Tive oportunidade, há mesmo muitos anos, de ser levado por meu avô Joaquim Vicente Serrão (1904-1990) a entrar na igreja matriz de Nossa Senhora do Monte do Carmo em Moçarria, aldeia recôndita do concelho de Santarém, e aí admirar a grande tela do século XVIII exposta no altar-mor.
Muito jovem, sendo ainda estudante liceal em Lisboa, acompanhei amiúde o meu avô, quando vinha a Santarém visitá-lo, nas suas deambulações de retalhista por aldeias rurais. Era um homem singular, muito comunicativo, dotado de uma cultura empírica e de um saber ancorado nos princípios civilistas que caracterizavam o ideário republicano, como reconhecem unanimemente os que o conheceram. Apesar de ele ser maçon (como vim a saber mais tarde), a vincada postura anti-clerical de Joaquim Vicente Serrão não desconsiderava as igrejas, antes as via como espaços de História que mereciam ser admirados enquanto testemunhos do passado. Tinha consciência do valor patrimonial da região e sempre o ouvi discorrer a esse respeito com grande entusiasmo. Foi assim que contemplei circunstancialmente, há quase sessenta anos, a óptima pintura setecentista que revisito nesta crónica.
Meu Avô sabia — pois tinha entre os seus livros o Inventário Artístico de Portugal (tomo III – Distrito de Santarém, 1949, p. 93) de Gustavo de Matos Sequeira — que os bens móveis da antiga paróquia do Salvador, demolida em 1909 por causa da irrecuperável ruína sofrida por efeito do sismo desse ano, se haviam dispersado por várias igrejas dos arredores. Era esse o caso de Moçarria onde (diz-nos o mesmo inventário) se acolheram então quadros, imagens e outras peças litúrgicas, entre elas a grande tela de Nossa Senhora do Carmo, vindas do Salvador. Acrescia o facto de se tratar de pintura da autoria do famoso Francisco Vieira de Matos, o Vieira Lusitano (1699-1783), um nome que constava já em todas as Histórias da Arte portuguesa, pelo que a tela em causa devia merecer uma atenção especial.
…Volto a admirar agora o quadro de Vieira Lusitano e a investigar mais e melhor o assunto. O quadro é de absoluta excelência, mostrando como o pintor acolheu a lição de desenho e modelação cromática dos seus mestres romanos (entre eles Francesco Trevisano e Benedetto Luti). Trata-se, por certo, de uma peça digna de museu. A composição é extraordinária, tanto na escala, como nos escorços e debuxos de figura, como na modelação das sombras e na minúcia dos pormenores (veja-se, por exemplo, o dinâmico anjo em contraposto, à direita). Ao centro, a figura de Nossa Senhora do Carmo, coroada, trajando uma túnica acastanhada coberta por manto alvo, está sentada sobre nuvens, tendo ao colo o Menino Jesus desnudo, entre uma plêiade de anjos, serafins e querubins. Trata-se, à evidência, de modelos e receitas muito pessoalizadas, sempre presentes nas obras maduras do artista, desde o tipo de figura da Virgem com o Menino, como nos modelos usados para os anjos, que se repetem noutras telas produzidas pelo pintor (em alguns quadros do convento de Mafra e do Museu Nacional de Arte Antiga, por exemplo).
Francisco Vieira Lusitano foi uma celebridade do seu tempo. Gozou da protecção do Marquês de Fontes D. Rodrigo Anes da Sá Almeida e Meneses (1676-1733), depois 1º Marquês de Abrantes, que foi embaixador na Cidade Papal, o que lhe permitiu que em 1712, ainda adolescente, fizesse uma primeira viagem a Roma, onde seguiu estudos da sua arte junto a Benedetto Luti e Francesco Trevisani, seus mestres. Voltaria em 1721 a Roma, ingressando na Academia de São Lucas; será depois cavaleiro da Ordem de Santiago, pintor régio de D. João V em 1733 (cargo em que substituíu o francês Pierre Antoine Quillard), e figura de proa na formação dos pintores portugueses sequazes dos modelos do Barroco proselitista italiano. Torna-se então o mais reputado dos pintores de corte, com múltiplas encomendas de sucesso com destino a igrejas, conventos e palácios (parte das quais foi malogradamente destruída com o terramoto de 1755). Abandonou a pintura em 1774, a seguir a enviuvar, mas ainda foi chamado a dirigir em 1780 a efémera Academia do Nu. No fim de longa e trabalhosa vida, ingressou no convento do Beato António, em Xabregas, onde escreveu a sua citada autobiografia, intitulada O insigne pintor e leal esposo Vieira Luzitano, história verdadeira que elle escreve em cantos lyricos.
