O mês que despede os anos e dá as boas-vindas ao seguinte, já entrou. E não é preciso arrancar ao calendário a folha de Novembro para o saber. Basta sentir os frios dos fins de tarde, é suficiente ver os ornamentos de Natal, com os multicores leds a acenderem e apagarem, alternadamente, como é tentador o cheiro a fritos que, aqui e ali nos entra nas narinas, para que o nosso cérebro lembre outros e já muito antigos natais que vivemos nesta cidade, capital de um Ribatejo, que hoje, já muito poucos saberão o que é, ou melhor, o que foi. Santarém era, toda ela, uma montra iluminada, com um comércio florescente, que exibia as novidades de então, fosse em roupas, equipamentos para as casas, ou para aquilo que as crianças mais gostavam, evidentemente, os brinquedos.
É certo que não havia iluminações de Natal, uma modernice apenas com pouco mais de vinte anos, porque o que interessava estava nos estabelecimentos. As guloseimas para a mesa da consoada, compravam-se nas pastelarias da Abídis, ou da Bijou, heroína sobrevivente desses tempos, ou nas mercearias dos Srs. Venceslau, Carlos Ribeiro ou Leonardo Ramos.
Os tempos de hoje são outros. As grandes superfícies chamam os seus clientes, com campanhas e “Black Fridays”. Também a moda de comprar por internet, produtos baratos, leva que se recebam muitos gatos, quando o que se pretendia eram apenas umas lebres a bom preço.
Com o passar dos anos, as luzes das muitas montras da velha, mas bonita cidade, foram-se apagando para não mais se acenderem. Novos pequenos comércios foram, entretanto, aparecendo, mas alguns não vingaram, porque o ritmo de agora, não aguenta muito tempo de experiências.
Numa destas tardes de sol aconchegante, dei um passeio de saudade nas ruas que eram as denominadas do “quadrinho de ouro”. Largo do Seminário, Rua Capelo Ivens, Guilherme de Azevedo, Rua Serpa Pinto, Praça Visconde Serra do Pilar, Rua Primeiro de Dezembro, para entroncar de novo na Capelo Ivens, no chamado Canto da Cruz.
As casas de comércio aberto que encontrei, são de autênticos resilientes. Que a todos títulos merecem o nosso carinho e compreensão, porque, devemos dizê-lo, a luta é muito desigual, tipo David contra Golias
Mas, julgo saber, que também eles já interiorizaram, que ali está a sua vida e que não querem renunciar a ela, como se fosse um posto de combate que juraram defender. Neste mês, em que todos temos pensamentos de solidariedade, ouso pedir aos meus leitores que experimentem fazer algumas compras no centro da cidade. Vão gostar.
Não só terão um atendimento profissional e personalizado, como ficam a conhecer a cara de quem lhes vendeu, o que é bem diferente de tirar de uma prateleira e meter no saco. Provavelmente, perderão uma ou duas horas, mas acreditem que o retorno será bastante compensador.
A propósito, quero hoje lembrar uma grande figura desta cidade e nele homenagear todos os que, naquele tempo, fizeram de Santarém um grande polo de comércio.
Era conhecido de todos por Chico, Chico tenho… tenho!!!, porque respondia sempre assim, a quem lhe perguntava por qualquer produto, na sua loja de artigos para o lar.
– Senhor Chico! Preciso de uma prenda para um amigo. Tem cá alguma coisa?
– Claro que tenho! Vou-lhe mostrar uma garrafa em cristal, que é a mais bonita da loja.
Ora aqui está! É ou não é linda?…
– Oh! Sr. Chico, eu não gosto muito….
– Não acha bonita?… Realmente… tem razão. Olhando melhor, eu também não gosto.
Vou-lhe buscar outra coisa….
Nota final: Não é conhecido, quem tenha de lá saído, sem ter comprado ao Chico tenho…tenho, o quer que fosse!!!
Boas-Festas, a Todos.
