Um moinho e um moleiro na serra de Montejunto

Para um moleiro, até a ‘música’ produzida pelos búzios conta. Miguel Nobre a explicar a importância dos sons produzidos pelos búzios e o devido posicionamento

Os moinhos, particularmente os de vento, fazem parte do imaginário de muitos portugueses. Mas a probabilidade da maioria nunca ter visto um em funcionamento deverá ser enorme. Hoje ainda é possível observar em muitos locais da região de Santarém os típicos troncocónicos de moinhos de outrora que, devido à qualidade de construção, parecem resistir contra tudo ou contra todos.

Ricardo Hipólito

É vê-los abandonados ou em ruínas num dos pontos mais elevados do concelho de Alpiarça, o célebre moinho do Sartel ou à entrada de Almeirim quando de Santarém se vai, um moinho de «terras baixas». Ou, então, em maior número, na serra dos Candeeiros, bem às portas de Rio Maior.
Outros lá foram aproveitados para fins habitacionais, turísticos ou de restauração, como na cidade de Santarém, o moinho do Fau. Ou aqueloutro, com um razoável grau de conservação, carregado de História e de estórias, o do «Papum», em Rodeados, freguesia de Pernes.

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E a produzir farinha, afinal a sua nobre razão de ser? A menos de uma hora de Santarém, na serra de Montejunto, entre Cadaval e Alenquer, bem perto de Vilar e Avenal, há velas desfradadas, a beijarem o vento que por aqueles lados não falta, e a fazerem girar mós de pedra. É o moinho de Avis.
Fomos à fala com o seu proprietário e restaurador, Miguel Nobre. Sem experiência em moinhos, mas com os genes de moleiro, um menino que, em tempo de escola, tinha uma queda para desenhar moinhos de vento, provavelmente já sinais a predestiná-lo para a sua ocupação umas quatro décadas mais adiante.

“O meu avô tinha uma azenha aqui, no Vilar. Fiquei com este bichinho do meu avô, porque quando tinha apenas oito anos, ele ensinou-me a fazer um mastro do moinho. O meu avô lidava com muitos moleiros. Havia um, já para o final da vida com muitas dificuldades, e o meu avô dizia-me assim: vai abrir a porta, qu’é o Direitinho que vem pedir um prato de sopa. Era o dono deste moinho. Mal sabia eu que um dia iria comprar esse moinho e restaurá-lo”. Neste caso ficou-se apenas pela parte arquitetónica. “Mas, depois, pensei: tenho que ter um moinho a sério”.

O ofício de Miguel Nobre também ajudou a que aquele bichinho tivesse pernas para andar. Passou então a dar alma a restauros do edificado. Como era carpinteiro, os seus conhecimentos permitiram-lhe refazer toda aquela parafernália dos interiores. Acaba por comprar um outro moinho, de construção datada de 1810, a meia centena de metros do primeiro. Que viria a batizar de «moinho de Avis», inaugurado em 2008.

Aquilo que mais era um hobbie transformou-se em algo mais sério. Refere-nos Miguel que “agarrei neste trabalho numa desportiva. Vou fazer um moinho e paro por aqui. Só que depois de ter feito estes dois moinhos nunca mais parei até hoje. Nunca mais! Já lá vão quarenta moinhos”.

O proprietário do moinho de Avis, junto à mó de pedra onde tinha, pela primeira vez, acabado de produzir farinha de centeio. “Correu muito bem, a farinha está uma maravilha”

Miguel Nobre é hoje um restaurador de moinhos, deixando a sua marca em vários pontos do país. Em carteira tem uma importante encomenda na Beira Interior e um projeto para a região de Santarém. E encara a sua paixão já numa verdadeira fileira de produção, ou seja, cuida do pão na terra até ao pão chegar às mesas.

Convidou-nos a ir ver uma seara, a uma dezena de quilómetros do moinho. Nos arredores da povoação de Adão Lobo, numa propriedade com cerca de dois hectares cedida por um vitivinicultor local (tem outras parcelas totalizando mais de 6 hectares), as promissoras espigas de trigo «barbela» (um trigo que há poucas décadas caminhava seriamente para o desaparecimento comercial) esperam que daí a duas ou três semanas possam ser colhidas. É visível a satisfação de Miguel Nobre na observação da seara. Poucas infestantes e espigas cheias. “O Barbela, comparado com os trigos que mais se cultivam, tem pouca altura de espiga, produz menos. A semente foi por mim escolhida. Aqui também não apliquei herbicidas, mesmo assim só há acolá em baixo uma mancha de infestantes, mas vou ter um produto de qualidade”.