Além de pintor de História, também se notabilizou como gravador de água-forte e hábil retratista e, ainda, como inventariante, avaliador e restaurador de pintura antiga; é sua, por exemplo, a peritagem da famosa pinacoteca do Marquês de Penalva. Apesar do reconhecimento artístico que mereceu, a sua vida foi atribulada no plano afectivo devido aos amores contrariados com a nobre D. Inês Helena de Lima e Melo, sua esposa, a qual teve de raptar de um convento, o que lhe acarretou múltiplos problemas e, mesmo, uma tentativa de assassinato por parte de um dos cunhados (tal como conta na sua rara biografia, editada em Lisboa em 1780). A sua vasta obra é hoje bem conhecida graças aos trabalhos de Julieta Ferrão, Reynaldo dos Santos, José Fernandes Pereira, Nuno Saldanha, Susana Gonçalves e Luísa Arruda, entre outros historiadores de arte.
Voltando à excelente tela da igreja de Moçarria, que terá sido pintada entre os anos de 1740 e 1750, sabemos que ela ingressou nesse templo rural pouco após a sua construção, em 1905, como sede de de uma das novas paróquias criadas no concelho de Santarém. O quadro veio, di-lo taxativamente Gustavo de Matos Sequeira, da antiga igreja do Salvador, cujo espólio, aquando da demolição em 1909 por efeitos do sismo, foi distribuído pelas freguesias mais carecidas de erquipamento litúrgico. Diz Matos Sequeira que é «templo modesto, que foi alfaiado à custa da igreja do Salvador de Santarém» e que «de lá veio a tela que está no altar-mór e representa o Orago, 2m500 x 1m600, pintura do género das de Vieira Lusitano», bem como uma imagem em madeira estofada de Sant’Ana, também do pleno século XVIII.
Através da documentação existente, incluindo um relato inédito do Cónego Joaquim Duarte Dias no arquivo da Misericórdia (que descreve a igreja do Salvador, que se erguia no local onde existe o largo Padre Chiquito, como se sabe, antes de o sismo de 1909 a ter arruinado sem remissão, o que fez desaparecer muitas obras, incluindo o tecto pintado por Luís Gonçalves de Sena), fica-se na dúvida sobre a origem da tela, que não é referida, apesar das suas vastas dimensões e da sua qualidade acima da mediania. Recuando nas fontes mais credíveis, de facto, nem o padre Luís Montês Matoso na Santarem Illustrada (1738, pp. 205-213), nem o padre Inácio da Piedade e Vasconcelos na Historia de Santarem Edificada (1740, Parte II, cap. 1º), referenciam o quadro de Vieira Lusitano como existente no Salvador. A temática carmelita podia compaginar-se com um templo onde nenhuma das capelas acolhia esse culto ? Será que o quadro veio de algum convento extinto e se acolheu temporariamente no Salvador, antes de seguir para a Moçarria a seguir à demolição do templo santareno ? Não sabemos.
Uma tradição de que se trata de uma pintura oriunda de uma casa carmelita de Lisboa, e que um padre de Abitureiras a teria ofertado por sua devoção à nova paróquia criada na Moçarria, consta dos Tesouros Artísticos de Portugal coordenados por José António Ferreira de Almeida (1976, p. 3908), que mais diz que a grande tela estava atribuída a… Rafael de Urbino ! O padre alegadamente doador do quadro era o cónego António Carvalho, e a entrega à matriz da nova freguesa teria ocorrido em 1909, mas não é possível, para já, determinar o fundamento desta tradição.
O que é certo é que o enorme painel se encontra há mais de um século a ornar o altar-mor da igreja, enriquecendo-a em termos devocionais e artísticos e justificando um maior surto de visitas, dada a sua real importância patrimonial. Obra pintada após o segundo regresso de Roma de Vieira Lusitano, mostra no seu desenho irrepreensível, no colorido luminoso e na ciência compositiva o melhor do estilo de Trevisani, um dos seus mestres. É o gosto do Barroco romanista da época de D. João V que se respira no quadro de Moçarria; estamos, pois, nos anos 30 a 40 do século XVIII, época em que se erguia o convento de Mafra, onde Vieira também se notabilizou.
Trata-se, em suma, de uma obra-prima absoluta, a enriquecer um pequeno templo que nada mais tem de especialmente notável, e que urge admirar com maior atenção pois é, por certo, uma das melhores obras de arte barroca existentes em toda a Diocese.
Num tempo de cinzas, em que o belicismo, o ódio, a intolerância, a desmemória e o culto da violência superam todos os limites da crueldade e do absurdo, é preciso saber por vezes descansar os olhos deixando-os voar com as artes — aquelas que ainda brilham, respiram e redimem. A Cultura é também isso: espaço de encontro com outros saberes, de diálogo nas diferenças e de pacificação entre os homens. No caso da tela de Moçarria, acresce o orgulho comunitário que ela aporta como traço da sua identidade mais duradoira.
Nota final: agradeço à Dra Eva Raquel Neves a fotografia da tela, ao Padre Nuno Pena (pároco de Moçarria, Várzea e Abitureiras), bem como ao Prof. Nuno Saldanha, ao Vereador Nuno Domingos, à Dra Alexandra Gomes Markl e ao Dr. José João Loureiro pelas informações trocadas a este propósito.
