Rita Ribeiro Teixeira, cardiologista no Hospital CUF Santarém

No Mês do Coração, falemos de hipertensão! Esta doença ocorre quando a força exercida pelo sangue nas paredes das artérias é persistentemente superior ao normal, obrigando o coração a um esforço extra. Muitas vezes silenciosa, passa despercebida até uma fase em que já está avançada e estabelecida. O problema é que quando essa pressão se mantém elevada durante vários anos, o coração, o cérebro, os rins e os vasos sanguíneos acabam por pagar a fatura. Sendo uma alteração para a qual existe tratamento, este desfecho é, felizmente, evitável.

Em Portugal, a hipertensão arterial é uma das doenças crónicas mais prevalentes e subdiagnosticadas, constituindo um grave desafio para a saúde pública. Estima-se que cerca de quatro em cada 10 adultos sejam hipertensos e, entre eles, quase metade desconhece a sua condição. Talvez ainda mais preocupante é o facto de muitos só descobrirem que são hipertensos numa consulta por outro motivo, através de uma medição ocasional ou já perante uma complicação associada. Na prática clínica, é frequente ouvirmos dizer “sempre tive a tensão um bocadinho alta”, como se isso fosse uma característica pessoal sem grandes consequências. Mas, mesmo que apenas ligeiramente aumentada, este é um importante fator de risco cardiovascular. 

A deteção precoce, que passa pela medição da pressão arterial, é, por isso, essencial. Trata-se de um gesto simples, mas que exige observar certas condições. A pessoa deve estar sentada e em repouso durante três a cinco minutos antes da medição, com o braço apoiado ao nível do coração, e sem ter consumido café ou tabaco na meia hora anterior. Também é importante utilizar um aparelho validado e uma braçadeira ajustada ao tamanho do braço. 

Consideramos que existe hipertensão quando a pressão arterial, medida em condições adequadas, se mantém de forma persistente em valores iguais ou superiores a 140/90 mmHg. Ou seja, a pressão máxima (sistólica) acima de 140 e a mínima (diastólica) acima de 90. Nem sempre uma medição isolada no consultório conta a história toda. Por vezes, a pressão sobe apenas no consultório, correspondendo ao que chamamos de “hipertensão de bata branca”. Noutras situações, os valores parecem normais perante o médico, mas estão elevados no dia a dia, correspondendo à “hipertensão mascarada”. Nestes casos, a medição em casa ou a monitorização de 24 horas (MAPA) podem ser decisivas para o diagnóstico.

A avaliação de um doente hipertenso vai muito além do valor numérico da pressão arterial. É necessário identificar fatores de risco associados como diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade e sedentarismo, e procurar sinais de lesão nos órgãos potencialmente mais afetados.

Prevenir e controlar a hipertensão não significa apenas “baixar números”. Significa proteger órgãos vitais e ganhar anos de vida com qualidade. O primeiro passo está nas escolhas quotidianas: reduzir o consumo de sal a menos de 5 gramas por dia, adotar uma alimentação mediterrânica, praticar atividade física regular, controlar o peso, não fumar, moderar o álcool e cuidar do sono e do stress são medidas essenciais. Quando necessário, recorre-se ao tratamento farmacológico. Estes medicamentos, os chamados anti-hipertensores, não curam a doença, mas controlam-na e reduzem o risco de complicações. 

Na maioria dos casos, são necessários dois ou mais medicamentos, frequentemente em associações fixas, para atingir o controlo adequado. Um erro comum é interromper a medicação quando os valores melhoram. Na maioria das vezes, a pressão está controlada precisamente porque o tratamento está a funcionar. Alterar doses ou suspender comprimidos sem orientação médica pode ser perigoso.

Neste Mês do Coração, o apelo é simples: meça a sua pressão arterial e incentive quem o rodeia a fazê-lo. A hipertensão é comum, mas as suas consequências não têm de o ser. Detetar cedo, acompanhar com regularidade e tratar adequadamente estão entre as formas mais eficazes de proteger o coração.

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