A Galeria do Oriente D. Francisco de Almeida do Centro Museológico Professor Doutor Cândido Azevedo foi inaugurada no domingo (dia 10 de Maio) na Vila de Pernes, numa cerimónia que contou com intervenções do presidente da Câmara de Santarém, João Teixeira Leite, do presidente da Junta de Pernes, Raul Violante e de Cândido Azevedo.
A Colecção Cândido Azevedo & Netos, doada pelo próprio à freguesia de Pernes, revela mais de cinco séculos de contactos culturais, crenças, vivências, memórias, saberes e arte, estabelecidos via expansão marítima portuguesa, com os diferentes povos do Oriente.
“Este espaço que hoje se inaugura olha para o passado com distanciamento, pluralismo e com sentido crítico. Manifesta-se na preservação da memória: memória do encontro entre culturas, pois cada peça conta a história de homens e mulheres, pois os descobrimentos portugueses funcionaram como um catalisador para uma vasta troca cultural, económica e científica”, afirmou Cândido Azevedo na sessão.
Segundo o professor os visitantes, ao percorrerem a exposição, não observarão apenas objectos, mas “ferramentas e motor de um saber que uniu oceanos”. Evoca este espaço-museu o nome de D. Francisco de Almeida, o primeiro Vice-Rei do Estado da Índia que “por estas terras ribatejanas se fez homem e que seguramente lhe moldaram o carácter e a audácia, fazendo brotar nele a inteligência militar, a liderança, firmeza e honra”.
Ao dar o nome de D. Francisco de Almeida a esta Galeria, já que “viveu partes da sua juventude num palacete da família aqui próximo”, em Pernes, Cândido Azevedo pretende que o espaço seja “uma sala de aula viva, de carácter didáctico e de fácil compreensão, onde se pudesse falar da nossa história através das peças expostas”, prosseguiu.
Peças com “centenas de anos” que Cândido Azevedo adquiriu ao longo de uma vivência Oriental de mais de quatro décadas que recusou vender e, ao invés disso, “guardar para ensinar e proteger a identidade de um tempo”, pois o professor nota que as novas gerações têm uma ligação menos próxima com o passado.
“Há uma lacuna muito visível na sua literacia histórica, pelo que há que reforçar e melhorar o seu contacto com a multisecular história de Portugal e Pernes e Santarém vão desempenhar tal papel”, reforça.
O professor pretende que quem visite este espaço saia “inspirado por tudo o que estas peças significam”.
“Aqui terão os jovens uma sala de estudos sobre a expansão portuguesa com cerca de 500 livros dedicados ao tema que também doei”, acrescentou.
Cândido Azevedo tornou público ainda que os estudantes do concelho de Santarém poderão anualmente habilitar-se a um prémio literário que esta galeria atribuirá, em colaboração com a escola secundária de Pernes. Terá também por missão a realização anual de conferências de carácter histórico sobre a sua temática. Cândido Azevedo pretende que este espaço museológico não seja visto como “um depósito de objectos”, mas sim como “um portal de descoberta, compreensão, pleno em dinâmicas e merecedor de visitas constantes”.
Na sua intervenção, Cândido Azevedo destacou o gesto de “grande generosidade” dos seus três netos, Francisca, Diogo e Maria e de Isabel Maria, avó destes, porque “decidiram abdicar de muitas e valiosas peças que eu lhes prometera oferecer”.
“Abdicaram para que elas se tornassem um bem público. Compreenderam que o verdadeiro brilho daquelas peças não estava em telas guardadas só para si, permitindo a alegria de que outras pessoas as pudessem descobrir”, afirmou, emocionado.
Agradeceu ainda a Isabel Maria e a João Videira todo o apoio na escolha do que está exposto e à família Montês pela cedência temporária de uma arma também exposta.
Uma palavra ainda para Raul Violante que se disponibilizou para receber este espólio: “empenhou-se, superou-se, com resiliência e dedicação redobradas, garantindo que estas peças, todas adquiridas nos antigos territórios do Império Português do Oriente viessem para a sua terra”, destacou.
Na mesma sessão, Raul Violante, presidente da Junta de Freguesia de Pernes, sublinhou a importância desta doação para a vila e para o concelho de Santarém, “reflexo do acervo que Cândido Azevedo adquiriu em mais de 40 anos de extremo oriente, agora doado à Freguesia e que vem enriquecer o nosso património. Estou convicto que as gentes de Pernes lhe ficarão eternamente gratas”, afirmou Raul Violante.
Raul Violante esclareceu que a ideia de instalar na vila este museu “começou com uma simples conversa sobre piões”. “Cândido Azevedo ao longo da vida foi-os coleccionando, tendo em conta que Pernes produziu centenas de milhares ao longo de séculos, ainda hoje é conhecida pelos seus torneados de madeira e como terra do pião”, nota.