É atrás de farinha de qualidade que lhe batem à porta amantes de pão artesanal que, cada vez, há mais. Como o conhecido advogado e homem da Cultura João Luiz Madeira Lopes.

Madeira Lopes conta que o seu gosto em fazer pão já vem “desde há mais de 40 anos, utilizando o fermento de padeiro, mas também fazendo experiência com o fermento natural, a massa-mãe”, acrescentando que começou por “por cozer no forno a gás, depois em forno elétrico e desde há 20 anos, quando me mudei para o campo … em forno de lenha”.

Fazendo pão para a família e também para amigos e ‘interessados’, busca, como referimos, matéria prima de qualidade, numa antítese ao que hoje ocorre “com a proliferação dos supermercados, com a venda do pão quente, à base de farinhas brancas, com muito glúten, de má qualidade e adição de conservantes e químicos diversos, que prejudicam a saúde”, sublinha o já mestre padeiro scalabitano.

Entre as ‘obras’ de Madeira Lopes figuram, por exemplo, o ancestral pão de farinha de trigo, barbela e espelta, pão de nozes e passas, pain de campagne, pão de cebola caramelizada ou ainda pão com farinha de ‘mistura do meu avô’, esta última com selo de Miguel Nobre.

A mistura assenta numa composição de trigo «barbela», trigo mole (45%), um trigo duro «preto amarelo» (45%) e aveia selvagem (10%). Segundo Nobre, assim se conjugam as várias características das matérias primas. O trigo rijo “é um trigo de força, ou seja, um trigo com glúten e que faz crescer esse cereal. O barbela é nosso, é português, muito rico em nutrientes, é o melhor trigo que nós temos, para a saúde. Só que, só por si, não dá aquele pão com alvéolos por dentro”, concluindo que desta mistura resulta “um pão mais equilibrado, mais saudável. E, ao fim e ao cabo, faz-se um pão mais escuro, com os benefícios da aveia. Assim pensava o meu avô e eu continuo”.

Moinho de Avis

Na visita guiada pelo moinho, onde tinha acabado de moer farinha de centeio, tempo ainda para nos mostrar uma saca de farinha de trigo espelta, muito apreciada por especialistas da arte de fazer pão, como João Luiz Madeira Lopes. Que não deixa de enaltecer o moleiro de Montejunto. “O Miguel Nobre, do Moinho de Avis, alia o seu entusiasmo na recuperação de moinhos, em semear trigos antigos, moer no seu moinho de pedra com a força do vento e manter a tradição que já vem do avô, sendo reconhecida a qualidade do cereal moído desse modo, comparativamente com os cilindros metálicos”.

O nosso anfitrião, certificado como formador pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional e, desde 2010, com carta de artesão atribuída por aquela entidade pública no âmbito de um programa de promoção dos ofícios e das microempresas artesanais, não tem agora mãos a medir, que se deve por um lado à reconhecida qualidade das farinhas produzidas e à seriedade com que encara o processo desde a sementeira até ao produto (quase) final, mas também, como não deixa de sublinhar Madeira Lopes, porque “nos últimos anos, um pouco por todo o mundo e em Portugal, com algum atraso, já começam a abrir padarias com pão de qualidade, acompanhando o consumo de produtos bio”.

O «moinho de Avis» serve agora de ponto de venda de farinhas, de mostruário aos seus clientes para restauração de moinhos, espaço de formação e de museu vivo. Ao lado, no «curral do burro», transformado num pequeno restaurante e com uma vista soberba, os viajantes poderão saborear um cozido à portuguesa no pão, pão feito a partir do grão moído no vizinho moinho. Mas para a mesa, só com reserva e aos fins de semana.
Para chegar ao moinho (próximo de Vilar, Cadaval), saber mais ou chegar à fala como o moleiro Nobre, para além da página na rede social facebook, muitas são as publicações que se têm dedicado a esta pérola da serra de Montejunto.

Ricardo Hipólito

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Comentários

  1. Dina Moreira 19/07/2020
  2. Cássio 19/07/2020