Em 2026 assinala-se o tricentenário da Notícia Histórica e Topográfica da Vila de Alcanede, obra pioneira dedicada ao antigo “termo de Alcanede”, redigida em 1726 e integrada no contexto cultural e intelectual do século XVIII.
O manuscrito constitui um testemunho essencial sobre a história, o património natural e edificado, as instituições, os costumes e a toponímia de um território actualmente repartido por três concelhos — Alcanena, Rio Maior e Santarém — e treze freguesias — Abrã, Alcanede, Alcobertas, Amiais de Baixo, Arneiro das Milhariças, Espinheiro, Fráguas, Gançaria, Louriceira, Malhou, Minde, Pernes e São Sebastião.
Três séculos depois, a obra mantém plena actualidade como fonte de referência para investigadores e para todos os interessados na história local e regional. O tricentenário constitui, assim, uma oportunidade para homenagear o seu autor, Simão Froes de Lemos, figura fundadora da historiografia deste território, nascido em Pernes em 1675 e falecido em 1759 em Alcanede.
Inserido no espírito das academias regionais e em diálogo com outros eruditos do seu tempo, Froes de Lemos seguiu o modelo da descrição corográfica, reunindo informação que, de outro modo, se teria perdido ao longo dos séculos.
As comemorações do tricentenário pretendem não apenas fazer justiça à importância da obra e do seu autor, mas também promover o conhecimento histórico das vilas de Alcanede e de Pernes e das restantes localidades abrangidas, valorizando uma herança comum com quase nove séculos de história.
Neste contexto, está a ser concebido o programa “Tricentenário da Notícia Histórica de Alcanede e Pernes”, que envolve cidadãos e instituições, com actividades a decorrer ou a iniciar ao longo de 2026.
O programa organiza-se em vários eixos, entre os quais se destacam a homenagem pública a Simão Froes de Lemos, o acesso a obras já publicadas sobre a história e o património do território, a produção de novo conhecimento, a publicação de edições, o envolvimento das comunidades locais, a criação de roteiros histórico-patrimoniais e a comunicação do próprio programa.
Quem foi Simão Froes de Lemos
Simão Froes de Lemos nasceu em Pernes, a 31 de Agosto de 1675, filho de Gonçalo Froes de Lemos e de Francisca Micaela da Fonseca. Terá recebido a sua formação inicial, incluindo o estudo do latim, no colégio jesuíta da Quinta de São Silvestre de Pernes.
Seguiu a carreira militar, servindo a Coroa nas armadas e exercendo funções como capitão do Regimento de Infantaria da Comarca de Santarém. Participou nas campanhas do Alentejo durante a Guerra da Sucessão de Espanha (1706–1710).
Terminada a guerra, aprofundou contactos com figuras relevantes da vida cultural portuguesa do seu tempo, o que contribuiu para o desenvolvimento da sua actividade como erudito, historiador, genealogista e antiquário. Manteve correspondência com vários autores e intelectuais e participou activamente nas academias surgidas em Santarém ao longo da primeira metade do século XVIII, no contexto do Iluminismo e da criação da Academia Real da História Portuguesa.
A sua obra mais importante é a “Notícia Histórica e Topográfica da Vila de Alcanede”, redigida em 1726, na Quinta da Franca, em Alcanede, onde residiu até ao final da vida. Trata-se de um vasto levantamento histórico, geográfico, social e institucional do antigo termo de Alcanede, revelador do espírito enciclopédico do autor e da influência da tradição corográfica da época.
A obra conheceu ampla circulação manuscrita no século XVIII. Dois exemplares autógrafos foram oferecidos a eruditos do seu círculo, vindo a integrar importantes bibliotecas, nomeadamente a do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e a Biblioteca Pública de Évora. É conhecida a existência de outras cópias posteriores.
Para além desta obra, Froes de Lemos produziu escritos de natureza genealógica, histórica e crítica, conservados em manuscrito, bem como textos resultantes da sua participação nas academias escalabitanas. Demonstrou ainda interesse pela arqueologia e pelo coleccionismo de moedas antigas encontradas na região.
Teve igualmente um papel activo na vida pública local, exercendo cargos como Juiz Ordinário e Procurador-Geral da vila de Alcanede.
Por testamento, instituiu um morgado com sede na Quinta da Franca, destinado à sua família. Faleceu a 10 de Fevereiro de 1759, na referida quinta, e foi sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Purificação de Alcanede.