Cerca de 1.400 piões serão expostos numa segunda galeria a instalar neste Centro Museológico.
O futuro Museu do Pião, com mais de 1.400 piões de todo o mundo, cuja primeira linha de fabrico em Portugal nasceu em Pernes nos finais do século XIX, terá a particularidade de ser o terceiro no mundo dedicado exclusivamente ao pião, depois dos museus do Japão e dos Estados Unidos.
O autarca agradeceu ainda o apoio financeiro da Câmara de Santarém a este projecto, salientando, ao concluir que “o futuro de Pernes passa por apostarmos nas potencialidades que temos,” disse.
A fechar as intervenções, o presidente da Câmara de Santarém, sublinhou a “generosa doação” do Professor Doutor Cândido Azevedo.
“A Colecção Cândido Azevedo & Netos simboliza cinco séculos de presença portuguesa no Oriente. Artefactos, mobiliário, porcelanas, relógios, pinturas, têxteis, entre tantos outros objectos, dão corpo a um património de enorme valor histórico, cultural e identitário”, reconhece o presidente do Município.
Para João Teixeira Leite, “Santarém fica profundamente devedora ao Prof. Cândido Azevedo e à sua família pela entrega deste espólio a Pernes e ao concelho, enriquecendo a memória colectiva e valorizando a ligação histórica de Portugal ao Oriente”.
Para o edil, esta inauguração assume ainda maior significado por representar o segundo centro museológico inaugurado em freguesias rurais no último mês. O primeiro foi em Alcanede, Museu de Arqueologia da Igreja de Alcanede, “reforçando uma estratégia de valorização cultural descentralizada e de investimento no nosso território”, frisou.
“Estes investimentos são fundamentais para preservar e valorizar a nossa história, afirmar a identidade das nossas freguesias e criar novos motivos de visitação ao concelho.
Ao levar cultura, património e conhecimento às freguesias rurais, estamos também a promover dinamismo local, atractividade turística e desenvolvimento para todo o território”, concluiu João Leite.
Uma ideia com três anos
A ideia de criar o Centro Museológico Professor Doutor Cândido Azevedo foi apresentada publicamente há três anos, no decorrer da sessão pública das comemorações do 25 de Abril na vila de Pernes.
No final das intervenções foi levantado o véu do que viria a ser o Centro Museológico, subdividido entre a agora inaugurada “Galeria do Oriente” e o futuro “Museu do Pião”, uma das imagens de marca de Pernes.
Os torneados de madeira em Pernes, tiveram o seu início no ano de 1776, com a instalação de uma fábrica de limas, anexa a uma serralharia instalada em 1772, na Quinta de S. Silvestre, pelo italiano Pedro Schiappa Pietra. O fabrico de limas exigia o fabrico de cabos de madeira, daí até ao tornear o pião foi um salto. A Galeria do Oriente, porque se refere ao encontro iniciado em 1415 entre os portugueses, povo do Ocidente, com os povos do Oriente nomeadamente com os povos da África e da Ásia ao longo de mais de quatro séculos de existência. E esta Galeria tem também uma forte ligação a Pernes dado que D. Francisco de Almeida, nomeado em 1505 por D. Manuel I, 1º Vice-Rei para o Estado da Índia, viveu períodos da sua juventude no chamado Moinho Manuelino, de seus pais, os Condes de Abrantes.
Na sua intervenção, a 25 de Abril de 2023, o presidente da Junta de Freguesia, Raúl Violante, fez a apresentação da referida exposição e do seu doador, Professor Cândido Azevedo e sua família, antecipando a missão do Centro Museológico, face ao conteúdo a expor e à sua missão nas suas várias vertentes sociais e históricas, procurando que este “seja uma casa dinâmica e plurifacetada”.
Hoje a “Galeria Oriente” é já uma realidade. Para os interessados em explorar com maior detalhe os temas das 22 vitrines ali patentes existe um roteiro temático, ferramentas que aprofundam o contexto histórico, detalhes técnicos, particularidades e curiosidades de cada uma das peças e quadros expostos. Haverá ainda visitadas guiadas sempre que solicitadas para uma contextualização mais completa.
A entrada na Galeria é gratuita, para visitas guiadas há necessidade de um contacto prévio com a Junta de freguesia de Pernes. A Galeria funciona de terça a sexta-feira, das 14h30 às 17h30 e aos sábados e domingos por marcação. Encerra à segunda-feira e feriados. Encontra-se disponível para escolas e associações sem fins lucrativos às terças e sextas-feiras, das 10h00 às 12h30 e das 14h30 às 17h00. Os interessados nas visitas guiadas por um guia especializado terão necessidade de fazer um contacto prévio na junta de Freguesia de Pernes.


