responsável científico do projeto.

Os materiais foram identificados durante uma escavação em área realizada por uma equipa da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que procura compreender melhor as ocupações humanas do Paleolítico Inferior na região e reconstituir o ambiente existente à época através de análises laboratoriais.

Em declarações à Lusa, o arqueólogo Carlos Ferreira, investigador da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, explicou que o principal objetivo dos trabalhos foi compreender melhor o contexto em que surgem os milhares de artefactos líticos – objeto de pedra fabricado, modificado ou utilizado por seres humanos no passado, especialmente durante a pré-história – identificados no local desde a década de 1990.

“O objetivo era perceber melhor o contexto sedimentar e estratigráfico a que estes materiais estavam associados, bem como a sua cronologia, a função para que foram utilizados e o ambiente existente na época da ocupação humana”, afirmou.

Vale do Forno, em Alpiarça, foi descoberto no início dos anos 1990, durante trabalhos coordenados pelo então diretor do Museu Nacional de Arqueologia, Luís Raposo, que resultaram na recolha de cerca de três mil artefactos líticos datados do Paleolítico Inferior.

Segundo Carlos Ferreira, as novas escavações, iniciadas em 2024 e aprofundadas este ano, resultaram na recolha de ferramentas em pedra produzidas por grupos humanos pré-históricos há aproximadamente 300 a 350 mil anos.

De acordo com o investigador, o Vale do Forno distingue-se de outros sítios arqueológicos conhecidos em Portugal e Espanha pelo elevado grau de preservação dos materiais.

“Estamos a falar de um contexto primário, em que as peças estão literalmente onde foram deixadas pelo homem pré-histórico”, salientou.

Os estudos preliminares indicam que o local corresponderia a um antigo fundo de charco ou ambiente lagunar de baixa energia, circunstância que permitiu a conservação dos artefactos na posição original.

Para Carlos Ferreira, esta “preservação excecional” permite compreender com maior detalhe as atividades desenvolvidas pelos grupos humanos que ocuparam o local.

Além das análises tecnológicas aos artefactos, a equipa pretende ainda realizar estudos paleoambientais e testar a possibilidade de recuperar ADN antigo preservado nos sedimentos argilosos.

Embora o sítio não tenha conservado restos de fauna devido às características do ambiente onde se formou, os investigadores admitem que a análise genética possa permitir identificar espécies animais presentes na região na época da ocupação humana.

“Quem sabe se com estas análises de ADN antigo podemos reconhecer sinais de espécies animais que estariam associadas ao ambiente da época e que, provavelmente, foram exploradas pelo homem pré-histórico”, afirmou.

O projeto recebeu financiamento da Leakey Foundation, organização norte-americana dedicada ao estudo da evolução humana.

Para Carlos Ferreira, o apoio representa um reconhecimento internacional da relevância científica do Vale do Forno para o estudo da evolução humana na Europa ao longo dos últimos 500 mil anos.

“O apoio desta fundação acaba por ser uma validação da importância do Vale do Forno para o estudo de problemáticas associadas à evolução humana no continente europeu”, referiu, salientando que os fundos atribuídos permitem financiar análises laboratoriais especializadas e suportar parte dos custos do trabalho de campo.

A equipa conta também com o apoio do município de Alpiarça e da Associação para o Desenvolvimento da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Segundo o investigador, concluída a campanha deste ano, a equipa encontra-se agora na fase de tratamento e análise da informação recolhida, incluindo o envio das amostras para vários laboratórios especializados. Paralelamente, começam já a ser preparados os próximos trabalhos, que deverão passar pelo alargamento da área de escavação no sítio do Vale do Forno, com o objetivo de compreender melhor a organização do espaço.

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